Foi então que apareceu a raposa.
- Olá, bom dia! - disse a raposa.
- Olá, bom dia! - respondeu delicadamente o principezinho que se voltou mas não viu ninguém.
- Estou aqui - disse a voz - debaixo da macieira.
- Quem és tu? - perguntou o principezinho. - És bem bonita...
- Sou uma raposa - disse a raposa.
- Anda brincar comigo - pediu-lhe o principezinho. - Estou tão triste...
- Não posso ir brincar contigo - disse a raposa. - Não estou presa...
- Ah! Então, desculpa! - disse o principezinho.
Mas pôs-se a pensar, a pensar, e acabou por perguntar:
- O que é que "estar preso" quer dizer?
- Vê-se logo que não és de cá - disse a raposa. - De que é que tu andas à procura?
- Ando à procura dos homens - disse o principezinho. - O que é que "estar preso" quer dizer?
- Os homens têm espingardas e passam o tempo a caçar - disse a raposa. - É uma grande maçada! E também fazem criação de galinhas! Aliás, na minha opinião, é a única coisa interessante que eles têm. Andas à procura de galinhas?
(...)
A raposa calou-se e ficou a olhar durante muito tempo para o princpezinho.
- Por favor... Prende-me a ti! - acabou finalmente por dizer.
- Eu bem gostava - respondeu o principezinho - mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e uma data de coisas para conhecer...
- Só conhecemos as coisas que prendemos a nós - disse a raposa. - Os homens, agora, já não têm tempo para conhecer nada. Compram as coisas já feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não têm amigos. Se queres um amigo, prende-me a ti!
(...)
- Ai! - exclamou a raposa. - Ai que me vou pôr a chorar...
- A culpa é tua - disse o principezinho. - Eu bem não queria que te acontecesse mal nenhum, mas tu quisseste que eu te prendesse a mim...
Antoine de Saint-Exupéry, in O Principezinho (Editora Caravela, 17.ª edição, pp. 66-74 - capítulo XXI).
*Este excerto é para mim o conjunto de palavras mais deprimente da história da Literatura; não fosse as lágrimas terem-se-me secado há muito, choraria que nem um desalmado. Nunca nenhum livro, nem filme, nem música, nem poema - me levou às lágrimas. Apenas O Principezinho. É, das obras de que gosto, aquela que mais detesto. É dos únicos livros que reli; não uma, nem duas ou três... Simplesmente perdi-lhe a conta. Até que decidi que não o podia voltar a reler. De cada vez que lhe pego, detesto-o mais um bocadinho. Apetecia-me pegar n' O Principezinho e esmigalhá-lo - tanto à personagem como ao livro. O triste do meu livro - que me foi oferecido - já foi atirado contra tudo. Ainda agora estou a olhar para ele de viés e só me apetece queimá-lo. E não é por ter um final infeliz. É por me fazer lembrar das pessoas que passam por nós, que nos prendem - ao contrário da raposa, sem que lho peçamos - e que depois continuam o seu caminho como se nada fosse... Puta de vida!

Por muita razão que possas ter em relação a quem te cativa sem que o peças e depois faça tábua rasa disso, tens mais é que deixar que quem fica e não quem parte te seja importante. Ou, por outras palavras, não percas tempo (e sentimentos) com quem obviamente não perde o seu contigo.
ResponderEliminarUm conselho semi-anónimo ;)
um conselho aparentemente tão simples! Se fosse assim tão fácil: simplesmente não perder "tempo (e sentimentos) com quem obviamente não perde o seu contigo"... Mas como é difícil "esquecer" quem um dia nos cativou... É por estarmos "cativos" que não esquecemos... Enfim, já estou a perder o fio ao raciocínio... Abraço.
ResponderEliminarporquê semi-anónimo?
ResponderEliminarNunca ninguém disse que era fácil deixar de estar cativo, porque não é, de facto, coisa de se desligar carregando num botão. Mas há uma diferença entre reconhecer que se está cativo e o agir sem liberdade por força do cativeiro.
ResponderEliminarCabeça fria, portanto, conseguir tirar as devidas lições da experiência, fazer as contas e seguir lentamente em frente. Certamente que com recaídas, mas passo a passo deixa-se de estar cativo à medida que a distância - cronológica e sentimental - vai aumentado e apagando as coisas.
E semi-anónimo porque muito embora eu assine oscomentários, não nos conhecemos... acho.
sim, tens razão. numa e noutra questão. abraço.
ResponderEliminarP.S. De qualquer modo, detesto o principezinho... é uma relação de amor-ódio!
André
ResponderEliminaré incrível, mas eu assinava por baixo, TOTALMENTE, este teu texto.
só posso dizer-te obrigado.
Abraço.
Haja alguém que me entende! Obrigado eu. Abraço amigo Pinguim.
ResponderEliminarAbsolutamente, para não variar, fantástico!
ResponderEliminarComo eu compreendo.
obrigado ghost por mais uma fantasmagórica visita. que o espectro da tua passagem deixe muitas vezes rasto na caixa de comentários. abraço.
ResponderEliminarTambém eu concordo com o que escreveste. Obrigado por por em palavras o sentimento que o livro realmente desperta.
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