segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, vivia, não há muito, um fidalgo, dos de lança em cabido, adarga antiga, rocim fraco e galgo corredor. (...) Tinha em casa uma ama que passava dos quarenta, uma sobrinha que não chegava aos vinte, e um moço da poisada e da porta a fora, tanto para o trato do rocim, como para o da fazenda. Orçava na idade o nosso fidalgo pelos cinquenta anos. Era rijo de compleição, seco de carnes, enxuto de rosto, madrugador e amigo da caça. (...) É pois de saber que este fidalgo, nos intervalos que tinha de ócio (que eram os mais do ano) se dava a ler livros de cavalaria, com tanta feição e gosto, que se esqueceu quase de todo o exercício da caça, e até da administração dos seus bens; e a tanto chegou a sua curiosidade e desatino neste ponto, que vendeu muitas courelas de semeadura para comprar livros de cavalarias que ler; com o que juntou em casa quantos pôde apanhar daquele gánero. (...) Em suma, tanto naquelas leituras se enfrascou, que as noites se lhe passavam a ler desde o sol-posto até à alvorada, e os dias, desde o amanhecer até ao fim da tarde. E assim, do pouco dormir e do muito ler se lhe secou o cérebro, de maneira que chegou a perder o juízo.
Miguel de Cervantes, in. O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha. (Tradução dos viscondes de Castilho e de Azevedo) Imagem de Martina Schreiner, no seu blog, que merece ser visitado, e onde encontrarão muitos desenhos de grande beleza.

4 comentários:

  1. obrigada, andré!!
    é uma honra aparecer aqui, no meio dos teus textos tão lindos!
    :D
    beijos

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  2. Li pela primeira vez o Quixote nessa tradução. Agora estou a reler no original. É daquelas obras imperdíveis, que toda gente devia ler pelo menos uma vez na vida.

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  3. Olá Martina,

    Obrigado pelo teu comentário, beijinhos.

    Olá André,

    Também gostava de reler no original! Tenho que aprender castelhano urgentemente! Abraço.

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  4. Ah, a primeira vez que li, foi a tradução de Daniel Augusto Gonçalves e Arsénio Mota... Prefiro a dos Viscondes!...

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