O parteiro acorre ao seu trabalho sem demora,
Vejo a mão pressionando, recebendo, sustendo,
Reclino-me nos umbrais das delicadas portas flexíveis,
E observo a saída, e observo o alívio e a libertação.
E quanto a ti, Cadáver, penso que és bom adubo mas isso não me ofende,
Aspiro o doce perfume das rosas brancas crescendo,
Toco as folhas como lábios, toco o peito lustroso dos melões.
E quanto a ti, Vida, reconheço que és o resíduo de muitas mortes,
(Não duvido que eu próprio já morri dez mil vezes).
Escuto o vosso murmúrio, oh estrelas do Céu,
Oh sóis, oh erva dos túmulos, oh perpétuas transferências e promoções,
Se não dizeis nada que poderei eu dizer?
Do turvo charco na floresta do Outono,
Da lua que desce os precipícios do crepúsculo sussurante,
Caí, centelhas do dia e do acaso, caí sobre as hastes negras que apodrecem no estrume,
Caí sobre o lamento incoerente dos ossos secos.
Levanto-me da lua, levanto-me da noite,
Percebo que a luz débil é o reflexo do meio-dia,
E desemboco no que é firme e central desde o rebento grande ou pequeno.
Walt Whitman (Song of Myself, tradução de José Agostinho Baptista).
*A este propósito podem ler André Moura e Cunha, Eduardo Pitta, Max Spencer-Dohner, Sara Cacao, ILGA (notícia Público), Special K, Pedro Vieira, Henrique Fialho, Miguel Abrantes, Paulo, TUSB, Gritos Mudos, Natcho Popcorn, etc...
Brilhante!!!!
ResponderEliminar"Portugal estava à beira do abismo. Agora deu um grande passo em frente!" - Também diz tudo, não diz?!... Abraço,
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