segunda-feira, 13 de outubro de 2008

vezes demais...

«Às vezes dá-se o caso de não se conhecer aquilo que obscuramente se deseja, mas sabe-se que se vai falhar o alvo; e então, deixa-se a vida escoar-se como num quarto trancado onde impera o medo.»

Robert Musil, “A tentação de Verónica, a serena”, in op. cit., pág. 198. [descaradamente roubado daqui]

MAIS UM EXCERTO DE... [não posso revelar o título*]




Texto de Fabrízio Tommasini; pronto, pronto, MDA, eu prometo que é o último excerto que aqui "posto"!

Outros excertos:  aqui, aqui, aqui, e aqui.

domingo, 12 de outubro de 2008

was it all worth it?*

Trabalhas. De manhã à noite. Todos os dias. Compras carro. Casa. Fazes planos. Contas. Nunca batem certo, mas já estás habituado. Vendes a casa. Alugas um apartamento. Mudas de trabalho. Ou ficas no desemprego. Andas de café em café. Deixas versos nas folhas dos jornais. Envelheces. Bebes whisky. Com a mesma vontade com que bebias água, quando eras menino. Fumas um cigarro, e outro, e outro. Dizes que um dia hás-de deixar de fumar. Acordas cedo. Deitas-te tarde. Dormes pouco, lógica conclusão. Juntas uns trocos. Para um dia. Um dia o quê? Compras um iphone, ou um notebook. Abres um livro ao meio. Será desta que vais até ao fim? Um dia o quê? Acordas sobressaltado, a meio da noite. Dez anos depois. Treze anos depois, para ser exacto. Trabalhas. De manhã à noite. Todos os dias... Juntas uns trocos. Para um dia. Um dia o quê? Acordas sobressaltado, treze anos depois. Porque não admites? De uma vez por todas. De modo definitivo. Aguenta-te à brava, ou... Treze anos é tempo suficiente para saberes que esse sobressalto, esse silêncio, esse sonho, essa palavra que nunca chegaste a pronunciar... Podes viver. Viver não importa quanto. Um segundo mais, ou um século. O tempo é indivisível. Essa mágoa é grande demais. Se vais continuar. Continuar sempre. Habitua-te. Trabalhas. De manhã à noite. Todos os dias... Juntas uns trocos. Para um dia. Um dia o quê? Acordas sobressaltado, treze anos depois. Acordas com o mesmo sobressalto há treze anos. Hás-de acordar com o mesmo sobressalto até que. O quê? Até que um dia chegue. Quem? Não, Não penses nisso! Ninguém... Apenas o sono, o sono tranquilo. Mas agora vai dormir, meu menino. Vai dormir que àmanhã é outro dia.


*título da 10ª música do álbum "The Miracle" (1989) dos QUEEN.