Acontece numa cadência anual, de ano a ano, imparável, como os ponteiros de um relógio a que não é necessário dar cordas nem mudar a pilha. E mais uma vez aproxima-se o dia em que o fatal ponteiro, como uma espada, atravessará aquele ponto que marca o completar de mais uma volta completa. E como sempre que esse fatídico momento se aproxima acontece, ando angustiado, deprimido, fatigado, triste, cansado, como um cordeiro que foge do lobo mas sabe que somente protela o inevitável. É o tombar de todo um conjunto de ilusões; que é como que diz, terás que desconstruir essa montanha de sonhos, fazer engenharias com as forças que ainda te restam, cumular as poucas esperanças, reenquadrar a interpretação do horizonte que à tua frente ainda se estende, e... E esperar, a ver o que dá! Como no título do livro do Altino do Tojal. Que metáfora melhor para a vida que uma Viagem a Ver o que Dá?
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era um tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o eco...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minha lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na louça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado -,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
ÁLVARO DE CAMPOS (15 de Outubro de 1929 [13 de Junho de 1930]), In. Poesias (Assírio & Alvim, Março de 2002, páginas 403-405)
*Título do Poema de Álvaro de Campos.

Não conhecia este poema de Álvaro de Campos (não sou um pessoano convicto), mas gostei muito.
ResponderEliminarE não te atrapalhes com a data fatal; se a recordas ou comemoras é porque estás vivo!
Abraço.
André
ResponderEliminarO dia de anos sempre me tocou muito. É uma espécie de dia introspectivo, em que quero tudo menos festas e estar com pessoas. Gosto de contemplar o mar, sair errante, mas estar fora. Dos outros e do mundo.
Quando vejo estas coisas de pessoas a darem parabens a si mesmas, como que envergonhadas, apenas para nao deixar passar o dia em que nasceram, revejo-me.
Por isso, acredita-me sincero, quero dar-te um abraço de PARABÉNS para que sejas, vivas e consigas o melhor possível.
Entretanto, o poema que escolheste, está simplesmente fabuloso.
Daniel Lobinho
Um grande abraço de parabéns!
ResponderEliminar:)
Olá Kapitão Kaus, obrigado!
ResponderEliminarP.S. Mas ainda não é o meu dia de anos... Está a aproximar-se, é só isso... Abraço
Olá Daniel, também gosto de passar esse dia longe de tudo... Mas, ainda não é hoje! Obrigado pelos parabéns de qualquer maneira... Dizem que dá azar! Mas eu não acredito... Abraço.
ResponderEliminarP.S. O Álvaro é sempre fabuloso!
Olá Pinguim! Isso não é admissível! ;-) Tenho que te «convictar»!!! Abraço
ResponderEliminarGostei imenso do teu texto mas ficou-me na memória "Que metáfora melhor para a vida que uma Viagem a Ver o que Dá?" , fantástico! ;)
ResponderEliminarO poema é muito expressivo.
ResponderEliminarQuanto ao aproximar da data, não penses muito nisso, e o relógio biológico. Viva a vida.
Abraço!
mas tu não és gémeos?
ResponderEliminarai, agora perdi-me!
já o Álvaro de Campos intimista é excelente. tão lúcido e certeiro que até magoa.
abraço
Paulo,
ResponderEliminar«mais uma vez aproxima-se o dia em que o fatal ponteiro, como uma espada, atravessará aquele ponto que marca o completar de mais uma volta completa.»
Ainda não fiz, não é hoje... está-se a aproximar...
Abraço
Olá Lampejo,
ResponderEliminarO estranho é que eu não penso; pelo menos a nível do consciente... Mas começo a ficar angustiado... E então já sei porque é...
Abraço
Olá F3lixP,
ResponderEliminarJulgo que é mesmo isso que a vida é... Uma viagem a ver o que dá... Quer dizer, o que dá, no fim, já sabemos... A ver que que vai dando...
Abraço.
P.S. Para quem acredita no além, a metáfora é talvez mais interessante... Eu, visto ser ateu...