quinta-feira, 24 de maio de 2007

A Falência do Prazer e do Amor

I. Beber a vida num trago, e nesse trago Todas as sensações que a vida dá Em todas as suas formas [...] .................................... ...................... Dantes eu queria Embeber-me nas árvores, nas flores, Sonhar nas rochas, mares, solidões. Hoje não, fujo dessa ideia louca: Tudo o que me aproxima do mistério Confrange-me de horror. Quero hoje apenas Sensações, muitas, muitas sensações, De tudo, de todos neste mundo - humanas, Não outras de delírios panteístas Mas sim perpétuos choques de prazer Mudando sempre Guardando forte a personalidade para sintetizá-la num sentir. ................................. Quero Afogar em bulício, em luz, em vozes, - Tumultuárias [cousas] usuais - O sentimento da desolação Que me enche e me avassala. ................................. Folgaria De encher num dia, [...] num trago, A medida dos vícios, inda mesmo Que fosse condenado eternamente - Loucura! - ao tal inferno, A um inferno real. (...) IV. Já não tenho alma. Dei-a à luz e ao ruído, Só sinto um vácuo imenso onde alma tive... Sou qualquer cousa de exterior apenas, Consciente apenas de já nada ser... Pertenço à estúrdia e à crápula da noite, Sou só delas, encontro-me disperso Por cada grito nêbedo, por cada Tom da luz no amplo bojo das botelhas. Participo da névoa luminosa Da orgia e da mentira do prazer. E uma febre e um vácuo que há em mim Confessa-me já morto... Palpo, em torno Da minha alma, os fragmentos do meu ser Com o hábito imortal de perscrutar-me. FERNANDO PESSOA, In. Fausto [Poema dramático que Fernando Pessoa não chegou a concluir, e de que existem diversos fragmentos]

Sem comentários:

Enviar um comentário

Deixe o seu comentário. Tentarei responder a todos. Obrigado