segunda-feira, 23 de abril de 2007

dia mundial do livro #4

Mas também lho sugerira o livro que acabava de retirar da gaveta. Um livro particularmente belo, feito em papel macio, de cor creme, algo amarelecido pelo tempo, de um tipo que já não se fabricava havia pelo menos quarenta anos. Winston calculava, no entanto, que o livro seria muito mais antigo do que isso. Vira-o exposto na montra de uma poeirenta loja de velharias num bairro degradado da cidade (que bairro, ao certo, já não se lembrava) e sentira-se imediatamente tomado do desejo irresístivel de o possuir. Os membros do Partido não deviam frequentar as lojas normais (chamava-se a isso «negociar no mercado livre»), mas a regra não era rigorosamente observada, pois havia várias coisas, como atacadores e lâminas de barbear, impossíveis de obter senão assim. Deitara uma olhadela rápida a um e outro lado da rua, esgueirara-se para o interior da loja e comprara o livro por dois dólares e cinquenta. Nessa altura não tinha consciência de o querer para qualquer fim determinado. Levara-o para casa na pasta, como um criminoso. Esse objecto comprometedor, mesmo sem nada escrito. Winston preparava-se para começar um diário, o que não era ilegal (nada era ilegal, uma vez que já não havia leis). Mas, caso fosse detectado, não lhe restavam dúvidas de que seria punido com a morte, ou pelo menos com vinte e cinco anos num campo de trabalhos forçados.
GEORGE ORWELL, In. 1984

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