sábado, 19 de maio de 2007

A definição lusocêntrica da humanidade*

Descobrir grandes diferenças entre os povos não é um fácil trabalho, já que Deus nos criou a todos iguais. Mas alguém tem de fazê-lo e, mal por mal, mais vale que seja eu, que tenho a vantagem de discordar de mim próprio, mas de uma maneira aceitável e simpática. É quando se tem de explicar às criancinhas como são os suiços e os turcos que o cérebro mais se quer acossado de clarividência, simplismo e uma dose simpática de pura mentira e especulação. Esta semana, perguntou-me o meu sobrinho-neto - tenho para mim que não se é verdadeiramente homem até se ter um sobrinho-neto - o que era um «grego». Após algum desconforto e muita exegese escusada de Homero e Platão, lá me visitou a inspiração e pude responder de maneira a satisfazer a curiosidade do petiz. Mais do que isso, creio ter descoberto, no meio da minha estafada inocência, uma nóvel maneira de explicar os estrangeiros. No fundo, resume-se a uma linha: todos os estrangeiros são praticamente iguais aos portugueses, excepto numa ou outra característica exagerada, coitados. Um grego, por exemplo, é um português mal disposto. Podem depois juntar-se outras características - «que gosta excessivamente de beringelas», por exemplo - mas tenho por mim que é uma batota desnecessária. Na definição lusocêntrica perfeita, basta um adjectivo. (...) Um francês, por exemplo, é um português com a mania que é bom. Repare-se que também funciona ao contrário: um português, em larga medida, é um francês inseguro do valor dele. Um inglês é um português solitário. Um italiano é um português feliz. Assim se vê que o italiano é o contrário do grego, o que até é verdade. Seja como for, o protuguês está sempre no meio, que é como convém. De Agostinho da Silva roubo a definição do brasileiro - é um português à solta. (...) Um espanhol é um português orgulhoso. Que bate muitas palmas. Não, esta segunda parte já não está autorizada pelo regulamento. Façam de conta que não leram. Um japonês é um português tímido. Um argentino é um português que tem a mania que não é português. Um suiço é um português policial. Um alemão é um poruguês profundo. Repare-se de passagem, com admiração, como evitei de todo o epíteto «nazi». Um turco é um português violento. Um irlandês é um português simpatiquíssimo. Um belga é um português apátrida. Um australiano é um brasileiro inglês - não, esperem aí, já estou a fazer batota outra vez. Um australiano é, digamos, um português algarvio. Pensando bem, não vejo porque não se hão-de usar os povos regionais para obter uma definição mais rigorosa. Um neozelandês, por exemplo, é muito um beirão bem-educado e um mexicano é um alentejano sentimental. Um cubano é um italiano feliz - ou seja, um português duplamente bem disposto. (...) Deixarei aqui algumas nacionalidades para as quais ainda não obtive definições suficientemente redutoras, na esperança que algum leitor mais atilado e viajado me possa socorrer: chilenos; austríacos; angolanos; chineses; cabo-verdianos; holandeses; dinamarqueses; indianos; americanos... MIGUEL ESTEVES CARDOSO, In. A Minha Andorinha (Assírio & Alvim, Outubro de 2006) *Título do Autor.

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