Perdeu o terceiro dia a juntar as águas inferiores, para que se pudesse ver a parte sólida que ocultavam. Estava velho e cansado, e apesar do conhecimento enciclopédico que possuía, já se lhe olvidara do nome da coisa que as águas inferiores escondiam. Decidiu chamar-lhe terra, embora considerasse de imediato que não era um nome nada original. Depois, quando acabou de ajuntar as águas, viu que ainda tinha a tarde inteira para brincar aos inventores. Foi então que decidiu que era hora de criar as verduras, porque um mundo castanho e azul lhe parecia demasiado entediante. Bocejou, e de seguida criou, com um gesto lento e pesado, a relva e as árvores frutíferas, a quem ordenou que dessem frutos («aproveitando o facto de serem frutíferas…» pensou) sobre a terra, mas que nunca se atrevessem a fazê-lo sobre o mar. Mal acabara de dar esta ordem, já uma macieira esguia se escapulia para o mar, correndo sobre duas raízes raquíticas, com os seus galhos esgazeados a abanar. Para mostrar o seu poder às outras árvores, deixou que a pobre se afogasse. Amedrontadas, enfiaram as suas raízes na terra, e encolheram-se. Deus, vendo que tudo era bom, mas que mesmo assim elas lhe podiam desobedecer, tirou-lhes a força das raízes, e assim ficaram presas para sempre. Pintara-se no firmamento o crepúsculo quando Deus decidiu que as águas inferiores a que não tinha dado nome, e que agora estavam juntas, se deviam chamar mar. Deitou-se sobre a terra, olhando uma macieira escanzelada que tremia enroscada no elemento sólido. «Estas macieiras ainda me hão-de dar chatice!», pensou. E foi dormir.
Fabrízio Tommasini, excerto inédito, e não revisto, de um livro cujo título o meu amigo não me deixa revelar. A imagem é um pormenor do quadro Jardim das Delícias Terrenas, de Bosch, e foi abduzida algures do blog do André.

