Na Escola Secundária onde estudei lembraram-se um dia de fazer um marco postal de cartolina. Enfeitaram-no com redondos corações, e sobre ele um letreiro que convidava os alunos a enviar cartas à sua secreta paixão. Para que os carteiros do amor - algum imbecil da Associação de Estudantes que queria arranjar algum pretexto para escrever uma secreta carta à sua inconfessável princesa* - entregassem as missivas ao correcto destinatário bastava que no sobrescrito estivesse anotado o nome e a turma da pessoa contemplada. Recordo-me de estar na aula de Inglês quando elas chegaram. Como seria de esperar, os bonitos e populares tinham remessas delas, e o riso e apupos dos outros. Mas quando algum dos outros era premiado, o riso e os apupos eram maiores. Contingências de ter nascido feio e envergonhado. Curioso foi notar que apenas uma rapariga recebeu correspondência. Eu sabia de quem era, mas não lho podia dizer quando ela mo perguntou. O infeliz apaixonado confidenciara-me que não fora capaz de assinar a carta. Questionei-o sobre a pertinência de escrever uma carta de amor sem a assinar. Esperava que ela, ao saber-se secretamente amada, abrisse finalmente os olhos, os da cara e os do coração, e o visse, a ele, que sempre ali estivera.
Não sei se foi aquele o primeiro ano em que fizeram este ridículo marco postal. Não me recordo de nenhum no ano anterior, o primeiro em que frequentara aquela escola. Talvez até tenha havido. Mas nesse tempo tinha uma pessoa que se vinha sentava a meu lado, e no meu colo, e me chamava nomes ridículos que apenas a mais ridícula das paixões consegue explicar, e que não vou estar para aqui a dizer-vos. Vós, os que já amastes e vós os que amais, sabeis do que falo. Os outros, não lhes quero estragar a surpresa.
No tempo do colégio, também havia quem escrevesse cartas de amor. Saíam e entravam secretamente do colégio. Para as raparigas que os rapazes haviam conhecido nas saídas de Domingo à tarde, e destas para aqueles. Os que tinham a sorte de ser homossexuais não passaram por este sobressalto de andar a passar cartas como quem passa cocaína, tiveram outros (mas isso é outra história, daquelas que dava um romance; fica para outra oportunidade).
No fim, o amor triunfou. O amor triunfa sempre. Os amantes, esses perderam-se muitas vezes, e por muitos caminhos. Mesmo que os amantes se percam, o amor perdurará...**
*Digo «imbecil» porque sei quem foi o da ideia nesse ano, pois eu passava as manhãs na Associação de Estudantes e recusei-me a participar em tal coisa.
**Se alguém souber de quem é esta frase (ou semelhante, pois estou a citar de memória) que me indique, para não deixar os créditos em mãos alheias.