terça-feira, 25 de novembro de 2008

RECORDAÇÕES

Dizia Jorge de Sena - parafraseando, que não sei a frase de cor, nem tenho o livro Antigas e Novas Andanças do Demónio por perto -  que o pudor é essencialmente uma virtude breve. Penso que seja no conto Os Amantes, mas a minha memória facilmente me trairá, ao gosto das suas vontades e desejos. Num conto cujo conteúdo o título faz antever, esta frase, com fulgor de máxima, faz todo o sentido. Seriam amantes se o pudor não fosse uma virtude breve? Bem, algumas mentes mais retraídas e pecaminosas, refutar-me-ão dizendo que os amantes são essencialmente pessoas sem virtude. E para que precisam da virtude, se se podem amar? Não é o amor a maior das virtudes?


Voltando ao início. Estava um amigo meu a mostra-me um álbum de fotografias antigas, a maior parte da sua infância e adolescência. O melhor amigo da escola primária, a primeira namorada. As férias em casa dos tios, a prima que já não vê há tantos quantos os anos que a distância ou a pouca vontade a isso obrigou. E como eu invejei aquele sorriso, aquele brilho nos olhos, aquela alegria breve que invadiu o meu amigo e rejuvenesceu por instantes a sua face. Cogitava em dizer-lhe o quanto o invejo, e o quanto invejo as pessoas que conseguem abrir um álbum de fotografias, e voltarem a ser felizes por momentos, enquanto recordam instantes felizes do seu passado. Mas o pudor não me deixou que lhe confessasse a minha inveja. Contudo, como o pudor é uma virtude essencialmente breve, aqui lho estou a dizer, e a todos vós que por uma qualquer eventualidade ou contingência aqui gasteis um pouco do vosso tempo. No fim, guardarei só para mim a inveja, e voltarei a ser virtuoso.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

LIVROS...

Desde que tenho consciência de existir, que tenho uma obsessiva atracção por livros; antes de mais pelo objecto; adoro agarrá-los, senti-los entre as minhas mãos, abri-los, folheá-los... e só depois pelo seu conteúdo; muitos dias, noites na maioria dos casos, gastei em leituras sôfregas e impetuosas. 
Se mais dinheiro tivesse, mais dinheiro gastaria em livros... mas chegou um momento em que começa a tornar-se um grande problema... em primeiro lugar, já não tenho espaço em casa onde os colocar; as estantes estão repletas, com duas filas, e com livros deitados sobre elas... mas o pior, em segundo lugar, é que a percentagem de livros que tenho e que ainda não li começa a ser, digamos, perigosamente grande; de tal modo que o número dos livros que tenho e ainda não li está muito próximo daqueles que tenho e li... então, impus a mim mesmo que não compraria mais nenhum livro enquanto não lesse pelo menos 70% daqueles que tenho para ler... tarefa assaz difícil, visto que nos próximos 10 meses vou receber quase 50 livros de uma colecção que assinei... Sou cada vez mais um bibliómano, e cada vez menos um leitor... E pela primeira vez os livros, enquanto objecto, deixam-me triste...

sábado, 22 de novembro de 2008

MAPA - manuel a. domingos

Acabei de encomendar o livro MAPA de manuel a. domingos, através do site da editora livro do dia


Só falta enviar o comprovativo da transferência bancária... Entretanto, atrevo-me a deixar aqui um dos muitos poemas que podem encontar nesta obra, com o título Guarda, e o subtítulo por volta de 1994

em cada rua o frio
tem um nome diferente.
nós permanecemos no café
com o nome de
um franchising qualquer,
alheios ao amarelo
berrante das paredes.
é aqui, por entre cigarros,
cerveja e um arroto
envergonhado, que lemos
os versos de um poeta
maldito francês: esses que
nos aquecem a vontade
de um dia também fumar
haxixe. e há ainda os filósofos
do desespero: Kierkegaard,
Nietzsche e Camus.
Mas nem Kierkegaard
nem Nietzsche nem
Camus nos avisam que
a sua leitura irá para sempre
mudar a nossa vida. nem o poeta
maldito francês explica
que os seus versos
não devem ser lidos
numa cidade onde
a sua catedral atravessa
o silêncio e o frio tem um nome
diferente em cada rua.


Claro que, como ainda não tenho o livro, e apenas conheço alguns dos poemas, não vos posso dizer qual é o poeta maldito francês... Eles são tantos, os poetas malditos, embora menos que os poetas franceses...