Noites tempestuosas como as de hoje trazem-me à memória Eça de Queiroz e Os Maias; levanto-me e ando às voltas, pela casa, pelo quarto; deito-me e fico às voltas, na cama, no pensamento. Prenúncio de que fatalidade, de que tragédia? Depois volto a mim, e recordo-me que, felizmente, a minha tragédia já aconteceu. Por momentos o pesadelo transforma-se em sonho; porque o sonho é o meu pesadelo. Não há-de ser nada, seja o que for; é assim que é, quando já nada nos importa. E, depois de um dia nenhuma outra coisa virá que não outro dia. Para quê inventar futuros, para quê sonhar passados, se tudo o que existe é presente? O som do vento, a sua fúria agrilhoada, o seu grito contido, o punho cerrado que a custo sustém o seu sopro, a iminência de se soltar, tudo isto pesa na face da noite, como uma longínqua angústia...
Será? Pesadelo: A «experiência traumática» é a melhor matéria-prima para dormir bem uma grande quantidade de noites. Os pesadelos causam angústia mas desaparecem depressa. Os sonhos podem durar a vida toda e estar mascarados de convicção moral e, por isso, só acordamos por casualidade. Os pesadelos funcionam de um modo bastante mais humano: acordamos quando a imagem se torna insuportável.
Imagem vista aqui. Gravura de Clébio Maduro
