sábado, 16 de junho de 2007

a personagem

Entretanto uma mesa vagou e pudemos sentarmo-nos. Foi quando apareceu aquela que foi sem dúvida a minha "personagem" preferida. Uma caricatura que se definia a si mesmo como "a antítese de mim mesmo", sem nunca explicar o que queria dizer com isso. Um homem sem expectativas. "Cada dia é um dia; e eu vivo cada dia de sua vez" - a sua máxima. Máxima que nunca se cansou de repetir. Era também a mais céptica de todas as pessoas que conheci. - Não acredito em nada! - repetia até à exaustão. - Deus não existe, a amizade é uma treta, o amor uma mentira e a família uma contingência. Estamos cada um por si, meus caros, não tenhamos ilusões! Calcorreava as ruas sem rumo. Por vezes parecia que ia parar e exclamar "encontrei!", mas nunca parou. Além de mais, como nos confirmava vezes sem conta: - Não procuro nada! Vivia a vida a ver o que dava. Fumava cigarros incessantes e bebia uns copos se ainda tinha dinheiro; o resto do mês passava-o em "contenção de custos". Nunca aceitou que lhe emprestassem dinheiro. Quando o víamos com um ar mais abatido sabíamos que era o aperto financeiro que o preocupava, e então organizávamos jantares em casa. -Não sei porque é que se preocupam comigo, acho que estou a ficar em dívida!... -ficava em silêncio alguns segundos. - Tenho que começar a declinar os vossos convites. Mas quando a fome apertava, esquecia a ameaça. Além de não acreditar em nada, nada lhe despertava interesse, a não ser no sentido em que odiava tudo: política, futebol, livros, mulheres, homens, crianças, velhos, operários, burgueses, capitalistas, brancos, pretos, chineses, americanos, europeus, cubanos, russos... - O que fazes na vida, afinal? - O mesmo que toda a gente: espero a morte!

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