QUANDO o sétimo dia alvoreceu, Deus estava tão fatigado que não acordou. No outro lado da terra, onde era agora noite, o homem e a mulher tinham desistido de procriar. Os carneiros também estavam fatigados, embora por razão diferente, e tinham adormecido. Homem e mulher tremiam, agarrado um na outra. Foi quando tiveram a ideia de irem dormir para junto dos carneiros, aninhando-se na sua lã. E desde aí que se tornou mítica, esta ligação entre homens e carneiros. Ou ovelhas: para o caso, é indiferente!
A meio da tarde do sétimo dia, Deus acordou finalmente, depois de um sono regalado.
– Abençoado seja este dia! – Exclamou, espreguiçando-se. – Isto é mesmo um paraíso! Como lhe hei-de chamar? – Os seres olharam-no, intrigados, pois não compreendiam o que dizia. Uma raposa espreitou, por detrás do tronco de uma figueira magricela, esticou a cabeça, e ergueu as orelhitas, tentando perceber o que é que o velho dizia. Quedou-se alguns segundos, a ver se Deus dizia mais alguma coisa, mas o velho parecia meditar, com um compenetrado ar de loucura e senilidade. Parecia que Deus ia falar novamente, quando uma galinha escanzelada passou a correr por ela, cacarejando desalmadamente (descrição nada rigorosa, pois nem Deus se tinha ainda lembrado de inventar as almas, nem nunca os animais a chegariam a possuir, assim nos ensinará a madre igreja – outro disparate que Deus ainda não criara). Deus moveu os seus lábios esotéricos, – terá falado? – mas a raposa não consegui ouvir nada, por causa do chinfrim que a desgraçada da galinha fez. Irritada, a raposa salteou-lhe ao pescoço, e acabou ali mesmo com as cantorias. Esta foi a primeira refeição das raposas. Deus esticou o seu dedo e, automaticamente, sem pensar no que fazia, criou outra galinha. Sorte a dela, estar a raposa refastelada, dormitando junto à entrada da sua toca, pois caso contrário, tinha-se acabado ali a espécie. Correu para o galo, que de imediato a galou, obedecendo ao divino repto reprodutivo, e garantindo deste modo a continuidade de animal tão estúpido, que nunca aprendeu a voar.
Fabrízio Tommasini, excerto inédito, e não revisto, de um livro cujo título o meu amigo não me deixa revelar. A imagem é um pormenor do quadro
Jardim das Delícias Terrenas, de
Bosch, e foi abduzida algures do blog do
André.
*Excerto publicado a pedido do Fabrízio com especial dedicatória para o
Special K e o
MDA, que gostaram do excerto anterior.