sexta-feira, 20 de abril de 2007

carta de Fernando Pessoa a Ofélia Queiroz*

Ofelinha:

Gostei muito da sua carta, e realmente não vejo que a fotografia de qualquer meliante, ainda que esse meliante seja o irmão gémeo que não tenho, forme motivo para agradecimento. Então uma sombra bêbada ocupa lugar nas lembranças?
Ao meu exílio, que sou eu mesmo, a sua carta chegou como uma alegria lá de casa, e sou eu que tenho que agradecer, pequenina.
Já agora uso a ocasião e peço-lhe desculpa de três cousas, que são a mesma cousa, e de que não tive a culpa. Por três vezes a encontrei e a não cumprimentei, porque a não vi bem ou, antes, a tempo. Uma vez foi já há muito, na Rua do Ouro e à noite; ia a Ofelinha com um rapaz que supus seu noivo, ou namorado, mas realmente não sei se era o que era justo que fosse. As duas outras vezes foram recentes, e no carro em que ambos seguíamos, no sentido que acaba na Estrela. Vi-a, uma das vezes, só de soslaio, e os desgraçados que usam óculos têm um soslaio imperfeito.
Outra cousa... Não, não é nada, boca doce...

Fernando


*Carta em resposta à publicada no post anterior; posterior ao lerem este blog. A edição que tenho em casa é a de bolso, da Europa-América, de 1986: Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas. Aconselho, no entanto, a quem queira ler (ou mesmo comprar) a edição da Assírio & Alvim (não sei o título).

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