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domingo, 22 de março de 2009

DIA MUNDIAL DA POESIA #2

Ontem, Dia Mundial da Poesia, não tive tempo para aqui vos deixar um poema; estive, como vos publicitei, no Teatro Municipal da Guarda a celebrar este dia. Seleccionar um poema para assinalar esta data, convenhamos, é como escolher um grão de areia na praia. Aqueles que li na ocasião escolheram-me para sier lidos por entre o caos e o esplendor de milhares de páginas que levei comigo: não estive pelos ajustes: como não tinha tempo para planear, peguei simplesmente nos livros de poesia, dos autores que mais gosto, que estavam mais à-mão, e enfiei-os numa caixa e numa mochila e carreguei-os até ao Café Concerto do Teatro. Foi assim que por entre os muitos que li, este veio ter comigo:

Dizem que não nos queremos,
Disseram -
Até com certa ironia
Que quando nos encontramos
Há neve no outro dia.
Como essa gente se engana,
Como essa gente mesquinha
Me diverte e me dá pena!
- Não nos vêem conversar,
Ninguém nos viu de mãos dadas
Nem sabem que nos beijamos;
- Como essa gente se engana
Acerca do que pensamos!
Dizem que não nos queremos
Por um motivo qualquer:
-Só no nosso coração
Poderia responder:
Poderia - mas não quer.


António Botto, in. Cancões. No ano em que passaram 50 anos após a morte de António Botto, não podia faltar um poema dele. Sobre António Botto aproveito para partilhar um texto de Francisco José Viegas, lido no blog Da Literatura:

"[...] O país envergonha-se de António Botto porque aprecia muito a pequena anedota que desvaloriza uma obra, uma personagem, um nome. O país muito macho e alazão (mas muito bicha às escondidas) suspeita de Botto e evita usar o seu nome. Faz mal. O contacto com a sua poesia só eleva o leitor e abre a caixa dos preconceitos, para os ver cair depois. Um dos títulos das suas obras completas é Cartas que Me Foram Devolvidas, o que dá bem a ideia do medinho com que esta gente ficou, só de ouvir dizer o nome de António Botto.» (publicado no Correio da Manhã)

Ainda sobre António Botto: a obra completa do poeta nas edições quasi, organizada por Eduardo Pitta.

sábado, 4 de outubro de 2008

noite

A noite,
- Como ela vinha!
Morna, suave,
Muito branca, aos tropeções,
Já sobre as coisas descia,
E eu nos teus braços deitado
Até sonhei que morria

E via -
Goivos e cravos aos molhos;

Um Cristo crucificado;
Nos teus olhos,

Suavidade e frieza;
Damasco roxo puído,
Mãos esquálidas rasgando
Os bordões de uma guitarra.
Penumbra, velas ardendo,
Incenso, oiro - tristeza!...
E eu, devagar, morrendo...

O teu rosto moreninho
 - Tão formoso!
Mostrava-se mais sereno,
E sem lágrimas, enxuto;
Só o teu corpo delgado,
O teu corpo gracioso,
Se envolvia todo em luto.

Depois, ansiosamente,
Procurei a tua boca,
A tua boca sadia;
Beijámo-nos doidamente...
- Era dia!

E os nossos corpos unidos
Como corpos sem sentidos,
No chão rolaram, e assim ficaram!

Pintura de Eric Fischl,
Poema de António Botto.

sábado, 16 de agosto de 2008

UM MAL NUNCA VEM SÓ...

Quando alguma tristeza, angústia, desilusão, ou mágoa me toca, refugio-me nos meus poetas dilectos; quem por aqui vai passando, terá já tido a oportunidade de notar que muitas vezes vou deixando pequenos poemas, ou excertos, desses poetas. Entre eles, três se destacam na categoria daqueles que têm o dom de aliviar o sofrimento: Álvaro de Campos, Sophia de Mello Breyner Andresen, e António Botto.
Ontem senti a necessidade de pegar na minha velhinha edição de "Canções" de António Botto, mas por mais voltas que dê às caóticas estantes que adornam as paredes do meu quarto, não sei onde é que o livro de capa dura, com pele castanho-avermelhada, foi parar... Um mal nunca vem só...

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

um grande amor*

Quanto, quanto me queres? - perguntaste Numa voz de lamento diluída; E quando nos meus olhos demoraste À luz dos teus senti a luz da vida. Nas tuas mãos as minhas apertaste; Lá fora da luz do Sol já combalida Era um sorriso aberto num contraste Com a sombra da posse proibida... Bejámo-nos, então, a latejar No infinito e pálido vaivém Dos corpos que se entregam sem pensar... Não perguntes, não sei - não sei dizer: Um grande amor só se avalia bem Depois de se perder. *Poema de António Botto, in Canções. O título do post não é de António Botto.

domingo, 1 de julho de 2007

If

Se tu podes impor a calma, quando aqueles Ques estão ao pé de ti a perdem, censurando A tua teimosia nobre de a manter. Se sabes aguardar sem ruga e sem cansaço. Privar com Reis continuando simples, E na calúnia não recorres à infâmia Para com arma igual e em fúria responder, - Mas não aparentar bondade em demasia Nem presumir de sábio ou pretender Manifestar excesso de ousadia, - Se o sonho, não fizer de ti um escravo E a luz do pensamento não andar Contigo no domínio do exagerado, Se encaras o triunfo ou a derrota Serenamente, firme, e reforçado Na coragem que é necessário ter Para ver a verdade atraiçoada, Caluniada, espezinhada, e ainda Os nossos ideais por terra, - Mas erguê-los De novo em mais profundos alicerces E proclamar com alma essa Verdade!, Se perdes tudo quanto amealhaste E voltas ao princípio sem um ai, Um lamento, uma lágrima, e sorrindo Te debruças sobre o coração Unindo outras reservas à Vontade Que quer continuar, e prosseguindo Chegar ao infinito da razão, Se a multidão te ouvir entusiasmada E a virtude ficar no seu lugar, Se amigos e inimigos não conseguem Ofender-te, e se quantos te procuram Para estar com o teu esforço não contarem Uns mais do que os outros, - olha-os por igual!, Se podes preencher esse minuto Som sessenta segundos de existência No caminho da vida percorrido Embora essa existência seja dura À força das tormentas que a consomem, Bendita a tua essência, a tua origem - O Mundo será teu, E tu serás um Homem! RUDYARD KIPLING, versão de António Botto

domingo, 10 de junho de 2007

10 de Junho

LEGENDA Ó pátria mil vezes Santa - Meu Portugal, minha terra Onde vivo e onde nasci! Na tua História me perco, E nela tudo aprendi. Mesmo que fosses pequena E eu te visse pobre ou nua -Ninguém ama a sua Pátria por ser grande, Mas sim por ser sua! ANTÓNIO BOTTO, in. Canções

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Não mintas dessa maneira. Vê-se - Muito claramente, Que é mentira quanto dizes, E a mentira, muitas vezes, - Quando não tem convicção, Em vez de afirmar destrói Toda a ilusão. Mente com outro sorriso - Mas mente!, Porque mentir, Infelizmente, é preciso. Essas palavras de amor Doidamente construídas, São necessárias À comédia sempre igual Das nossas vidas. - E a mentira do teu corpo Tem o sabor venenoso De uma laranja madura Numa paisagem lunar. - Se deixasses de mentir, Eu deixava de te amar. ANTÓNIO BOTTO, In. Canções
Chora a amante esquecida, Chora quem vai barra fora; - Quem não chorou nesta vida Se o próprio mar tembém chora? Sim; tudo acaba num ai, Num silêncio, num olhar, Ou numa lágrima triste! - Nem já sei se te beijei, Nem me lembro se me vistes... É isto, apenas. O mais, É mentira e fantasia... - Se a vida não fosse choro, O que é que a vida seria? ANTÓNIO BOTTO, In. Canções

quarta-feira, 21 de março de 2007

dia mundial da poesia #12

Não. Beijemo-nos apenas.
Nesta agonia da tarde.

Guarda -
Para outro momento,
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde
E a convivência contigo
Modificou-me - sou outro...

A névoa da noite cai.

Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos - És lindo!

A morte
Devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço - não ponhas
Esse desmaio na voz.

Sim, beijemo-nos apenas!,
- Que mais precisamos nós?


ANTÓNIO BOTTO, In. Canções

quinta-feira, 1 de março de 2007

o meu grande português #3

À memória de Fernando Pessoa
Se eu pudesse fazer com que viesses Todos os dias, como antigamente, Falar-me nessa lúcida visão - Estranha, sensualíssima, mordente; Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses, Meu pobre e grande e genial artista, O que tem sido a vida - esta boémia Coberta de farrapos e de estrelas, Tristíssima, pedante, e contrafeita, Desde que estes meus olhos numa névoa De lágrimas te viram num caixão; Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses, Voltávamos à mesma: Tu, lá onde Os astros e as divinas madrugadas Noivam na luz eterna de um sorriso; E eu, por aqui, vadio da descrença Tirando o meu chapéu aos homens de juízo... Isto por cá vai indo como dantes; O mesmo arremelgado idiotismo Nuns senhores que tu já conhecias - Autênticos patifes bem falantes... E a mesma intriga; as horas, os minutos, As noites sempre iguais, os mesmos dias, Tudo igual! Acaordando e adormecendo Na mesma cor, do mesmo lado, sempre O mesmo ar e em tudo a mesma posição De condenados, hirtos, a viver - Sem estímulo, sem fé, sem convicção... Poetas, escutai-me! Transformemos A nossa natural angústia de pensar - Num cântico de sonho!, e junto dele, Do camarada raro que lembramos, Fiquemos uns momentos a cantar!
ANTÓNIO BOTTO, In. Canções [Livro Sétimo: Baionetas da Morte]

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

2 Nem sequer podia Ouvir falar no teu nome. E se fixava o teu vulto, Irritava-me, sofria Por não poder insultar-te... Até que nos encontrámos! Choviscava, anoitecia. - Uma chuvinha Impertinente e gelada Como sorriso de ironia Numa boca desejada. Já não sei o que disseste; Nem me lembro do que eu disse... A chuva continuava. Atravessámos um jardim E à luz fosca Dum candeeiro, Segredaste ao meu ouvido: - Quero entregar-te o meu corpo. E eu acrescentei: - Pois sim. A chuva tornou-se densa. Eu ia todo encharcado. Por fim, chegámos; entrei... Um marinheiro descia Ajeitando a camisola E compondo os caracóis. Era uma casa vulgar Aonde o amor - Oculto a todos os Sóis Se dava e prostituía A troco da real mola. Arrependi-me. Blasfemei; Mas quando abandonei os teus braços Senti que tinha mais alma! E nunca mais te encontrei!
ANTÓNIO BOTTO, In. Canções [Livro Sexto - Ciúmes]