segunda-feira, 8 de março de 2010

DIA INTERNACIONAL DA MULHER*

Agora é um mistério para mim, mas naquele momento sentia que estava certo, que nunca estivera tão certo. E ao mesmo tempo estava aborrecido. Não te conhecia. Porque haveria de ceder aos teus desejos? Sabes – vais chamar-me mentiroso – não te conhecia, porque havia de te aturar? Porém ao mesmo tempo tinha – custa-me pronunciar esta palavra – tinha pena de ti. Tinha pena… Não sei! Não sei se era pena. Pena é um sentimento desculpabilizador com que as pessoas lavam a consciência de assuntos com que não querem lidar. Pena é o sentimento que usamos para dizer a nós mesmos que não temos nada a ver com aquilo com que não conseguimos lidar. Se fosse pena, pena assim, ter-te-ia dado uma desculpa e tinha ido embora. Mas não fui. O que eras então para mim, naquele segundo criador? Não sei! Também não importa! Não importa, porque nada importa! Porque nada têm importância! Porque a importância só o é relativamente ao valor subjectivo que lhe atribuímos. E porque havemos de dar um nome a todos os sentimentos que nos aparecem na alma? Perdemos demasiado tempo a pensar naquilo que sentimos, e depois não nos sobra tempo para sentir. Tu sorrias. Tinhas um sorriso cândido – e belo. Um sorriso que explodia na tua face redonda, e me tocou, agarrou, feriu e prendeu. Mas detrás do teu sorriso espreitava a tristeza, a solidão, talvez. E enquanto sorrias parecia que ficavas ausente, e voltavas, e de repente. – Eu sou de Lamego! Conheces? Já ouviste falar? – Por entre o teu ímpeto mergulhei algumas palavras, todas para dizer apenas que sim. – É uma terra bonita! Um dia hás-de conhecer! (Desculpa estar para aqui a corrigir o Português, que importa que não tenha sido assim, com tamanha correcção ortográfica que tenhas pronunciado as palavras? Isso fica aqui apenas entre nós.) E o tempo passava, o pátio já estava deserto, só nós dois, esquecidos do mundo em redor, conversando encostados a um pilar. Subiste para o lancil. – Sou quase da altura! – Assim é batota! – Protestei. Desceste. A tua cabeça rapada chegava-me à altura do ombro. – Tens muitos amigos? – Mudavas tão depressa de assunto! Como um lobinho que vai pelo meio do mato a saltitar! Os lobos não saltitam? As raposas sim? Não sei, não conheço nenhum lobo! E raposinhas só conheço uma, mas não saltitava pelo meio do mato, saltava pocinhas, a matreira! – Deves ter! Pareces bem simpático! Eu ainda não tenho amigos! Sou novo aqui! Queres ser meu amigo? – Ao que me obrigas! Ainda o ponto de exclamação não tinha caído em desgraça! Ainda vivíamos numa época de afirmação, de breves ou longas exclamações, em que tudo era possível!
Tocou a campainha. Eram onze e vinte, estava a chegar a hora da missa. – Esperas por mim – pediste, perguntaste, ou exigiste? A tua maneira de falar, às vezes tão clara, era por vezes tão dúbia.


*Uma especial saudação a todas as visitantes, leitoras, amigas, mulheres, meninas, senhoras, bem ou mal comportadas (as mal comportadas vão a todo o lado - as bem comportadas, coitadas!, vão parar ao paraíso), mães, filhas, amantes.
Também o dia triunfal, torrencial, das Odes do Álvaro, do Guardador de Rebanhos do Alberto, das Impressões do Crepúsculo Fernando.

quarta-feira, 3 de março de 2010

IGUAIS

Tenho para mim que somos todos iguais em três momentos: quando nascemos, todos nascemos nus; quando morremos, todos morremos sozinhos; e quando nos sentimos angustiados, todos nos sentimos nus e sós.

terça-feira, 2 de março de 2010

DA FELICIDADE

"Tenho todas as condições para ser feliz, salvo a felicidade. As condições estão desligadas umas das outras"

Barão de Teive, in A Educação do Estóico.



Estávamos sentados, respirando em grandes golfadas, o ar perfumado do fim de manhã. Porque vieste sentar-te entre nós? Está tudo bem? – Perguntas. Era para o meu amigo que falavas, que a mim não me conhecias. Ou falavas para ambos? Ou era já só para mim?
Quem era este nosso amigo comum? Como é que ele se chamava? Se lhe desse um nome agora, o seu, aquele que tinha na vida real, que consta no registo civil, aquele que o bilhete de identidade exibia, ou outro, aquele que teria agora, real também, por passar a ser o seu, que diferença faria, o que mudaria? Os nomes, das pessoas, das personagens, ou das coisas, servem apenas para ajudar a distinguir e identificar àqueles que não têm disponibilidade para contemplar a verdade íntima de cada ser ou objecto. São apenas uma desculpa para maus caracterizadores escreverem romances. Bem vês, não deveria estar a escrever esta história, a nossa história, que foi minha e tua, dos dois, até ser apenas memória que a minha memória tenta desesperadamente passar para o papel para que não se desvaneça. Mas já não nos pertence. É tão pouco nossa como o era naquela manhã em que ainda podíamos escrevê-la como quiséssemos, em que éramos inteiros e livres.
E tu? Como te chamarás? Ainda não tens nome. Quer dizer, eu ainda o não sabia. Observei-te. Existias já para mim, mas ainda não havia um nome, um nome onde integrasse os meus sentimentos e pensamentos, ainda informes e vazios, mas que se formariam daqui em diante. Um nome que não seria apenas teu, mas também meu, dentro de mim.
Que imagem fixei de ti? Na fotografia mental que guardo comigo, vejo ainda a face redonda e branca, o olhar sorridente, o cabelo rapado, as calças azuis, de ganga, desbotadas, a camisa da mesma cor. Brinquei contigo naquele momento, ou é agora que me parece que tinhas a aparência de um sujeito precocemente preso, ou enviado para o exército? Afinal, que diferença havia? No colégio as paredes eram altas e cerradas como as de uma prisão, e o regime era fixo e rigoroso, como o do exército. Havia também alguns alunos, os externos, que ao fim do dia gozavam de algumas horas de liberdade condicional. E ao final do dia tínhamos missa. Todos os dias. Obrigatoriamente. Quer quiséssemos quer não. Que o colégio era muito católico. E embora Deus tivesse dado ao ser humano o livre arbítrio, logo naqueles tempos houve quem se ocupasse do livre arbítrio dos outros. Assim estava o nosso livre arbítrio condenado às prédicas do padre, às frágeis páginas da bíblia, e às pesadas folhas do missal, agrilhoado entre as paredes do colégio.
Não esperaste para ser apresentado. – Sou o. Deixa-me interromper-te, porque ainda não és. Ainda não eras. Depois passaste a sê-lo. Disseste o teu nome, e o teu nome nunca mais voltou a ter o mesmo significado. Porque se antes nada significava para mim, agora seria a palavra que conteria em si tudo o que começaste a ser para mim. – E tu, como te chamas? – Perguntaste, antes que eu tivesse oportunidade de dizer. O meu nome ou outra coisa qualquer. Respondi-te. Não vou dizer os nossos nomes? Outros os dirão por nós. Nós não precisamos de o fazer. Pouco importam os nossos nomes. Quem ler este texto não terá dificuldades em saber quem é quem. Eu serei sempre o narrador. Tu serás sempre a pessoa, personagem aqui, a quem falo. Embora sejam outros, aqueles que terão a aborrecida tarefa de fazer o papel de leitores, quem me ouvirá.
Tenho que me ir embora – disse o nosso amigo, aquele que foi o improvável elo de ligação, que sem realizar nenhuma acção para além de estar presente, fez com que dois caminhos se cruzassem num dado momento – o tempo desta narrativa – e continuassem lado a lado durante alguns meses. – Até logo! – Respondi. Até logo que nesta história significou até sempre, porque não voltará a entrar em cena. Sai sem nome, prova de que um nome não é importante, porque as personagens que têm nas histórias a glória de um nome são afinal as menos importantes. Porque os heróis são fantoches movidos pelas cordas das circunstâncias temporais e espaciais. São aqueles que crescem no anonimato, que se movem no anonimato, e desaparecem no anonimato, que produzem o palco e encenam a narrativa, nas histórias onde outros serão as estrelas. O palco é agora todo nosso. E a história ainda não está escrita.
– Queres ver-me andar de patins? – Não esperaste por uma resposta. Tiraste as sapatinhas e começaste a calçar-te. Ficas aqui a ver-me. Foi uma pergunta que fizeste, mas o momento de pausa foi tão curto, que não possibilitava qualquer resposta. Tu não querias nenhuma resposta, porque a única resposta que admitias exigia uma exclamação, não uma interrogação. – E guardas-me as sapatilhas. – Era um pedido, porém pronunciaste-o como se apenas desses uma informação, e já te tinhas levantado e cirandavas pelo pátio como se não existisse mais ninguém, apenas eu a olhar para ti, a ver-te patinar como se dançasses, a ver-te dançar como se voasses. Durante alguns segundos o tempo parou, e durante alguns segundos apenas foi como se tivessem passado séculos, e quando voltaste para junto de mim era como se já nos conhecêssemos de há séculos. – Então. Eu tinha este tique. Ainda tenho? Tinha este tique, e ainda tenho, mas talvez já não se note tanto, talvez não se vá notar tanto, porque quando reler o texto vou alterar, modificar, apagar, voltar a escrever. Mudar a forma milhares de vezes até que ela se ajuste um pouco que seja ao conteúdo. Começava as frases todas com este advérbio de tempo. – Então, não continuas a andar de patins? Não me respondeste. Vês como és? Nunca respondeste, nunca responderás, àquilo que não é do teu agrado. – És daqui da Guarda? – Entretanto já tinhas um patim descalço, descalçaste o outro, e começaste a calçar as sapatilhas. Eram onze e vinte, a campainha tocou, sinal com sentido obrigatório para os bancos da capela. Levantei-me. – Não vás embora – breve pausa – fica aqui comigo. E eu fiquei. Não sei porquê.