quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

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nessa altura bebíamos genebra sentados na mesa do canto do café mondego agora bebemos mescal não nos sentamos a não ser em cadeiras que atravessam o tempo pois o café mondego é hoje um banco qualquer nessa altura falávamos de poetas que só bebiam absinto abandonávamos os poetas à sua sorte à sua loucura agora passamos as noites a beber cerveja guiness apinhados contra o balcão de um bar de música jazz evitamos falar de poesia e de poetas loucos falamos de política e de corrupção contamos anedotas arrotamos baixinho escrevemos versos nas paredes do quarto de banho à primeira vista somos os mesmos
Américo Rodrigues, in CINCO Novos Poetas da Guarda (obra colectiva). Blog de Américo Rodrigues. *o poema é mesmo assim, sem título, mas eu tinha que meter o asterisco em algum lugar! para dizer que admiro e respeito muito quem beba genebra. ou tenha bebido. eu próprio bebi genebra, embora não me respeite nem me admire nada. nada me espanta. genebra é das piores bebidas que passaram pela minha garganta. e passaram muitas. muitas de qualidade duvidosa. quase não bebo desde os dezanove anos e meio. as bebidas são perniciosas em mim. perniciosa, substantivo feminino: febre palustre intermitente, de carácter muito grave, acompanhada de delírio e quase sempre mortal. têm dois efeitos em mim as bebidas. para além da embrieguez, esse não conta. primeiro, começo a falar de uma pessoa de quem não quero falar. tento resistir, mas não consigo não falar. segundo, não vou aqui revelar. portanto, deixei de beber, embora desafie qualquer um. tolerância ao alcoól é coisa que não me falta. excepto, nunca percebi porquê, ao vinho. é tiro e queda. ao meio litro começo a sentir um latejar no cérebro. ao litro, falo entaramelado, ao litro e meio digo o que não quero. depois disso é o desastre. cerveja, não sei qual é o meu limite. da última vez que estive quentinho já tinha bebido mais de uma grade e ainda aguentava com mais, pois ainda não tinha começado a falar do que não quero. a vantagem de um gajo ter uma grande dor, ou angústia, ou como lhe queiram chamar, é que sabe sempre quando é que chegou à red zone. é infalível, como a cicatriz na testa do potter. quando aquele cujo nome não deve ser pronunciado se aproxima, estamos perto do perigo. depois, voltando atrás, poucos acreditam nas minhas capacidades alcoólatras. nos últimos sete anos estive bêbedo uma única vez: dois litros e meio de vinho branco e meio litro de vinho tinto. ainda não passava da meia-noite e meia e já estava arrumado nas boxes. a dormir que nem um anjinho, como é uso dizer-se, estômago esvaziado e uma dor no lombo que só iria sentir nos dias segintes. poucos acreditam porque poucos sabem que aos treze e aos catorze anos me embebedava, que aos onze e doze já bebia, que aos quinze e dezasseis afogava as mágoas como gente grande, que aos dezassete e dezoito experimentei coisas que a maioria das pessoas nunca chega a experimentar, que aos dezanove tinha diversas faces, várias vidas duplas, e a certeza terrível e temível que por mais relações que tenhamos, mais firmes ou de circunstância, estamos sós. disto tudo me lembro sempre que penso em genebra, a pior bebida que passou pela minha garganta, perdoem-me os apreciadores dessa bebida. mas venha daí um whisky duplo sem gelo.

1 comentário:

  1. Já agora, diz-me... Achas que quando estamos com "os copos" dizemos o que queremos e fazemos o que o nosso íntimo deseja? Diz-se que se tem coragem para se fazer/dizer o que se quer!
    Quem não acordou um dia a dizer: "Eu não acredito que disse isto ou fiz aquilo"!! Depois pensas um pouco... Perante a tua análise, não há sentido nenhum para o que foi dito ou feito! Eu acho que beber um bocadinho solta-nos (e talvez sejamos um pouco mais verdadeiros) mas beber demais descontrola-nos e a partir daí... a partir daí obedece-se a quê? Para mim... A nada...!
    beijo amigo

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