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quinta-feira, 14 de maio de 2015

Entrevista

Cliquem na Imagem para Ampliar
Com um livro já publicado, Os Cadernos Secretos de Sébastian, André Benjamim é um jovem escritor natural do Sorval. Com a alma repartida entre a prosa e a poesia, André não é de muitas conversas "gosto mais de escrever", justifica. A sua escrita é polémica, acutilante e, por vezes, provocadora. O "Pinhel Falcão" foi ao Sorval para conhecer este Pinhelense.

Pergunta-se a idade a um escritor? Não tenho idade. Como em «Alice», não me recordo agora se «no País das Maravilhas» se «do Outro Lado do Espelho», deixei de fazer anos. Estou todos os dias receptivo a presentes... a prendas, não! Só tenho dias de Não-Aniversário...

Pinhel Falcão (PF) – Comecemos pelo pseudónimo André Benjamim. Queres explicar como aparece este nome na tua vida?

André Benjamim (AB) Antes de mais há que dizer que muitas pessoas que se relacionam comigo nem sequer sabem que não me chamo André Benjamim, e mesmo aquelas que sabem, me chamam André. ou Benjamim. Até a minha mãe por vezes se esquece que não me chamo «André». E que quem me chama pelo meu nome civil corre o sério risco de ser ignorado, pois a maioria das vezes não me chama à atenção, sinto-o como estranho a mim mesmo. Do nome André Benjamim há apenas a dizer que teve origem em dois autores de que gosto bastante: a poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen, e o filósofo Walter Benjamin.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Dentro das minhas Cidades/ Já não sei quem é Ladrão/ Se o que anda fora de Grades,/ Se outro que está na Prisão.



Etelvina com seis meses já se punha de pé
Foi deixada num cinema depois da matinée
Com um recado na lapela que dizia assim:
''Quem tomar conta de mim,
quem tomar conta de mim
Saiba que fui vacinada,
Saiba que sou malcriada.''

Etelvina com dezasseis anos já conhecia
Todos os reformatórios da terra onde vivia
Entregaram-na a uma velha que ralhava assim:
''Ai menina sem juízo
nem mereces um sorriso
Vais acabar num bueiro
sem futuro nem dinheiro.''

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O Conto do Marinheiro* - Geoffrey Chaucer

Boys Playing on the Shore, Albert Edelfelt
Boys Playing on the Shore
Quadro de Albert Edelfelt

Em tempos havia um Mercador, em São Dinis,
Que por ser rico o julgavam sábio. 
Tinha uma esposa de beleza invulgar, 
Era alegre e gostava de confraternizar, 
Coisa essa que causa mais despesas 
Do que valem todos os cumprimentos afectados 
Que os homens fazem em festas e bailes. 
Tais reverências e composturas festivas 
São passageiras como uma sombra na parede. 
Mas infeliz daquele que por tudo tem de pagar! 
O tolo do marido sempre tem de pagar, 
Ele tem de vestir-nos, ele tem de enfeitar 
Os nossos corpos para a sua reputação enaltecer, 
Enquanto dançamos com toda a ostentação. 
E, se não puder pagar, como por vezes sucede, 
Ou não se submeta a tais extravagâncias 
Por pensar no seu dinheiro desperdiçado, 
Então outra pessoa terá de suportar a despesa 
Ou emprestar-nos dinheiro, o que é perigoso.

Geoffrey Chaucer, In. Contos da Cantuária

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

decreto governamental



Por decreto governamental
deixam de rimar os verbos
Querer
e Poder
em Portugal.

Fica o verbo
Poder
na posse do Conselho
de Ministros
sinistros.

Querer...
Quem quiser
ser feliz
deve sair
deste país.

Ficam adiados
os sonhos
por tempo indeterminado.
E suspensa
a Democracia.

São mobilizados
os jovens
os velhos e as crianças
e as mulheres
em defesa da pátria:

- Os jovens devem cessar
os estudos.
Em alternativa,
faça-se rimar
comer e calar.

ler mais

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Ah, se te queres matar...

Se te queres matar, porque não te queres matar? 
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida, 
Se ousasse matar-me, também me mataria... 
Ah, se ousares, ousa! 
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas 
A que chamamos o mundo? 
A cinematografia das horas representadas 
Por actores de convenções e poses determinadas, 
O circo policromo do nosso dinamismo sem fim? 
De que te serve o teu mundo interior que desconheces? 
Talvez, matando-te, o conheças finalmente... 
Talvez, acabando, comeces... 
E, de qualquer forma, se te cansa seres, 
Ah, cansa-te nobremente, 
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira, 
Não saúdes como eu a morte em literatura! 


Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente! 
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém... 
Sem ti correrá tudo sem ti. 
Talvez seja pior para outros existires que matares-te... 
Talvez peses mais durando, que deixando de durar... 


A mágoa dos outros?... Tens remorso andiantado 
De que te chorem? 
Descansa: pouco te chorarão... 
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco, 
Quando não são de coisas nossas, 
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte, 
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros... 


Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda 
Do mistério e da falta da tua vida falada... 
Depois o horror do caixão vísivel e material, 
E dos homens de preto que exercem a profissão de estar ali. 
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas, 
Lamentado entre as últimas notícias dos jornais da noite, 
Interseccionando a pena de teres morrido com o último crime... 
E tu mera causa ocasional daquela carpidação, 
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas... 
Muito mais morto aqui que calculas, 
Mesmo que estejas muito mais vivo além... 


Depois a retirada preta para o jazigo ou cova, 
E depois o princípio da morte da tua memória. 
Há primeiro em todos um alívio 
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido... 
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente, 
E a vida de todos os dias retoma o seu dia... 


Depois, lentamente esqueceste. 
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente: 
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste. 
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada. 
Duas vezes no ano pensam em ti. 
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram, 
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.


Encara-te a frio, e encara a frio o que somos... 
Se queres matar-te, mata-te... 
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!... 
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida? 
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera 
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor? 
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida? 


Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem, 
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma? 


És importante para ti, porque é a ti que te sentes. 
És tudo para ti, porque para ti és o universo, 
E o próprio universo e os outros 
Satélites da tua subjectividade objectiva. 
És importante para ti porque só tu és importante para ti. 
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim? 


Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido? 
Mas o que é conhecido? o que é que tu conheces, 
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial? 


Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida? 
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente: 
Torna-te parte carnal da terra e das coisas! 
Dispersa-te, sistema físico-químico 
De células nocturnamente conscientes 
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos, 
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências, 
Pela relva e a erva da proliferação dos seres, 
Pela névoa atómica das coisas, 
Pelas paredes turbilhonantes 
Do vácuo dinâmico do mundo...

 
ÁLVARO DE CAMPOS (26/04/1926), In. Poesias (Assírio & Alvim, pp. 304-307)

terça-feira, 12 de julho de 2011

Cidades Flutuantes

Cidades Flutuantes de Pedro Varela.


há cidades longínquas onde as ruas são oblíquas como os sonhos
com becos escuros e recantos húmidos que a noite encobre
com ruelas esguias e esquivas que o desejo domina
cidades aladas com cruzamentos inebriantes como o sexo
com veredas doces adormecendo e carreiros acres como o despertar
cidades invisíveis onde são as raparigas que contemplam os rapazes dormindo

há corpos escorregadios que se envolvem com gestos largos como as estradas que circulam as cidades
corpos que se acendem durante a madrugada e percorrem solitários as avenidas
onde prédios colossais e resplandecentes se erguem como o amanhecer

há fábricas cinzentas com chaminés de chumbo
nos arredores envergonhados como se escondessem segredos indizíveis
onde os finais de tarde são enublados como as manhãs
crepúsculos embaraçados como os rapazes tímidos que esperam os autocarros de mãos nos bolsos
e caem distraidamente nas entranhas do betão
atravessando as chaminés hirtas no horizonte absorto

(poema antigo)

chove lá fora
água escura

o meu olhar chora
e irrequieto procura

a luz que demora
a trazer brancura

(a noite é escura
e a chuva dura)

o meu ser implora
que não chova lá fora!

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Pena Capital de Mário Cesariny

Mário Cesariny poeta pintor  
poema  

Tu estás em mim como eu estive no berço  
como a árvore sob a sua crosta  
como o navio no fundo do mar

  O Operário Mário Cesariny pintura

"poema" - Mário Cesariny, in. Pena Capital (Assírio & Alvim, 2004, 3.ª edição, aumentada).

Ao cimo:

Fotografia de Mário Cesariny.

Quadro: O Operário (1974), pintura de Mário Cesariny.  

segunda-feira, 22 de março de 2010

LONDRES, DIA MUNDIAL DA POESIA (QUE FOI ONTEM - QUE É HOJE, QUE É SEMPRE), e OUTRAS COISAS


Tem este tipo que deixa por aqui rabiscos de rascunhos de textos a haver viagem marcada com destino a Londres no próximo dia 21 de Agosto de 2010, com retorno a 29 do mesmo mês. E se nenhuma força maior vier contrariar a sua vontade de embarcar no voo com destino à capital do império de Sua Majestade, a Rainha - para além do seu medo de aviões - ah, eu nunca vos confessei esta paranóia? - por lá andarei, sem mapa. E foi por pensar em mapa que pensou este sujeito na obra homónima (link Wook; link Livro do Dia) de manuel a. domingos, na poesia e no poema "Londres":

nunca cheguei a escrever um poema sobre
a cidade ser à noite um carrossel
de luzes, nem outro sobre
a fotografia onde fiquei com ar
envergonhado. ou sobre o frio e
o passeio por Hyde Park, onde
pássaros vieram comer às tuas mãos
e eu deixei fugir alguns versos
só para te poder fotografar. ou sobre
a casa estilo vitoriano, que prometeu
ocultar todas as palavras que dissemos
um ao outro, quando ao deitar
nos encolhíamos debaixo de
vários cobertores e mesmo assim
tínhamos o frio. ou o definitivo,
aquele que falaria sobre Greenwich
e o meridiano que me ensinou a importância
do tempo que sempre falta, principalmente
quando numa das pontes quis dizer amo-te,
mas havia um autocarro para
apanhar. e era já o último.


Apenas para que conste, se quando o último suspiro chegar houver tempo para um derradeiro balanço entre Deves e Haveres: também houve muitos poemas sobre muitos corpos que este indivíduo nunca chegou a escrever.

E enquanto nesse novelo de pensamentos emaranhados pensava sobre a vida, esse mortal castigo a que fomos condenados, cogitava sobre poemas, poetas, e cidades, lembrou-se esta personagem do poeta jota esse*: sempre admirei, num misto de terror e inveja, os poetas que se suicidam; que num gesto final executam um acto de derradeira coragem e extrema cobardia, como se num movimento circular do braço agarrassem a vida e a morte na mão que com as últimas forças se fecha e logo se abre num espasmo.

Tábua Rasa, de jota esse, na obra Dicotomia:

Salvei-me um dia
A mim próprio
De um poço sem fundo,
Infindo e cor-de-breu
À procura de Nada.

Salvei-me um dia
De mim próprio
Quando uma marioneta
Envolvida num jogo
Jogado por peões inconscientes
De o serem que
Se tornaram marionetas também
No momento em que tomei
Consciência
Do dado que era,
Dos números que dava
E ajudava esses peões
A caminhar no tabuleiro
De cores que é a Vida.


*jota esse, pseudónimo de José Sousa, nasceu em Pinhel (Pereiro) a 5 de Abril de 1983, e faleceu na Covilhã no dia 9 de Fevereiro de 2009. Publicou sobre o Amor e outras cousas (2007) e Dicotomiatodos os textos (2008). Estas obras, em conjunto com outros textos inéditos à data da morte do autor foram reunidos na obra , publicada em Agosto de 2009.

sexta-feira, 12 de março de 2010

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO*

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


*Poema de Carlos Drummond de Andrade

Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

"EMBORA O INSTANTE DE UM MILAGRE SEJA COMO UM RELÂMPAGO SEM FIM"*



Não, não esqueças nunca
Que num único momento
A vida, a morte, o amor
Começa. Uma lembrança
Que fica para sempre.
Os amigos que ficaram,
Os que partiram, o amor
Que esperámos. A saudade,
Aquele dia que lembramos,
Ainda. Quando chega o sono
Adormecemos nos braços
Que ainda sentimos quando
Pensamos naquele instante.

*Verso de Dylan Thomas, do poema "O Casamento de uma Virgem"

**Foto de Filipe Ramos

sexta-feira, 17 de julho de 2009

VÃO LÁ, VÃO LÁ...

Os poemas do poeta guardense já estão expostos no Café Concerto do Teatro Municipal da Guarda; vão lá tomar um café - ou um chá - agora até há uma carta de vinhos! - e aproveitem para dar uma espreitadela! O conjunto intitula-se O Despertar dos Sonhos - embora o despertar do pesadelo não fosse menos adequado!

segunda-feira, 6 de julho de 2009

BMA*

Cada dia é mais evidente que partimos,
Sem nenhum possível regresso ao que fomos,
Cada dia as horas se despem mais do alimento:
Não há saudade nem terror que baste.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral.


*Private message

terça-feira, 23 de junho de 2009

Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas;
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;

e andou terras e gentes, conheceu
os mundos e submundos, e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi -

não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como a todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.

Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.


JORGE DE SENA, Brasil, 1956-65

quarta-feira, 10 de junho de 2009

LUIZ VAZ DE CAMÕES*



Está o lascivo e doce passarinho
com o biquinho as penas ordenando;
o verso, sem medida, alegre e brando,
espedindo no rústico raminho;


o cruel caçador (que do caminho
se vem calado e manso desviando)
na pronta vista a seta endireitando,
lhe dá no Estígio lago eterno ninho.


Destarte o coração, que livre andava,
(posto que já de longe destinado)
onde menos temia, foi ferido.


Porque o Freicheiro cego me esperava,
para que me tomasse descuidado,
em vossos claros olhos escondido.


*diz-se que terá fenecido triste, pobre, e angustiado, no dia 10 de Junho de 1580, em Lisboa, aquele que foi o maior Poeta Português que alguma vez vivera, até ao dia 13 de Junho de 1888! Onde quer que estejas, Luiz, o País continua o mesmo, tu Grande, ele Pequeno. Tu vives nos versos que nos deixaste; ele morre no verso da Glória que um dia cantaste.

Quadro de João Ramos, que pode ser encontrado aqui.

terça-feira, 9 de junho de 2009

rascunho encontrado num caderno abandonado #75

espero-te ainda

esperei-te mesmo quando
sabia que não vinhas
que nunca voltarias
esperei-te todos os dias
mesmo quando sabia
que esse dia não chegaria
que essa hora ansiada
era sonho feito de nada


rascunhos anteriores: #1, #2, #3, #4, #5, #6, #7, #8, #9, #10, #11, #12, #13, #14, #15, #16, #17, #18, #19, #20, #21, #22, #23, #24, #25, #26, #27, #28, #29, #30, #31, #32, #33, #34, #35, #36, #37, #38, #39, #40, #41, #42, #43, #44, #45, #46, #47, #48, #49, #50, #51, #52, #53, #54, #55, #56, #57, #58, #59, #60, #61, #62, #63, #64, #65, #66, #67, #68, #69, #70, #71, #72#73, #74,

domingo, 31 de maio de 2009

A ARTE DE SER FELIZ*



Houve um tempo em que minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crianças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como reflectidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.

*Título e Poema de Cecília Meireles

sábado, 30 de maio de 2009

MOINHOS DO VENTO*

Cada um inventa os moinhos de vento
que lhe cabe defrontar.
Os meus nem por um momento
me deixam sossegar.
É uma luta sem tréguas nem sinais
de iminente rendição
e o que me aflige mais
nos dias que virão
é que os moinhos que defronto a esmo
existem mesmo.

Torquato da Luz, inblog OFÍCIO DIÁRIO.


*Não sei se inventei os meus,  se foram eles que me inventaram a mim;  a verdade é que o barulho das pás (ou será velas?) ao vento me acorda todas as noites (1); ou antes, todas as manhãs, que a noite passo-a acordado temendo os meus moinhos, embora sem pensar neles, distraindo-me com outros artefactos, como este post. 
 «Velas» coaduna-se melhor ao sentido poético da frase; contudo, «pás», além de ser tecnicamente mais correcto, adapta-se melhor ao sentido intímo da frase, pois transmite uma imagem mais violenta...

segunda-feira, 25 de maio de 2009

O MYTHO É O NADA QUE É TUDO*



O mytho é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mytho brilhante e mudo —
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.


*Primeiro verso do poema acima. De Fernando Pessoa, na obra Mensagem [Primeira Parte: Brasão; II - Os Castelos; Primeiro: Ulisses] Esta citação respeita a graphia original da palavra mytho.


Obrigado Paulo por me fazeres sorrir, neste dia cinzento!