Dizia Jorge de Sena - parafraseando, que não sei a frase de cor, nem tenho o livro Antigas e Novas Andanças do Demónio por perto - que o pudor é essencialmente uma virtude breve. Penso que seja no conto Os Amantes, mas a minha memória facilmente me trairá, ao gosto das suas vontades e desejos. Num conto cujo conteúdo o título faz antever, esta frase, com fulgor de máxima, faz todo o sentido. Seriam amantes se o pudor não fosse uma virtude breve? Bem, algumas mentes mais retraídas e pecaminosas, refutar-me-ão dizendo que os amantes são essencialmente pessoas sem virtude. E para que precisam da virtude, se se podem amar? Não é o amor a maior das virtudes?
Voltando ao início. Estava um amigo meu a mostra-me um álbum de fotografias antigas, a maior parte da sua infância e adolescência. O melhor amigo da escola primária, a primeira namorada. As férias em casa dos tios, a prima que já não vê há tantos quantos os anos que a distância ou a pouca vontade a isso obrigou. E como eu invejei aquele sorriso, aquele brilho nos olhos, aquela alegria breve que invadiu o meu amigo e rejuvenesceu por instantes a sua face. Cogitava em dizer-lhe o quanto o invejo, e o quanto invejo as pessoas que conseguem abrir um álbum de fotografias, e voltarem a ser felizes por momentos, enquanto recordam instantes felizes do seu passado. Mas o pudor não me deixou que lhe confessasse a minha inveja. Contudo, como o pudor é uma virtude essencialmente breve, aqui lho estou a dizer, e a todos vós que por uma qualquer eventualidade ou contingência aqui gasteis um pouco do vosso tempo. No fim, guardarei só para mim a inveja, e voltarei a ser virtuoso.
