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terça-feira, 21 de abril de 2009

QUAL O LIVRO MAIS IMPORTANTE DA TUA VIDA? #2


Américo Rodrigues escolheu Manual do Magnetisador Pratico ou Arte de Exercer o Magnetismo em qualquer pessoa, de Dr. Regazzoni (Professor da Academia de Medicina de Nápoles); Os Conjurados, de Jorge Luis Borges, foi escolhido por António Ferreira; e António Godinho escolheu Os Passos em Volta, de Herberto Helder. (Ver mais aqui).

segunda-feira, 6 de abril de 2009

101 PESSOAS SIMPÁTICAS E BONITAS*

Agradeço aos 2 seguidores que tiveram a atitude sensata e inteligente de me desseguir, pois é graças a eles que hoje chego pela segunda vez a este simpático e redondo número; mas maior admiração devo às resistentes 101 pessoas que me acompanham (cuidado, não caiam no abismo) neste momento em que escrevo o post número 1240! É que aturar-me, e aos meus posts sem jeito nenhum, é tarefa que não está ao alcance de qualquer um! Eu próprio, que me acompanho há um número infindável de dias, estou constantemente a soçobrar. Obrigado meus bravos e corajosos companheiros! Juntos, chegaremos a outras metas, juntos ambicionaremos o mundo, a lua, o sistema solar, e um dia quem sabe, a via láctea, o universo! E o que para além dele houver! Juntos triunfaremos, divididos tombaríamos (o.k., esta é inspirada no verso de uma música dos Pink Floyd). E mesmo que um dia nos separemos, nunca esqueçamos as sábias palavras de Dylan Thomas: Ainda que os amantes se percam, o Amor permanecerá! (tradução livre de Though lovers be lost, love shall not). E a Morte perderá o seu domínio!


*TAMBÉM CONHECIDAS POR «SEGUIDORES». CÁLSSIO, NÃO ESTÁS SOZINHO! NÃO SE ESQUEÇAM QUE O SEGUIDOR 1001 TEM DIREITO A PRÉMIO! GOSTAVA DE TER MAIS TEMPO E DISPONIBILIDADE PARA VIR PARA AQUI DISCURSAR SOBRE A IMPORTÂNCIA DE (NÃO) ME CHAMAR ERNESTO, MAS COMO OS MEUS INTELIGENTES AMIGOS JÁ SE DEVEM TER APERCEBIDO... NÃO TENHO! NÃO CONTEM ISTO A NINGUÉM (SHAME ON ME!): COMPREI MAIS ALGUNS LIVROS: DO YUKIO, DO OSCAR, DO HERBERTO, E DO DINIS... VIRAM AS VOLTAS QUE TIVE QUE DAR PARA JUNTAR O NOME DESTES QUATRO AUTORES NO MESMO POST, E AINDA FALEI DOS PINK FLOYD E DO DYLAN THOMAS! SÓ FALTOU O FERNANDO E OS QUEEN, E...

sábado, 28 de fevereiro de 2009

OFÍCIO CANTANTE - herberto helder

Por fim, não resisti, e lá dei os 48€. Para não pensar nisso, passemos à página 136:

Há sempre uma noite terrível para quem se despede
do esquecimento. Para quem sai,
ainda louco do sono, do meio
de silêncio. Uma noite
ingénua para quem canta.
Deslocada e abandonada noite onde o fogo se instalou
que varre as pedras da cabeça.
Que mexe na língua a cinza desprendida.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

OFÍCIO CANTANTE

Ofício Cantante — Poesia completa
Herberto Helder



I.S.B.N.: 978-972-37-1396-1
624 pp.
P.V.P.: 48 €








São claras as crianças como candeias sem vento,
seu coração quebra o mundo cegamente.
E eu fico a surpreendê-las, embebido no seu poema,
pelo terror dos dias, quando
em sua alma os parques são maiores e as águas turvas param
junto à eternidade.
As crianças criam. São esses os espaços
onde nascem as suas árvores.

Enquanto as campânulas se purificam no cimo do fogo,
as crianças esmigalham-se.
Seu sangue evoca
a tristeza, tristeza, a tristeza
primordial.
- Enlouquecem depressa caídas no milagre. Entram
pelos séculos
entre cardumes frios, com o corpo espetado nas luzes
e o olhar infinito de quem não possui alma.

Seu grito emonta ao verão. Inspira-as
a velocidade da terra.
As crianças enlouquecem em coisas de poesia.
Escutai um instante como ficam presas
no alto desse grito, como a eternidade as acolhe
enquanto gritam e gritam.

- É-lhes dado o pequeno tempo de um sono
de onde saem
assombradas e altas. Tudo nelas se alimenta.
Dali a vida de um poema tira
por um lado apaixonadamente; por outro,
purificação.
Nelas se festeja a imensidade
dos meses, a melancolia, a silenciosa
pureza do mundo.

Quem há-de pensar para as crianças, sem ter
espinhos nas vozes desertas
até ao fundo? É vendo-se aos espelhos,
no seguimento da noite,
que as crianças aparecem co o horror
da sua candura, as crianças fundamentais, as grandes
crinaças vigiadoras -
cantando, pensando, dormindo loucamente.

Não há laranjas ou brasas ou facas iluminadas
que a vinganças não afaste.
As crianças invasoras percorrem
os nomes - enchem de uma fria
loucura inteligente
as raízes e as folhas da garganta.

Aprendemos com elas os corredores do ar,
a iluminação, o mistério
da carne. Partem depois, sangrentas,
inomináveis. Partem de noite
noite - extremas e únicas.
- E nada mais somos do que o Poema onde as crianças
se distanciam loucamente.
Loucamente.


HERBERTO HELDER

domingo, 1 de julho de 2007

São claras as crianças como candeias sem vento,
seu coração quebra o mundo cegamente.
E eu fico a surpreendê-las, embebido no seu poema,
pelo terror dos dias, quando
em sua alma os parques são maiores e as águas turvas param
junto à eternidade.
As crianças criam. São esses os espaços
onde nascem as suas árvores.

Enquanto as campânulas se purificam no cimo do fogo,
as crianças esmigalham-se.
Seu sangue evoca
a tristeza, tristeza, a tristeza
primordial.
- Enlouquecem depressa caídas no milagre. Entram
pelos séculos
entre cardumes frios, com o corpo espetado nas luzes
e o olhar infinito de quem não possui alma.

Seu grito emonta ao verão. Inspira-as
a velocidade da terra.
As crianças enlouquecem em coisas de poesia.
Escutai um instante como ficam presas
no alto desse grito, como a eternidade as acolhe
enquanto gritam e gritam.

- É-lhes dado o pequeno tempo de um sono
de onde saem
assombradas e altas. Tudo nelas se alimenta.
Dali a vida de um poema tira
por um lado apaixonadamente; por outro,
purificação.
Nelas se festeja a imensidade
dos meses, a melancolia, a silenciosa
pureza do mundo.

Quem há-de pensar para as crianças, sem ter
espinhos nas vozes desertas
até ao fundo? É vendo-se aos espelhos,
no seguimento da noite,
que as crianças aparecem co o horror
da sua candura, as crianças fundamentais, as grandes
crinaças vigiadoras -
cantando, pensando, dormindo loucamente.

Não há laranjas ou brasas ou facas iluminadas
que a vinganças não afaste.
As crianças invasoras percorrem
os nomes - enchem de uma fria
loucura inteligente
as raízes e as folhas da garganta.

Aprendemos com elas os corredores do ar,
a iluminação, o mistério
da carne. Partem depois, sangrentas,
inomináveis. Partem de noite
noite - extremas e únicas.
- E nada mais somos do que o Poema onde as crianças
se distanciam loucamente.
Loucamente.


HERBERTO HELDER

sexta-feira, 27 de abril de 2007

LUGAR - IV


Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde
uma paixão bárbara, um amor.
Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
Olho minha loucura, escada
sobre escada.

Mulheres que eu amo com um des-
espero fulminante, a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em quem toco levemente
levemente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão

Dentro da minha idade, desde
a treva, de crime em crime - espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
das suas cabeças
ardentes: - E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente.


HERBERTO HELDER, In. A Colher na Boca