sábado, 15 de setembro de 2007

Infância*

89, 5 anos de ser, inocente e despreocupada, a vida era boa, felicidade embrulhada em meio metro de altura, desperto e eufórico, corria vales e montes, os desafios travados eram pequenos saltos e correrias tresloucadas atrás de um pedaço de borracha redondo que teimava em fugir á frente de um pé fino e suave que se metia em trinta e uns todos os dias. Madrugadas eram o despertar para pequenas viagens em frente a um quadrado mágico que me punha a lutar lado a lado com heróis na busca do bem e justiça, noção padrão de bom comportamento. Vida de plasticina, rodeado de amigos imaginários que educavam e partilhavam histórias de morrer a rir, com aquele sorriso com baliza frontal que se criara com o fim da era do leite e torradas. Cada pulo dado dia a dia ajudava-me a chegar cada vez mais perto deste presente responsável e preocupado no qual volto a desejar a euforia e energia de outrora, no qual desejo a companhia dos antigos amigos imaginários para travar as batalhas contra os vilões modernos que já não lutam mais pelo bem ou mal, mas sim pela cor suja num papel, tal qual as borratadas que eu fazia e o mundo ignorava. Qual será a diferença? Porque é que o quadrado mágico já não tem a mesma magia que tinha, e agora só me mostra aventuras e histórias nas quais eu não quero entrar ou ouvir? Porque é que os cento e vinte centímetros a mais que me ajudam a chegar a sítios onde antes não conseguia chegar, não me fazem chegar a lado nenhum? Porque é que a inocência se transformou em hipocrisia e violência? Tantas perguntas sem respostas que hoje ninguém resolve, devolvam-me os trinta e uns supersónicos e a bola de borracha…Voltem a dar-me 89!
*Título do autor, o meu amigo TrËk. Fotografia de J. C., intitulada Kung Fu(miga).

2 comentários:

  1. Muito interessante, este texto.
    Obrigado pela partilha.
    Abraço.

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  2. Questionamentos universais numa cadência bem expressiva.

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