sexta-feira, 1 de julho de 2011

Irei Cuspir-vos nos Túmulos - Boris Vian*

Boris Vian Baron Visi Hugo Hachebuisson Brisavion writer poet musician non-sense literature books livros literatura escritor foto poeta músico cantor dramaturgo crítico
Sentia-o junto à coxa, pesado e frio como um animal morto. O bolso e o cinto pendiam com o peso e, a camisa, do lado direito, tufava sobre as calças. O impermiável impedia que se visse, mas de cada vez que estendia a perna, o tecido ganhava um grande vinco e isso toda a gente notava. O mais sensato era seguir por outro caminho. (...) Chocou com um ciclista que dava a volta sem avisar. O pedal arrancou-lhe a dobra das calças e lacerou-lhe o tronozelo. Quando sentiu que ia cair, estendeu as mãos para a frente, ao mesmo tempo que soltava um grito de terror. Vieram ambos estatelar-se no hão enlameado. A pouca distância, havia um chui. Cláudio Leão livrara-se da bicicleta, mas o tornozelo doía-lhe horrivelmente. O ciclista tinha um pulso torcido e, com sangue a espirrar-lhe do nariz, insultava Cláudio e Cláudio começava a encher-se de cólera, o coração batia-lhe, sentia um calor descer-lhe pelas mãos ao passo que o sangue circulava optimamente, latejava no tornozelo e na coxa e levantava o tira-teimas a cada pulsação. Nisto, o ciclista lança-lhe o punho esquerdo à cara e Cláudio faz-se ainda mais pálido. Mergulha a mão no bolso, tira o tira-teimas. Dá-lhe vontade de rir, porque o ciclista balbucia e recua; sente um choque horrível na mão e o cacete do chui a baixar. O chui apanha o tira-teimas, agarra Cláudio pela gola.Cláudio já não sente nada na mão. Volta-se de repente, estende a perna direita, visa o baixo-ventre do chui que se dobra em dois e larga o tira-teimas. Cláudio, com um grunhido de prazer, corre a apanhá-lo, e descarrega-o em seguida cuidadosamente sobre o ciclista, que leva as mãos à cintura e senta-se devagarinho fazendo âââh... mesmo lá do fundo da graganta. O fumo dos dois cartuchos cheirava bem e Cláudio soprou no cano como vira fazer no cinema; voltou a meter o tira-teimas no bolso e deixou-se cair em cima do chui. Queria dormir.

Confissões de uma Máscara de Yukio Mishima

Yukio Mishima Eiko Hosoe Torture By Roses photo fotografia literatura

Quando um rapaz de catorze ou quinze anos descobre que a sua inclinação para a introspecção e a análise de si próprio é mais nítida que nos rapazes da sua idade, é invitável a tentação de pensar que é mais maduro do que eles. No meu caso, um tal raciocínio era completamente errado. Na realidade, os outros rapazes não sentiam a necessidade de se compreenderem, porque podiam ser naturais, enquanto eu tinha que desempenhar um papel, o que exigia uma atenção e um discernimento consideráveis. Da mesma forma, não era a minha maturidade de espírito, mas o meu sentimento de mal-estar e a minha incerteza, que me obrigavam a exercer vigilância sobre o meu eu consciente. Porque uma tal consciência de mim era apenas um passo para a aberração e a minha maneira de pensar actual tão-só a expressão de uma conjectura incerta e aleatória. (p. 114) Nessa noite, depois de chegar à nossa casa dos arredores, comecei, pela primeira vez na minha vida, a encarar seriamente a hipótese de me suicidar. Mas, pensando bem, esta ideia pareceu-me extremamente enfadonha e acabei por decidir que seri um acto profundamente ridículo. Por disposição natural, tinha sempre relutância em dar-me por vencido. Além do mais, disse para comigo, é inútil ser eu a cometer esse acto decisivo, com tantas maneiras de morrer aqui mesmo, à minha volta: a morte durante um raid aéreo, a morte no meu posto, a morte no serviço militar, a morte no campo de batalha, a morte num desastre de automóvel, a morte por doença. Era indubitável que o meu nome já estava inscrito numa dessas listas; e um condenado à morte não se suicida. Não, qualquer que fosse o ângulo de abordagem, não me parecia que os tempos estivessem para suicídios. Seria melhor que algo me fizesse o favor de acabar comigo. O que, em última análise, é o mesmo que dizer que estava à espera que algo me fizesse o favor de me manter vivo. (p. 207)

Queer de William Burroughs

William Burroughs queer naked lunck junkie literature book livros gay photo
O rapaz era louro, de rosto magro e fino, sardento, sempre um pouco rosado à volta das orelhas e no nariz, como se tivesse acabado de se lavar. Lee nunca tinha conhecido ninguém com ar tão limpo como Carl. (p. 27) Moor era um rapaz louro e magro que, habitualmente, era um pouco lento. Tinha olhos azul-claros e pele muito branca. (...) Parecia uma criança, mas, ao mesmo tempo, um homem prematuramente envelhecido. (p. 31) - O que há? - Perguntou Lee. - Não muita coisa. Excepto que alguém roubou a minha máquina de escrever. Sei quem ma roubou. Foi aquele brasileiro ou o que quer que ele é. Tu conheces... o Maurice. - Maurice? Aquele com quem andaste a semana passada? O lutador? - Esse é o Louie, o professor de ginástica. Não, este é outro. O Louie decidiu que todo este género de coisas é muito mau e disse-me que eu vou parar ao inferno, mas que ele vai para o céu. (pp. 37-38) Lee tirou-lhe os sapatos e as meias. Desapertou-lhe o cinto e desabotoou-lhe as calças. Allerton arqueou o corpo e Lee puxou-lhe as calças e as cuecas. Tirou as suas próprias calças e cuecas e deitou-se ao lado de Allerton. Allerton reagiu sem hostilidade nem repugnância, mas Lee apercebeu-se de uma curiosa indiferença reflectida nos seus olhos, a calma impessoal de um animal ou de uma criança. (p. 67) Obrigou-se a aceitar os factos. Allerton não era suficientemente homossexual para tornar possível uma relação recíproca. A afeição que sentia por ele irritava-o. Como muita gente sem nada para fazer, ressentia-se quando lhe roubavam tempo. Não tinha amigos íntimos. Detestava encontros marcados com antecedência. Não gostava de sentir que alguém esperava algo dele. Queria, tanto quanto possível, viver sem presões exteriores. (p. 80)