sexta-feira, 6 de abril de 2007

a última entrevista de Louis-Ferdinand Céline

- Existe alguém que pessoalmente lhe interesse? - Olhe, agora já estou velho de mais...67 anos... Estou a chegar ao fim... Quando o comboio apita, você diz ao homenzinho: “Mas por que é que toma o comboio, temos aqui um calvário lindíssimo para ver, tem acolá uma igreja admirável, venha daí.” Bem, mas eu respondo: “Não, merda, o comboio está quase a chegar e vou tomá-lo, sentar-me, deixe-me em paz, vá você passear.” Ora, eu já estou a ouvir o comboio apitar, compreende? A minha posição é esta.Sabe, quando temos pela frente um louco, um maluco, ele reconhece-se por três coisas: não saber onde está, que horas são, em que país se encontra, a sua identidade. Bem, eu cá sei perfeitíssimamente quem sou, sei muito bem onde estou e que horas são. São coisas que eu sei muito bem, esse exame posso eu muito bem enfrentar, é o exame básico.Mas não espere que eu comece a matutar em coisas destas, lá isso não...- No entanto, e peço desculpa por usar uma palavra que lhe vai parecer inútil, ainda assim é um...- Sim, venha a grande palavra...- Desesperado!- Ah, de maneira nenhuma! Merda, que isso é mais outra história, esse desespero! Absolutamente nada! Seria preciso que eu esperasse qualquer coisa, e não espero nada, espero bater a bota o menos dolorosamente possível, como qualquer outro, e pronto! É exactamente e estritamente tudo... Que ninguém sofra muito por minha causa, por mim, à volta de mim. E depois morrer com tranquilidade, pois então, se possível morrer num ai, ou então acabar comigo, o que ainda seria mais simples. Vivo assim, nesta situação, não transporto comigo desejos de futuro, isso não existe! Não! Não! O futuro vai ser cada vez mais duro, já agora me custa mais trabalhar do que custava há uma ano, para o ano que vem será pior, e pronto! Normal! Excerto retirado do blog Macroscópio, onde podem ler a entrevista completa.
Elas, quando eu me enfurecia, não tiravam os olhos de mim. «Borra-botas» como eu era no ver delas, continha-me o mais possível! Punheteiro, intelectual, tímido e tudo. Mas agora para minha surpresa estavam com cagaço que eu me pisgasse. Se eu me pusesse ao largo, bem gostava de saber o que é que elas iriam engendrar? Sossega que a tia estava sempre a pensar nisso! Não era um sorriso, era um esgar que elas faziam mal eu falava vagamente em viagens...
LOUIS-FERDINAND CÉLINE, In. Morte a Crédito

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