domingo, 18 de março de 2007

os adolescentes

Os adolescentes são.
Os homens e as mulheres «devem ser».
Aqui reside a grande diferença.
Um adolescente está isento de todas as formas de afectação, é livre de todos os compromissos, pois a condição é efémera, exclusiva. Ele sabe que tem direito a tudo (embora tudo lhe seja recusado), e por isso ainda goza da possibilidade de tudo odiar. Os adolescentes não têm morada. Não amam; só conhecem a fúria e só sabem cantar. Um adolescente pode dar-se ao luxo de virar as costas à morte ou ao crepúsculo (termos provavelmente equivalentes). Impossível refreá-los, pois são belos e únicos. Um homem é a soma de velhos e novos vícios; nem ele próprio os consegue qualificar. Um homem é o trapo com o qual outro limpa o cu depois de evacuar os resíduos dos familiares mais próximos - os mais nutritivos. Um homem é o pesadelo de um sonho atribulado - ou, se quisermos defini-lo com estilo, é o cu que se serve do trapo ou a imagem grotesca que provoca esse pesadelo. Os adolescentes são livres porque nunca lhes interessou a liberdade; são felizes porque acham ridícula a própria palavra. São encantadores porque, quando se levantam, não correm a mirar-se ao espelho. Começam a irradiar com a aurora as suas estúrdias peculiares, sabendo nada mais existir à sua frente (...) E o gesto aristocrático de apalpar os testículos, o seu único e mais necessário tesouro.
REINALDO ARENAS, In. O Engenho

Sem comentários:

Enviar um comentário

Deixe o seu comentário. Tentarei responder a todos. Obrigado