domingo, 20 de junho de 2010

JOSÉ SARAMAGO


Na fotografia, o momento em que José Saramago autografava o único livro seu que tenho autografado. Calhou em sorte ser "A Caverna", no dia 25 de Novembro de 2000, alguns dias após a saída do romance. Gostaria que tivesse sido "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" ou "O Ensaio Sobre a Lucidez" ou mesmo "A Bagagem do Viajante" (crónicas), um dos meus preferidos, crónicas anteriores aos romances que lhe trouxeram aclamação mundial, e que têm já nas linhas e entrelinhas tudo o que veio depois, na Literatura e na vida pública do autor. Naquele 25 de Novembro de 2000, não sei porquê, o José Saramago trocou-me o nome. Olhou para mim, perguntou qual o nome que queria, disse-lho, e quando cheguei a casa, ao abrir o livro novamente deparei-me com outro nome (o primeiro, que o segundo está correcto, conforme ao meu bilhete de identidade). Sempre que abro o livro sorrio. É o único romance do Saramago que até hoje nunca li.

Anos mais tarde poderia ter tido o Evangelho autografado, ou outro qualquer. Mas preferi não ter. Porque era no mínimo desagradável o abuso de muitos leitores (?) que chegavam às apresentações de livros do José Saramago, carregados com todos os livros que tinham em casa. Ainda assim, José Saramago ali permanecia durante horas estóicas, a fio. Mais tarde já não tinha esse tempo, essa disponibilidade. Era até uma falta de respeito, quanto a mim, levar mais que um livro. Numa das sessões de apresentação de "Ensaio sobre a Lucidez" em cuja organização participei, não houve tempo para a habitual sessão de autógrafos. Houve quem falasse em devolver o livro (e houve quem devolvesse mesmo) por não terem o autógrafo! Quão mesquinho é o ser humano! Enquanto membro da organização daquela sessão de apresentação, a Editorial Caminho ofereceu-se para levar livros para serem autografados posteriormente pelo José Saramago. Mas eu não quis. O José Saramago era o meu preferido dos escritores vivos. Agora o José Saramago é um dos meus preferidos dos escritores imortais.

Comprei os jornais diários todos. Sobre certas figuras e instituições, nem comentários há a fazer. Enfim, previsíveis. Morreu o único Nobel da Literatura Portuguesa. Goste-se ou não, morreu o único escritor Português a quem foi atribuído o Prémio Nobel. Estava e já não está. A sua obra continua a acompanhar-nos.

domingo, 6 de junho de 2010

A MINHA SELECÇÃO*


*A minha Nação é o Sport Lisboa e Benfica, a minha Pátria, como para Bernardo Soares, é a Língua Portuguesa.

domingo, 18 de abril de 2010

DA LIBERDADE (II)

Outra consequência dos momentos que vivemos pode ser mais medo? Acho que sim. Se há uma escala, onde cabe o receio, o medo, o terror, acho que hoje já se vive muito com receio de perder o emprego, a casa, de perder um amigo, de ser incomodado, de se despedir...

Do que se diz? Sim, sim, sim, sim! E sinto que as pessoas dizem mesmo que é preciso prudência no que se diz, no que se faz, porque temem represálias. Há duas ou três décadas havia menos receio, havia mais esperança.

Sente-se feliz? Sou simultaneamente feliz e insatisfeito. Só os adolescentes acham que não há contradições na vida. Nunca posso ser inteiramente uma coisa.

E livre? Tento ser. Nunca se consegue sempre. A minha obsessão quotidiana é a liberdade individual, não depender de ninguém.


Excertos da entrevista a António Barreto, realizada por Sílvia de Oliveira e Filipe Paiva Cardoso, publicada no jornal i