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sábado, 25 de abril de 2009

QUAL O LIVRO MAIS IMPORTANTE DA TUA VIDA? #5



Honorato Esteves escolheu "Um dia na vida de Ivan Denisovich" de Alexandre Soljenitsin; "CULTURA Tudo o que é preciso saber" de Dietrich Swarnitz foi a escolha de Osório de Andrade; e José Monteiro escolheu "A Criação do Mundo” de Miguel Torga. Mais informações aqui.

Ou será ao contrário?, i.e., não terão sido os livros a escolher-nos?

quinta-feira, 10 de julho de 2008

RELÂMPAGO*

Rasguei-me como um raio rasga o céu.
Iluminei-me todo de repente.
Negrura permanente
De noite enfeitiçada,
Quis ver-me com pupilas de vidente,
E arrombei os portões à madrugada.

Mas nada vi. Caverna de pavores,
Só com tempo e vagar eu poderia
Encarar,
Castigar
E perdoar
Tanta abominação que em mim havia.


*Miguel Torga, in. Orfeu Rebelde (edição de autor).


À falta de tempo e disposição para aqui publicar o que quer que seja - deve ser da pré-depressão, depressão, e pós-depressão, de mais um aniversário da minha morte... um brinde a este cadáver que se arrasta pelas veredas pedregosas da vida, e se alimenta do pó dos dias...

domingo, 23 de dezembro de 2007

a um secreto leitor*

Há alguns meses atrás, um/a secreto/a leitor/a nihilsibi - o profile não está disponível; portanto não sei se tem blog ou não; não tenho a ínfima ideia acerca de quem possa ser; o mais provável é que não nos conheçamos de lugar algum - deixou-me o poema que vou agora aqui publicar, de Miguel Torga - nos comentários deste post. Hoje fui dar com o poema; não fui o único que hoje foi dar com o poema. Há sempre a outra face da moeda. Quem é a outra face da moeda, isso pretendo eu saber, mas a pessoa não se confessa. É um/a secreto/a leitor/a.... O poema intitula-se "a um secreto leitor" e foi escrito em 1951.
No silêncio da noite é que eu te falo, Como através de um ralo De confissão Auscultadores pessoais e atentos, Os teus ouvidos são Ermos abertos para os meus tormentos. Sem saber o teu nome e sem te ver — Juiz que ninguém pode corromper —, Murmuro-te os meus versos, os pecados, Penitente e seguro De que serás um búzio do futuro, Se os poemas me forem perdoados.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

rascunho encontrado num caderno abandonado #50*

às vezes, acordo sobressaltado
sempre com a mesma inquietação
sonho que partiste, angustiado
acordo quando o tu me olhas
pela última vez, um olhar
inexpressivo, uma expressão
que nada me diz, nada transmite
o teu silêncio, o teu olhar absorto,
a pacatez em volta do teu rosto
fazem tremer o meu coração,
o meu corpo ergue-se, corre
ao teu encontro. Um impulso
ávido, bate contra o meu peito
para te agarrar. Estico a mão,
tacteio. O leito está, sempre,
vazio. Respiro profundamente.
Não sei, nunca, se partiste
ou se nunca lá estiveste...

rascunhos encontrados num caderno abandonado anteriores:
#1, #2, #3, #4, #5, #6, #7, #8, #9, #10, #11, #12, #13, #14, #15, #16, #17, #18, #19, #20, #21, #22, #23, #24, #25, #26, #27, #28, #29, #30, #31, #32, #33, #34, #35, #36, #37, #38, #39, #40, #41, #42, #43, #44, #45, #46, #47, #48, #49,

*O poema do Miguel Torga, que publiquei no post anterior, fez-me lembrar deste, talvez pelo primeiro verso, talvez pelo título, não sei...

PESADELO

Às vezes, vem-me à lembrança
Aquela que foi um dia
a minha praça rendida
sem condições...
E que, depois de tomada,
ficou ali sem gritar
o fatal «aqui-del-rei
que são ladrões!...»

Vem-me à lembrança Aquela que morreu
e que no céu contou a sua entrega
duma maneira tão casta
que Deus a deixou ficar

(para exemplo
daquelas onze mil virgens
que ali andavam
sem que ninguém soubesse
porquê, nem porque não!;
que foram como vieram
e que, por isso, negaram
a santidade profunda
da Criação!...)...

Vem-me à lembrança, e choro este meu pranto
de crocodilo sincero...
Eu sou determinado, e Satanaz bem sabe
que não sei fazer o bem
e faço o mal que não quero...


Miguel Torga, in O Outro Livro de Job (5.ª edição revista, Coimbra, edição de autor)

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

HARMONIA*

Feliz canto das aves,
Sem possível
Compreensão;
Feliz rumo dos astros,
Sem possível
Desvio;
Feliz fúria do vento
Sem possível
Arrependimento.

E feliz o poeta
Que ninguém lê.
Que sòzinho contempla
O nascimento e a morte
Dos seus versos.
Pai acabado que no próprio corpo
Gera os filhos
E lhes dá ternura
Do berço à sepultura.


Miguel Torga, in. Orfeu Rebelde (edição de autor, 3.ª edição, Coimbra)

*Título do autor. Agradeço os comentários ao pinguim, ao RIC, e ao papagueno, no post anterior, lembrando o centenário do nascimento de Miguel Torga. Infelizmente, não me surpreende este passar ao lado do centenário do nascimento de Miguel Torga (até por parte do Ministério da Cultura, que em Portugal de Cultura tem muito pouco há muitos anos, se alguma vez alguma coisa de Cultura teve)... Em Coimbra, cidade onde Torga viveu e trabalhou grande parte da sua vida, entrei, no ano de 2001, numa livraria, procurando O Quinto Dia da Criação do Mundo (4.º volume de 5, pois os dois primeiros foram editados conjuntamente, original de 1974 - Mais tarde acabaria por comprar a edição conjunta, e oferecer os cinco volumes em separado), quando para minha surpresa, a funcionária da livraria me diz: É um autor recente? Não conheço... Mas, é Português?!... Pelo nome parece...
Isto tudo, talvez porque como o próprio disse, logo no início da obra acima citada, que para mim é o seu ponto alto, em termos de poesia: Porque não sei mentir, / Não vos engano: / Nasci subversivo.

domingo, 12 de agosto de 2007

centenário do nascimento de Miguel Torga (1907-2007)

O mestre, acabado nos socos abertos e abafado no varino de surrobeco, sempre atido ao venha a nós, recebia-nos conforme a pingadeira. - O senhor passou bem? - Olá, seu pardal! Ainda agora? - Trouxe uma cesta de batatas, que já entreguei à senhora Marquinhas, e demorei-me um migalho... - Bem, bem... Amanhã vê se desembelinhas essas pernas. Quando a dúzia de ovos tardava, ou o fumeiro parecia esquecido, ele próprio lembrava a falta. E até os mais pobres apareciam de saquitel ao ombro. Mas havia dar, e dar... E o tom de acolhimento variava. - E tu, meu figurão? - Fui prender a burra... - A burra tem costas largas! (...) Sentava-me na bancada da frente, à esquerda do meu companheiro, o Jerónimo. Num instante, estava pronto. O senhor Botelho erguia-se então da cadeira, descia o estrado, e ordenava em tom solene: - Papel de trinta e cinco linhas. Ditado! A esta palavra, a sala ficava silenciosa. Miguel Torga, in. A Criação do Mundo (edição de autor, 2.ª edição conjunta, pp. 12-13)

quarta-feira, 21 de março de 2007

dia mundial da poesia #5

HARMONIA

Feliz o canto das aves,
Sem possível
Compreensão;
Feliz rumo dos astros,
Sem possível
Desvio;
Feliz fúria do vento,
Sem possível
Arrependimento.

E feliz o poeta
Que ninguém lê.
Que sòzinho contempla
O nascimento e a morte
Dos seus versos.
Pai acabado que no próprio corpo
Gera os filhos
E lhes dá ternura
Do berço à sepultura.


MIGUEL TORGA, In. Orfeu Rebelde

quinta-feira, 1 de março de 2007

o meu grande português #4

Fernando Pessoa Oculto no seu corpo e no seu nome (Aranha que negava a própria teia Que tecia), Poeta da Poesia Sibilina e cauta, Foi o vidente filho universal Dum futuro-presente Portugal, Outra vez tovador e argonauta.
MIGUEL TORGA, In. Poemas Ibéricos