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quinta-feira, 23 de julho de 2009

TEMPESTADE

Noites tempestuosas como as de hoje trazem-me à memória Eça de Queiroz e Os Maias; levanto-me e ando às voltas, pela casa, pelo quarto; deito-me e fico às voltas, na cama, no pensamento. Prenúncio de que fatalidade, de que tragédia? Depois volto a mim, e recordo-me que, felizmente, a minha tragédia já aconteceu. Por momentos o pesadelo transforma-se em sonho; porque o sonho é o meu pesadelo. Não há-de ser nada, seja o que for; é assim que é, quando já nada nos importa. E, depois de um dia nenhuma outra coisa virá que não outro dia. Para quê inventar futuros, para quê sonhar passados, se tudo o que existe é presente? O som do vento, a sua fúria agrilhoada, o seu grito contido, o punho cerrado que a custo sustém o seu sopro, a iminência de se soltar, tudo isto pesa na face da noite, como uma longínqua angústia...

 

Será? Pesadelo: A «experiência traumática» é a melhor matéria-prima para dormir bem uma grande quantidade de noites. Os pesadelos causam angústia mas desaparecem depressa. Os sonhos podem durar a vida toda e estar mascarados de convicção moral e, por isso, só acordamos por casualidade. Os pesadelos funcionam de um modo bastante mais humano: acordamos quando a imagem se torna insuportável.

Imagem vista aqui. Gravura de Clébio Maduro

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Happy Endings Foundation

Happy Endings Foundation. Imaginem que Josef K. na véspera do seu trigésimo primeiro aniversário é levado por dois homens até um enorme salão, onde amigos e familiares o esperam para uma festa surpresa!... Que Meursault afinal não matara um árabe, e que tudo não passara de um pesadelo, fruto de um sentimento de culpa, após haver discutido com a mãe dias antes - e em que ameaçara interná-la num asilo... Que Ricardo não matara Marta (matando-se a si mesmo) nem Lúcio arcara com a pena de prisão; fora apenas um delírio de Lúcio após ter bebido demais num jantar a três... Que o retrato de Dorian Gray, com o passar dos anos, acaba por se desfazer em cinzas, de tão velho que estava, tornando Dorian imortal... Que afinal houvera uma enorme confusão com os nomes, mas que Carlos Eduardo e Maria Eduarda não são irmãos... Que o Voldemort mata o Harry Potter (mas o Ronald Weasley vinga o seu namorado, perdão, melhor amigo!)... [indipensável ler os posts na Blue e no A Origem das Espécies].

terça-feira, 31 de julho de 2007

o que tenho (re)lido e recomendo

Juliana pelo quarto arrumava, dobrava, toda curiosa. Onde iriam? Onde iriam? D. Felicidade, amplamente sentada, de chapéu, tagarelava: uma indigestão que tivera na véspera com umas bajes; a cozinheira que a tinha querido «comer» em quatro vinténs; uma visita que lhe fizera a condessa de Arruela... Enfim, Luiza, disse, baixando o seu véu branco: - Vamos, filha. Faz-se tarde. Juliana foi-lhes alumiar, furiosa. Olha que propósito, irem duas mulheres sós por aí fora, numa tipóia! E se uma criada então se demorava na rua mais meia hora, credo, que alarido! Que duas bêbedas! (pp. 89-90)
José Maria Eça de Queiroz (in. O Primo Bazilio, Edição «Livros do Brasil»)

terça-feira, 10 de abril de 2007

As amizades nunca passam de alianças que o interesse, na hora inquieta da defesa ou na hora sôfrega do assalto, ata apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da rivalidade ou do orgulho.
JOSÉ MARIA EÇA DE QUEIROZ, In. A Cidade e as Serras