quarta-feira, 6 de junho de 2007

reposição*

No tempo do colégio, dizíamos
com crueldade, das freiras,
que caminhavam aos pares,
cabisbaixas, cochichando
que um amante as abandonara, ou
um noivo da terra as deixara
prostradas frente ao altar.

A euforia da vida latejava-nos
nos pulsos. Entrelaçada nas mãos
estava a inocência. Ainda
não tínhamos a grande dor
das desilusões, que viriam depois,
nem sabíamos das contradições, da vida.

Mas isso era no tempo
em que a vida não tinha
obstáculos. Em que a existência
caminhava, inconsciente e livre.
No tempo em que teríamos
uma casa confortável
nos subúrbios, e viveríamos
felizes para sempre, como
nas histórias de encantar

Não tínhamos, ainda, gozado
as experiências, ingénuas, do sexo
nem suportado, o tédio
as noites pejadas de desejo

Tínhamos a paz, de quem se deitava
e calmamente, adormecia
para quem, entre o deitar e o erguer havia
apenas o sonho. Porém, a vida se interpôs

Não tínhamos, ainda, vivido
o primeiro amor, aquele que
ansiosamente esperámos. Aquele que
desperdicámos. Aquele que
Para sempre, nos podia ter salvado.

*A pedido de um amigo. Havia sido publicado aqui.

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