Há alguns anos sentara-me na esplanada de um café, com amigos franceses que passavam férias na terra de onde parte da sua família partira longos anos antes, e com a minha irmã. Era uma quente noite de Verão, daquelas em que aspiramos por uma piscina e se sente o cheiro seco da tórrida terra e da vegetação chamuscada pelos implacáveis raios de sol. Uma noite como outra qualquer. Acabáramos de chegar ao café, e em torno da mesa quadrada nos dispuséramos; todos os lados estavam assim ocupados, como se disséssemos a todos em volta «este é o nosso círculo, não queremos aqui mais ninguém». Fizemos o pedido, quatro bebidas - Coca-Colas? - talvez um Ice Tea também - que era o que a minha irmã costumava pedir. O rapazinho, filho dos donos do café, entrou aborrecido para dentro do estabelecimento, afastando as fitas de metal, e voltou momento depois, trazendo o que lhe pedíramos. Perguntei-lhe «quanto é?» Ele olhou-me, sem responder, angustiado. «Que tens?» perguntei-lhe. «Nada» respondeu. Mas enquanto me dizia «nada» os ombros encolheram-se. Quantas vezes as expressões e atitudes corporais dizem mais que as palavras? Mas eu ainda não compreendera. Quão insensíveis somos por vezes! Perguntei-lhe se também queria beber alguma coisa. Ele não respondeu; e depois de eu insistir lá abanou a cabeça em sinal de reprovação - dizia que não, ou reprovava a minha falta de tacto? Eu pousara a nota com que tencionava pagar sobre a mesa. Ele pegou nela e baixou-se, para me poder falar ao ouvido. «Eu não quero que me pagues nada, só quero que sejas meu amigo!» E desapareceu. Quando momentos depois voltou, com o troco e uma bebida para si mesmo, eu já percebera. Afastei-me e ele puxou uma cadeira, para se sentar a meu lado, no «nosso» circulo de amigos. Desde esse dia que trago esta frase encravada na garganta; talvez ele já não se recorde; provavelmente ele não sabe, mas - foi nesse instante que o chamei «amigo» pela primeira vez, sem no entanto dizer nenhuma palavra; a maioria das pessoas que me conhece talvez não compreenda porque é que trato um miúdo - agora adolescente - como um igual, afinal sou muito mais velho. Para mim é um dos mais valiosos amigos que encontrei na vida. Talvez o futuro nos separe, nos afaste, a vida nos conduza por caminhos muito distantes; mas no meu pensamento estará para sempre o seu sorriso; e quando me sentir só, hei-de lembrar-me que ele existe, e vou sorrir também.
*Desculpem lá este momento piegas, mas às vezes dá-me para isto; para me meter a pensar naquilo de bom que torna esta vida miserável numa coisa preciosa. Muitas pessoas que me conhecem «pessoalmente» saberão de imediato que ele é.
São situações como estas que fazem que a Amizade seja a coisa mais bela do mundo.
ResponderEliminarAbraço para ti e para ele.
Que bom é ter estes momentos piegas que de "piegas" não têm nada.
ResponderEliminarPara mim são momentos de partilha sinónimo "crescimento" interior.
Esta linda história não tem nada de piegas., a amizade nunca pode ser piegas.
ResponderEliminarUm abraço.
olá pinguim, a amizade é mesmo uma coisa muito bela. e eu adoro o meu "afilhado adoptivo" como lhe chamo. Abraço.
ResponderEliminarolá tongzhi; acho que são estes momentos que nos permitem vislumbrar a felicidade; ainda que apenas umas gotas, são estas pequenas gotas que saciam a nossa sede e nos permitem ter alguma alegria e esperança nesta vã existência... Abraço
ResponderEliminarolá special k, às vezes sou, sim, um pouco piegas - mas disfarço he he... Abraço.
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