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terça-feira, 27 de janeiro de 2009

CONFISSÃO DE UM PECADO QUE NÃO COMETI

Leitores mais atentos e irrequietos (e atrevidos, nas suas próprias palavras) têm-me enviado e-mails (ou através do msn - aqueles que me adicionaram) a perguntar quem é o autor anónimo dos rascunhos encontrados num caderno abandonado. Respondo-lhes sempre que encontrei os cadernos, pois são sete, numa casa que estava prestes a ser demolida. Que não contém nas suas muitas páginas nenhuma referência a nenhum nome. E assim me apresento como o heróico salvador das memórias de alguém que ali terá um dia habitado. E que talvez tenha sido feliz. Há sempre essa possibilidade! Por mais ínfima que seja... 
Mas... Mas... Mas... Respondem-me. Este rascunho, e aquele, e aqueloutro. Estão publicados com o teu nome na revista. O que faz de mim, ou ladrão, usurpador de identidade, ou aldrabão. Confesso pois que tenho um pouco das duas. E que sim, todos os rascunhos são da minha autoria. Porém, podem estar descansados, são rascunhos que encontrei em cadernos abandonados!

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

rascunho encontrado num caderno abandonado #71

Aquilo que os sonhos são
A vida dá, tira ou dispõe.
A alegria que os sonhos dão
A vida traz, leva ou repõe.
Nada está certo - ou errado,
O mal não é termos acreditado.
Não soubemos o que tínhamos,
O que abandonávamos - quanto perdíamos.

Todos os sonhos são, serão
Sonhos que tivemos. Sonhados
Outra vez, sempre a mesma vez.
Uma corda mágica que vibra
Dentro do ser, que lhe dá vida
Até que, quebrada, se desfaz.
Agora os sonhos são, serão
Sonhos que tivémos, lembranças
De outros sonhos. Recordações
Felizes, talvez...


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quarta-feira, 19 de novembro de 2008

rascunho encontrado num caderno abandonado #70

Só há uma coisa pior que despedires-te de alguém que sabes que nunca mais vais voltar a ver; é despedires-te de alguém que não sabes se algum dia vais voltar a ver...

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terça-feira, 11 de novembro de 2008

rascunho encontrado num caderno abandonado #69

Nightmare
Transpões o portão verde de ferro, e eu acordo. A tua voz ecoa na atmosfera seca de Julho, Se não ficares aí nunca mais nos voltamos a ver. As tuas palavras ficam a badalar no meu cérebro. E eu vou-me embora, e acordo, acordo suado, com o presságio de que te vou perder. Há onze anos que partiste, e eu ainda acordo com medo que vás partir. Porque é que me assusta tanto a ideia de que vai acontecer algo que já aconteceu? Porque é que me assusta tanto a ideia que tu te vais embora para sempre, se tu já foste embora para sempre há onze anos?

Dentro de mim estarás a partir até que eu parta. Porque dentro de mim vive um pedaço de ti, que eu nunca deixei partir. Sei que nunca mais te verei, sei que partiste e nunca mais voltarás, mas dentro de mim ficaste para sempre. Dentro de mim ficou um pedaço de ti que todos os dias apressa a minha morte: é aquilo que ainda me mantém vivo.
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quinta-feira, 10 de abril de 2008

rascunho encontrado num caderno abandonado #68

Acreditei na amizade; era uma questão de quantidade... Acreditei no amor; era um entediante número ímpar e primo... Acreditei que amor e amizade eram a especiaria que dava gosto aos dias... Engano... Só no frémito incessante de corpos despidos encontramos tempero. Ainda assim, ao ler o poema "Amigo" de Alexandre O'Neill, é como se uma alegria antiga passasse por mim, esquiva. Fecho os olhos e ainda lá estás.
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segunda-feira, 10 de março de 2008

rascunho encontrado num caderno abandonado #67

Do nosso passado restam
apenas algumas lembranças
guardadas em caixas, baús,
memórias há muito esquecidas,
palavras já sem significado
como o retrato de um antepassado
desconhecido, que nos olha
da parede, na casa da província
onde, de quando em quando,
reencontramos familiares e alguns
amigos de outros tempos,
da infância ou da juventude,
que foram ficando, sempre
com vontade de partir. Também
as memórias do nosso passado
são assim: momentos que quisemos
esquecer, mas foram ficando.
E nós, de tempos a tempos,
deparamo-nos com elas,
entristecemos alguns instantes,
pensamos nostálgicos num passado
e num futuro, que abandonámos.


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domingo, 9 de março de 2008

rascunho encontrado num caderno abandonado #66

Há anos que vive no limite das suas forças, amparado por esperanças estéreis, alentado por vãs conquistas. Só o sonho não chega p'ra viver, pensa. Muitas vezes quis morrer não o querendo. Tudo me acontece, mas nada de bom, lamenta. Falhado nos estudos, no trabalho, e no amor. Nem a ilusão do dinheiro, para continuar a viver, cogita. Com menos de cem euros na algibeira, depende da boa vontade, da comida e, porque não dizê-lo, e principalmente da pena de familiares e amigos. Que motivos me restam?, questiona-se, nunca quis, tão pouco, matar-me, como hoje, mas nunca como hoje andei tão perto de o fazer. A vida assim é menos que vida. Derrotado por dentro, desmotivado, numa palavra: morto. No entanto continua, sem saber até onde, até quando... Também, ninguém sabe!, diz para si mesmo, olhando-se ao espelho.
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segunda-feira, 3 de março de 2008

rascunho encontrado num caderno abandonado #65

Isso dos sonhos é como o horóscopo; podem querer dizer tudo, ou não dizer nada. Por exemplo, todas as pessoas querem dizer qualquer coisa, todas as pessoas precisam de falar, todas as pessoas deixam coisas por dizer, etc... Não ando bem há muitos anos (de facto, não posso dizer com certeza que alguma vez estive bem) - mas quem é que anda bem?! A vida não foi feita para andarmos bem. Foi feita para andarmos. Depois há os Happy Few que ocasionalmente andam bem, e os outros todos que ocasionalmente não andam mal...
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domingo, 2 de março de 2008

rascunho encontrado num caderno abandonado #64

Como é que uma pessoa pode viver neste mundo sem possuir adequados mecanismos de coping?! Até aonde bastará a risiliência* para sobreviver...?!
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domingo, 24 de fevereiro de 2008

rascunho encontrado num caderno abandonado #63

Porque é que são sempre aqueles que nos bateram que perguntam porque é que estamos magoados?! Porque é que são sempre aqueles que nos abandonaram que se admiram que estejamos sós?! Porque é que são sempre aqueles que nos tramaram que se questionam como é que é possível que estejamos lixados?! Porque é que são sempre aqueles que nos mataram que ficam estupefactos por já não sermos quem éramos?! E quando não são, são sempre os mesmos desgraçados que nos aturam...
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quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

rascunho encontrado num caderno abandonado #62

Tinha um problema: pediu ajuda, mas depressa percebeu que não tinha nenhum amigo que lho solucionasse. Tinha uma dúvida: depressa percebeu que não tinha nenhum amigo que lhe desse uma resposta. Quis sair nessa noite: não tinha nenhum amigo que o acompanhasse. Quando finalmente percebeu que não tinha nenhum amigo, meteu o revólver na boca e puxou o gatilho. Acabaram-se os problemas e as dúvidas, pensou, segundos antes de morrer.
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sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

rascunho encontrado num caderno abandonado #61

É permitido fumar neste poema
Pedir ou oferecer palavras
Acendê-las ou apagá-las
Atirar com elas para o chão
Perfumar a atmosfera
Com o seu cheiro. Esquecê-las
Sobre uma mesa, uma parede
Um pedaço de papel amachucado.
Ávidos, chupá-las, aspirá-las,
Inspirá-las, sugá-las, expirá-las
Para o ar poluido da terra.
Podem fumá-las à vontade,
Não matam nem causam impotência.
Podem prender ou libertar,
Ferir ou curar. As palvras
Belas para uns, para outros feias
Ou apenas inúteis, as palvras
Não salvam os inocentes,
Não libertam dos carcereiros,
Nem acabam com os tiranos.
Tudo podem e nada conseguem,
Como um cigarro, acalmam.
Iluminam um instante, ficam
Como um fio de fumo cinzento
Na memória. E desvanecem-se.

A uns incomodam, fazem falta
A outros. Podem fumar à vontade
Neste poema. Não há ar puro
Na atmosfera onde se alimentaram
As árvores de onde vieram
As fibras deste papel. Aqui,
Como numa velha tabuleta
Abandonada, está escrita
Uma velha e inútil indicação

É permitido fumar sozinho,
Aos pares ou em lúbricas orgias,
Homens com mulheres, mulheres
Com mulheres, homens com homens,
Ou outras possíveis combinações,
Livres e de comum acordo.
Às palvras não se colocam restrições,
É permitido beijá-las em público,
Aqui nenhum amor é impúdico,
Os amantes podem expressar
O amor sem se envergonhar.


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quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

rascunho encontrado num caderno abandonado #60

The Anatomy Lesson Elsie Russell painting pintura
Disseste-me: o ódio, ao contrário do amor, não precisa de ser alimentado para florescer. Entendi o que querias dizer, e concordei, sem reflectir no assunto. Depois pensei, e julgo que há amor que cresce sem ser alimentado e há ódio que nunca cresceria se não fosse alimentado. Ou talvez tenhas razão, e o amor que cresce sem ser alimentado não seja amor, mas atracção, paixão, obsessão... e o ódio que não cresceria se não fosse alimentado não seja ódio, mas aversão, crispação, embirração...  

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Imagem: The Anatomy Lesson, de Elsie Russell

sábado, 12 de janeiro de 2008

rascunho encontrado num caderno abandonado #59

Quando se apaixonava esquecia tudo, os seus olhos só tinham fixação naquele ser. Quando ele não estava perto, andavam zomzos, saltitando de rosto em rosto, prescrutando a multidão para o encontrar. Às vezes ganhava coragem - com o tempo a coragem vinha cada vez mais depressa, mas menos intensa, mais indiferente - ou era ele que vinha falar com ela. Ah! é tão bom!, parecia exclamar. O seu corpo era brilho, o seu sexo era magma. Quando amamos todos os nossos problemas desaparecem, confessava-me. Era, então, esse o segredo do Amor - não nos dá respostas, apenas não coloca as perguntas. Fizemos Amor, confessava-me baixinho, o seu rosto era sorriso, Diz que me ama, que quer ficar comigo para sempre. Contraía-se o seu rosto, ainda com um leve sorriso, e suspirava. Eu, que a conhecia desde sempre - pura verdade neste caso, pois nascera um ano depois dela e cresceramos juntos, já sabia. Saíra a pensar nele, naquele que há anos a deixara a sonhar com a certeza de uma promessa.
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