sábado, 16 de agosto de 2008

UM MAL NUNCA VEM SÓ...

Quando alguma tristeza, angústia, desilusão, ou mágoa me toca, refugio-me nos meus poetas dilectos; quem por aqui vai passando, terá já tido a oportunidade de notar que muitas vezes vou deixando pequenos poemas, ou excertos, desses poetas. Entre eles, três se destacam na categoria daqueles que têm o dom de aliviar o sofrimento: Álvaro de Campos, Sophia de Mello Breyner Andresen, e António Botto.
Ontem senti a necessidade de pegar na minha velhinha edição de "Canções" de António Botto, mas por mais voltas que dê às caóticas estantes que adornam as paredes do meu quarto, não sei onde é que o livro de capa dura, com pele castanho-avermelhada, foi parar... Um mal nunca vem só...

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

ACONTECEU EM ALGUM LUGAR, NALGUM TEMPO, AiNDA QUE APENAS NA NOSSA iMAGiNAÇÃO... #O SÉTiMO DiA (EXCERTO)

QUANDO o sétimo dia alvoreceu, Deus estava tão fatigado que não acordou. No outro lado da terra, onde era agora noite, o homem e a mulher tinham desistido de procriar. Os carneiros também estavam fatigados, embora por razão diferente, e tinham adormecido. Homem e mulher tremiam, agarrado um na outra. Foi quando tiveram a ideia de irem dormir para junto dos carneiros, aninhando-se na sua lã. E desde aí que se tornou mítica, esta ligação entre homens e carneiros. Ou ovelhas: para o caso, é indiferente! 
A meio da tarde do sétimo dia, Deus acordou finalmente, depois de um sono regalado. – Abençoado seja este dia! – Exclamou, espreguiçando-se. – Isto é mesmo um paraíso! Como lhe hei-de chamar? – Os seres olharam-no, intrigados, pois não compreendiam o que dizia. Uma raposa espreitou, por detrás do tronco de uma figueira magricela, esticou a cabeça, e ergueu as orelhitas, tentando perceber o que é que o velho dizia. Quedou-se alguns segundos, a ver se Deus dizia mais alguma coisa, mas o velho parecia meditar, com um compenetrado ar de loucura e senilidade. Parecia que Deus ia falar novamente, quando uma galinha escanzelada passou a correr por ela, cacarejando desalmadamente (descrição nada rigorosa, pois nem Deus se tinha ainda lembrado de inventar as almas, nem nunca os animais a chegariam a possuir, assim nos ensinará a madre igreja – outro disparate que Deus ainda não criara). Deus moveu os seus lábios esotéricos, – terá falado? – mas a raposa não consegui ouvir nada, por causa do chinfrim que a desgraçada da galinha fez. Irritada, a raposa salteou-lhe ao pescoço, e acabou ali mesmo com as cantorias. Esta foi a primeira refeição das raposas. Deus esticou o seu dedo e, automaticamente, sem pensar no que fazia, criou outra galinha. Sorte a dela, estar a raposa refastelada, dormitando junto à entrada da sua toca, pois caso contrário, tinha-se acabado ali a espécie. Correu para o galo, que de imediato a galou, obedecendo ao divino repto reprodutivo, e garantindo deste modo a continuidade de animal tão estúpido, que nunca aprendeu a voar. 


Fabrízio Tommasini, excerto inédito, e não revisto, de um livro cujo título o meu amigo não me deixa revelar. A imagem é um pormenor do quadro Jardim das Delícias Terrenas, de Bosch, e foi abduzida algures do blog do André
*Excerto publicado a pedido do Fabrízio com especial dedicatória para o Special K e o MDA, que gostaram do excerto anterior.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

ACONTECEU EM ALGUM LUGAR, NALGUM TEMPO, AiNDA QUE APENAS NA NOSSA iMAGiNAÇÃO...

Perdeu o terceiro dia a juntar as águas inferiores, para que se pudesse ver a parte sólida que ocultavam. Estava velho e cansado, e apesar do conhecimento enciclopédico que possuía, já se lhe olvidara do nome da coisa que as águas inferiores escondiam. Decidiu chamar-lhe terra, embora considerasse de imediato que não era um nome nada original. Depois, quando acabou de ajuntar as águas, viu que ainda tinha a tarde inteira para brincar aos inventores. Foi então que decidiu que era hora de criar as verduras, porque um mundo castanho e azul lhe parecia demasiado entediante. Bocejou, e de seguida criou, com um gesto lento e pesado, a relva e as árvores frutíferas, a quem ordenou que dessem frutos («aproveitando o facto de serem frutíferas…» pensou) sobre a terra, mas que nunca se atrevessem a fazê-lo sobre o mar. Mal acabara de dar esta ordem, já uma macieira esguia se escapulia para o mar, correndo sobre duas raízes raquíticas, com os seus galhos esgazeados a abanar. Para mostrar o seu poder às outras árvores, deixou que a pobre se afogasse. Amedrontadas, enfiaram as suas raízes na terra, e encolheram-se. Deus, vendo que tudo era bom, mas que mesmo assim elas lhe podiam desobedecer, tirou-lhes a força das raízes, e assim ficaram presas para sempre. Pintara-se no firmamento o crepúsculo quando Deus decidiu que as águas inferiores a que não tinha dado nome, e que agora estavam juntas, se deviam chamar mar. Deitou-se sobre a terra, olhando uma macieira escanzelada que tremia enroscada no elemento sólido. «Estas macieiras ainda me hão-de dar chatice!», pensou. E foi dormir.

Fabrízio Tommasini, excerto inédito, e não revisto, de um livro cujo título o meu amigo não me deixa revelar. A imagem é um pormenor do quadro Jardim das Delícias Terrenas, de Bosch, e foi abduzida algures do blog do André.