Mostrar mensagens com a etiqueta Eduardo Pitta. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eduardo Pitta. Mostrar todas as mensagens

domingo, 22 de março de 2009

DIA MUNDIAL DA POESIA #2

Ontem, Dia Mundial da Poesia, não tive tempo para aqui vos deixar um poema; estive, como vos publicitei, no Teatro Municipal da Guarda a celebrar este dia. Seleccionar um poema para assinalar esta data, convenhamos, é como escolher um grão de areia na praia. Aqueles que li na ocasião escolheram-me para sier lidos por entre o caos e o esplendor de milhares de páginas que levei comigo: não estive pelos ajustes: como não tinha tempo para planear, peguei simplesmente nos livros de poesia, dos autores que mais gosto, que estavam mais à-mão, e enfiei-os numa caixa e numa mochila e carreguei-os até ao Café Concerto do Teatro. Foi assim que por entre os muitos que li, este veio ter comigo:

Dizem que não nos queremos,
Disseram -
Até com certa ironia
Que quando nos encontramos
Há neve no outro dia.
Como essa gente se engana,
Como essa gente mesquinha
Me diverte e me dá pena!
- Não nos vêem conversar,
Ninguém nos viu de mãos dadas
Nem sabem que nos beijamos;
- Como essa gente se engana
Acerca do que pensamos!
Dizem que não nos queremos
Por um motivo qualquer:
-Só no nosso coração
Poderia responder:
Poderia - mas não quer.


António Botto, in. Cancões. No ano em que passaram 50 anos após a morte de António Botto, não podia faltar um poema dele. Sobre António Botto aproveito para partilhar um texto de Francisco José Viegas, lido no blog Da Literatura:

"[...] O país envergonha-se de António Botto porque aprecia muito a pequena anedota que desvaloriza uma obra, uma personagem, um nome. O país muito macho e alazão (mas muito bicha às escondidas) suspeita de Botto e evita usar o seu nome. Faz mal. O contacto com a sua poesia só eleva o leitor e abre a caixa dos preconceitos, para os ver cair depois. Um dos títulos das suas obras completas é Cartas que Me Foram Devolvidas, o que dá bem a ideia do medinho com que esta gente ficou, só de ouvir dizer o nome de António Botto.» (publicado no Correio da Manhã)

Ainda sobre António Botto: a obra completa do poeta nas edições quasi, organizada por Eduardo Pitta.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

um país de analfabetos

Ao ler o post de Eduardo Pitta um país de analfabetos, recordei-me de um antigo episódio, quando há 8 anos fiz o exame de código: estávamos sentados na sala onde fizéramos o exame, esperando que os resultados fossem processados quando o Engenheiro que vigiava a prova dirigiu a palavra a uma senhora, perguntando-lhe se era desta. Ela disse que logo se via. E o que se viu foi que a senhora chumbou pela 19.ª vez, errando mais de metade das questões. Na época perguntei-me como era possível alguém chumbar pela 19.ª vez num exame de código. Se fosse no de condução, pensei, seria azelhice, mas no de código... Agora, ao ler este post, julgo ter encontrado a resposta...

quinta-feira, 17 de maio de 2007

a ler, i.e, comprar quando houver disponibilidade monetária

Podem ler o primeiro capítulo no blog Minisciente. O lançamento foi ontem, dia 16, na Fnac Chiado. Podem saber mais sobre a obra de Eduardo Pitta no seu site. Um pequeno excerto: Na tarde em que o leu, Nora gelou. Tinha gravada na memória a imagem de Martim na cama com o filho do motorista. A casa da Curia só tinha camas de casal, e as férias de Verão, tal como as do Carnaval e da Páscoa, impunham protocolos próprios. Embora fossem cinco, os quartos da casa não eram grandes. Anos houve em que o Grande Hotel foi uma extensão natural do núcleo familiar. Naquele dia, Nora julgava-os entretidos na vila. Seriam seis da tarde quando foi ao quarto à procura de uma revista extraviada. E então viu. Completamente nus, a dormirem profundamente, o radiador aceso em cima do tapete, muito próximo da cama, lençóis e cobertores atirados para trás, a perna esquerda do Tó atravessada nas costas do filho. Toda ela abanava, mas obrigou-se a olhar, a custo sustendo a respiração. Depois fechou a porta. À noite pretextou uma enxaqueca e pediu que lhe servissem o jantar no quarto. O marido nunca soube. Era preciso evitar confusões, perguntas embaraçosas, recriminações mútuas, os mexericos que um regresso intempestivo provocaria, sabe-se lá com que consequências para o motorista. Todos se interrogariam: o marido, os pais, os sogros, a irmã, os amigos, os outros empregados. Quando as férias acabaram, tudo voltou à rotina. Nora desdobrou-se em estratégias para dificultar o convívio dos rapazes. Matriculou o filho no Instituto Italiano, impôs aulas de judo nas noites que sobravam e arranjou um explicador de matemática que só tinha vaga ao sábado à tarde e morava em Algés. Ao mesmo tempo que achava simpática a ideia do judo, o marido aprovou o cuidado com a matemática. A cultura italiana deixou-o indiferente.