Anos depois, quando saía da faculdade e ia para casa, parecia-me que sentia o cheiro e o som da liberdade – aquele cheiro a relva molhada e o chilrear dos pássaros. Sim! Os fins de tarde é que são a vida! O pôr-do-sol, sentado junto ao rio, só, observando as aves que procuram o seu galho para passar a noite, ou a chuva que cai sobre a minha cabeça e escorre por entre os poucos cabelos que ainda me restam, isto é liberdade! Isto é vida!
Ouvir o motor veloz dos carros passando sob o asfalto gasto ou o zumbido das conversas de café. O som cacofónico de uma discussão familiar. A mãe que puxa o garoto pela orelha com força e carinho. O pai que olha sério para a criança que não sabe se há-de rir se há-de chorar. Os autocarros que pegam e largam passageiros. Os semáforos que não cessam de mudar de cor. As montras das lojas que anunciam os novos descontos. A montra da livraria mostrando as novidades da rentrée. «Gostaria que estivesses aqui um dia comigo, para me veres cirandar pela cidade, qual barata tonta que deu de repente com a luz e que ofuscada anda de um lado para o outro aos encontrões!» Isto é vida!
Sim! Sou infeliz, mas dentro dessa infelicidade, sinto-me livre! E isso é uma sensação indescritível. Podem achar-me louco, como muitos me acham, mas às vezes levanto-me a meio da noite e vou beber um copo e fumar um cigarro a um bar daqueles que fecham mais tarde. Sento-me só a um canto. Bebo. Fumo. E volto para a minha cama fria. Ou fico a noite inteira a ler o último livro que comprei.
*Fotografia de Isabel Gomes da Silva, intitulada Até Amanhã.
Caríssimo, é forte o teu texto. A liberdade é realmente uma conquista diária fantástica. A infelicidade, efectivamente, não. Remember: não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe, certo?! Abraços
ResponderEliminarOH...
ResponderEliminarÉ um excerto descontextualizado de um romance de um tipo qualquer que usa o meu pseudónimo...
Abraços,
André Benjamim
Diz ao tipo que, se assim é, bem honra o teu nome :)))
ResponderEliminarAH...
ResponderEliminarSe o encontro nem sei o que lhe faço a esse usurpador de identidades...
Brincadeiras à parte, agradam-me os dois termos da equação: liberdade e infelicidade. Talvez a infelicidade seja outra, havendo liberdade... Acho que concordo!
ResponderEliminarAbraço! :-)
Olá RIC,
ResponderEliminarDigamos que é alguém (uma das personagem - e um dos narradores - do romance) a falar de uma infelicidade (tristeza) passada, que reside dentro de si; mas é uma infelicidade que é amenizada por ser livre (por fim)...
Daquelas tristezas que temos, não por as termos, mas por as termos tido...
Abraço
Ups. Ainda bem que me enganei! Há gente tão estranha a escrever coisas tão estranhas, a usar nomes que já existem e tudo. Lol.
ResponderEliminarÉ o que dá ter chegado tarde e não perceber nada deste mundo. Gracias pelo link.
É... Tipos esquisitos! De nada, pelo link.
ResponderEliminarAmigo André
ResponderEliminargostei muito deste texto; todos nós já passámos por situações semelhantes, em certos momentos da vida, mas a capacidade de recuperção é notável, no ser humano...
Abraço.
;)
ResponderEliminarOlá Amigo Pinguim,
ResponderEliminarÉ mesmo o que nos vale, a capacidade re recuperação, neste mundo...
Abraço
Olá Samuka
ResponderEliminar(¨)
Abraço.