vou chorar-
-te para
sempre, mas
já chorei
outros antes.
e também
as lágrimas
se acabaram.
Foi só um clarão amarelo no seu tornozelo. Ficou parado por um instante. Não gritou. Caiu de mansinho, como caem as árvores. Nem sequer fez barulho, por causa da areia.
Não é por esperares de alguma coisa especial deste livro em especial. És uma pessoa que por questão de princípios já não espera nada de nada. Há muitos, mais jovens que tu mas também menos jovens, que vivem na expectativa de experiências extraordinárias; dos livros, das pessoas, das viagens, dos acontecimentos, do que o dia de amanhã lhes reserva. Tu não. Tu sabes que o melhor que se pode esperar é evitar o pior. Foi esta a conclusão a que chegaste, tanto na vida pessoal como nas questões gerais e até mesmo mundiais. E com os livros? É isso, exactamente porque o excluíste em todos os outros campos, achas que é justo concederes-te ainda este prazer juvenil da expectativa num sector bem circunscrito como é o dos livros, onde as coisas te podem correr mal ou correr bem, mas o risco de decepção não é grave.
QUANDO o sétimo dia alvoreceu, Deus estava tão fatigado que não acordou. No outro lado da terra, onde era agora noite, o homem e a mulher tinham desistido de procriar. Os carneiros também estavam fatigados, embora por razão diferente, e tinham adormecido. Homem e mulher tremiam, agarrado um na outra. Foi quando tiveram a ideia de irem dormir para junto dos carneiros, aninhando-se na sua lã. E desde aí que se tornou mítica, esta ligação entre homens e carneiros. Ou ovelhas: para o caso, é indiferente!
A meio da tarde do sétimo dia, Deus acordou finalmente, depois de um sono regalado. – Abençoado seja este dia! – Exclamou, espreguiçando-se. – Isto é mesmo um paraíso! Como lhe hei-de chamar? – Os seres olharam-no, intrigados, pois não compreendiam o que dizia. Uma raposa espreitou, por detrás do tronco de uma figueira magricela, esticou a cabeça, e ergueu as orelhitas, tentando perceber o que é que o velho dizia. Quedou-se alguns segundos, a ver se Deus dizia mais alguma coisa, mas o velho parecia meditar, com um compenetrado ar de loucura e senilidade. Parecia que Deus ia falar novamente, quando uma galinha escanzelada passou a correr por ela, cacarejando desalmadamente (descrição nada rigorosa, pois nem Deus se tinha ainda lembrado de inventar as almas, nem nunca os animais a chegariam a possuir, assim nos ensinará a madre igreja – outro disparate que Deus ainda não criara). Deus moveu os seus lábios esotéricos, – terá falado? – mas a raposa não consegui ouvir nada, por causa do chinfrim que a desgraçada da galinha fez. Irritada, a raposa salteou-lhe ao pescoço, e acabou ali mesmo com as cantorias. Esta foi a primeira refeição das raposas. Deus esticou o seu dedo e, automaticamente, sem pensar no que fazia, criou outra galinha. Sorte a dela, estar a raposa refastelada, dormitando junto à entrada da sua toca, pois caso contrário, tinha-se acabado ali a espécie. Correu para o galo, que de imediato a galou, obedecendo ao divino repto reprodutivo, e garantindo deste modo a continuidade de animal tão estúpido, que nunca aprendeu a voar.