sexta-feira, 14 de março de 2008

El Coronel no Tiene Quien le Escriba

O coronel destapou a caixa do café e verificou que não havia mais que uma colherinha. Tirou a panela do fogão, despejou metade da água no chão de terra, e com uma faca raspou o interior da caixa para dentro da panela até se soltarem as últimas raspas de pó de café misturadas com ferrugem da lata. Ao esperar que fervesse a infusão, sentado junto do fogareiro de barro numa atitude de confiada e inocente expectativa, o coronel teve a sensação de que lhe nasciam fungos e lírios venenosos nas tripas. Era Outubro. Uma manhã difícil de suportar, mesmo para um homem como ele que já sobrevivera a tantas manhãs como esta. Durante cinquenta e seis anos - desde que terminou a última guerra civil - o coronel não fizera outra coisa senão esperar. Outubro era uma das poucas coisas que chegavam.
Gabriel García Márquez, In. Ninguém Escreve ao Coronel * Primeiros dois parágrafos da pequena (em número de páginas) obra de Gabriel García Márquez. Obra publicada em 1961, seis anos antes de Cem Anos de Solidão.

8 comentários:

  1. julgo que foi a primeira obra. e é um excelente ensaio para as obras que se seguiram.

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  2. Também conheço bem e adoro esse pequeno grande texto.

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  3. Já li esta obra do García Márquez há uns anitos (aliás, nem sei muito bem onde pára, aqui por casa). É das obras dele de que mais gosto. Abraço!

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  4. Um autor a descobrir, com carácter de urgência...

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  5. Cem anos de solidão foi umas das minhas primeiras descobertas literárias, da chamada literatura adulta. Um post com memorias.
    abraço

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  6. olá fernando pessoa, a primeira obra foi "Revoada", em 1955... dizem que sim, que é um excelente ensaio, e que esta obra marca o início de um realismo fantástico muito marqueziano... para mim tenho esta obra como a melhor do Gabo. Gostos... abraço.

    olá mikael, são raros os textos do Gabriel é não sejam adoráveis... estão para lá da mera apreciação da "qualidade literária", seja lá isso o que for. abraço.

    olá rato do campo, também o meu exemplar desta obra andava perdido; aliás, no caos das minhas estantes, andam todos os livros perdidos... como dei com ele decidi postar aqui uma pequena amostra... abraço.

    olá pinguim. algumas vezes têm que ser ao contrário, não é? agora foi a minha vez de te aguçar o apetite a ti, eh eh. abraço.

    olá socrates. Cem anos de solidão será sempre uma referência, pela magnitude, imaginação e universalidade do texto... perde na simplicidade para outras obras do Gabriel, como esta ou "Crónica de uma Morte Anunciada", ou "De Amor e Outros Demónios"... abraço.

    Um grande abraço para todos.

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  7. Um dos meus livros preferidos. A escrita jornalística de GGM é aglutinadora. Sente-se o cheiro e a vibração dos ventos. Às vezes digo aqui no jornal que ele foi um dos melhores repórteres de sempre!

    Aquele abraço!

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  8. olá kokas,

    das obras do GGM, esta é a minha preferida. abraço.

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