quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

De Pessoas e Mais Coisas

*de Hugo Sampaio. Prefácio de Miguel Guedes (músico):
Entre a vontade que assoma ao receber, em mãos, o esboço final do que sabia ser quase»leitura intacta» e a responsabilidade que irrompe por poder conduzir o leitor à primeira página escrita, não há termo a meio. E não há responsabilidade pequena. Sem convite e sem traje, então, um pequeno apontamento à sedução. Porque há bem mais do que o respirar de quem habita o título deste livro de Hugo Sampaio. Há em «De Pessoas E mais Coisas» traços do quotidiano que não desarma, cenário capaz, que pinta a manta com o olhar de apreciação e desvelo. As notas transversais não são sinónimo nem reflexo de um quotidiano apático, amorfo e monótono, abraçado a sensações dégradé, indistinto. Antes de olhares de esguelha a franzir o sobrolho, humor sem pose. Temporadas de ironia com alçadas interiores que saltam para as palavras como o «peixe que acha que os peixes deveriam poder voar». Há na noite e no dia, no espaço e no tempo dos relógios omnipresentemente distorcidos, lugar para a reivindicação da legitimidade das flores sem cheiro. Há em tudo reacção, que a tudo responde. Estamos na zona de afectos que vê o irmão gémeo do arco-íris que nunca aparece, que personifica objectos à mão. Como se pintasse, ele, o quadro ainda por pintar, como se os pedaços de vida lhe caíssem entre os dedos, subtraindo as ideias na transição e na irregularidade das coisas que se avistam ao olhar. A medição não é tão geométrica como as molduras que o confinam, à luz do observador. Se, como escreve Christopher Langton, tudo o que acontece de interessante na vida ocorre na passagem de um estado para outro, bem-vindos à sublimação do físico: um x-acto questiona nome e apelido pela violência implícita, o relógio de bolso e as malas de viagem e as partes dos pneus que nunca tocam no chão propõem abrir sociedade pela aparente contradição da sua função e propósito que melhor associação do que entre as nuvens e as flores ou um cigarro mal apagado que - apesar de sentir que a chuva chega tarde para o poupar ao sofrimento - percorre o livro como um amigo? Ar. Há nesta escrita a vontade de quem não se basta com a hipótese, de quem não aceita um eu posso conhecê-lo, quando se impõe um eu tenho de o conhecer. Há, em «De Pessoas E mais Coisas», poucas palavras que se assemelhem aos cortes de uma faca mal afiada. E quando as há, se lidas em voz alta, também soam como o som «que nos guia se não conseguimos ver».

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