domingo, 2 de março de 2008

rascunho encontrado num caderno abandonado #64

Como é que uma pessoa pode viver neste mundo sem possuir adequados mecanismos de coping?! Até aonde bastará a risiliência* para sobreviver...?!
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REAL / VIRTUAL*

Entrei apressado e com muita fome no restaurante. Escolhi uma mesa bem afastada do movimento, porque queria aproveitar os poucos minutos que dispunha naquele dia, para comer e acertar alguns bugs de programação num sistema que estava a desenvolver, além de planear a minha viagem de férias, coisa que há tempos que não sei o que são. Pedi um filete de salmão com alcaparras em manteiga, uma salada e um sumo de laranja, afinal de contas fome é fome, mas regime é regime não é? Abri o meu portátil e apanhei um susto com aquela voz baixinha atrás de mim: - Senhor, não tem umas moedinhas? - Não tenho, menino. - Só uma moedinha para comprar um pão. - Está bem, eu compro um. Para variar, a minha caixa de entrada está cheia de e-mail. Fico distraído a ver poesias, as formatações lindas, rindo com as piadas malucas. Ah! Essa música leva-me até Londres e às boas lembranças de tempos áureos. - Senhor, peça para colocar margarina e queijo. Percebo nessa altura que o menino tinha ficado ali. - Ok. Vou pedir, mas depois deixas-me trabalhar, estou muito ocupado, está bem? Chega a minha refeição e com ela o meu mal-estar. Faço o pedido do menino, e o empregado pergunta-me se quero que mande o menino ir embora. O peso na consciência, impedem-me de o dizer. Digo que está tudo bem. Deixe-o ficar. Que traga o pão e, mais uma refeição decente para ele. Então sentou-se à minha frente e perguntou: - Senhor o que está fazer? - Estou a ler uns e-mails. - O que são e-mails? - São mensagens electrónicas mandadas por pessoas via Internet. Sabia que ele não ia entender nada, mas, a título de livrar-me de questionários desses: - É como se fosse uma carta, só que via Internet. - Senhor você tem Internet? - Tenho sim, essencial no mundo de hoje. - O que é Internet? - É um local no computador, onde podemos ver e ouvir muitas coisas, notícias, músicas, conhecer pessoas, ler, escrever, sonhar, trabalhar, aprender. Tem de tudo no mundo virtual. - E o que é virtual? Resolvo dar uma explicação simplificada, sabendo com certeza que ele pouco vai entender e deixar-me-ia almoçar, sem culpas. - Virtual é um local que imaginamos, algo que não podemos tocar, apanhar, pegar... é lá que criamos um monte de coisas que gostaríamos de fazer. Criamos as nossas fantasias, transformamos o mundo em quase como queríamos que fosse. - Que bom isso. Gostei! - Menino, entendeste o significado da palavra virtual? - Sim, também vivo neste mundo virtual. - Tens computador?! - Exclamo eu! - Não, mas o meu mundo também é vivido dessa maneira...Virtual. - A minha mãe fica todo dia fora, chega muito tarde, quase não a vejo, enquanto eu fico a cuidar do meu irmão pequeno que vive a chorar de fome e eu dou-lhe água para ele pensar que é sopa, a minha irmã mais velha sai todo dia também, diz que vai vender o corpo, mas não entendo, porque ela volta sempre com o corpo, o meu pai está na cadeia há muito tempo, mas imagino sempre a nossa família toda junta em casa, muita comida, muitos brinquedos de natal e eu a estudar na escola para vir a ser um médico um dia. Isto é virtual não é senhor??? Fechei o portátil, mas não fui a tempo de impedir que as lágrimas caíssem sobre o teclado.Esperei que o menino acabasse de literalmente "devorar" o prato dele, paguei, e dei-lhe o troco, que me retribuiu com um dos mais belos e sinceros sorrisos que já recebi na vida e com um "Brigado senhor, você é muito simpático!". Ali, naquele instante, tive a maior prova do virtualismo insensato em que vivemos todos os dias, enquanto a realidade cruel nos rodeiade verdade e fazemos de conta que não percebemos!
*Post roubado ao meu amigo António Costa. Não sei de onde veio a história, se é verídica ou fictícia - em qualquer caso é verdadeira.

SPORTING vs. BENFICA

Temos houve em que este era um dia de emoções indescritíveis; em que um golo era a diferença abismal entre gritos eufóricos ou lágrimas depressivas - quando o golo, dependendo da baliza onde entrava, era a diferença entre ganhar ou perder o campeonato, podia acontecer o contrário: ser a diferença entre eufóricas lágrimas ou gritos depressivos - gemidos de dor, entenda-se. Hoje, quase catorze anos depois da última vez (2005 não conta) um amiguinho meu faz catorze anos. Ele nunca viu o Benfica que durante anos eu acreditei que pudesse existir. Ao menos ele não tem a ilusão que logo me fará dar saltos estéricos ou enterrar-me na cadeira com a cabeça entre as mãos. Ele não entende estas neuroses. Eu também não. Mas as ilusões são mesmo assim. Parabéns Miguel José!