segunda-feira, 5 de março de 2007

o meu grande português #7


(...) Vai Ricardo Reis aos jornais, vai aonde sempre terá de ir quem das coisas do mundo passado quiser saber, aqui no Bairro Alto onde o mundo passou, aqui onde deixou rasto do seu pé, pegadas, ramos partidos, folhas pisadas, letras, notícias, é o que do mundo resta, o outro resto é a parte de invenção necessária para que do dito mundo possa também ficar um rosto, um olhar, um sorriso, uma agonia, Causou dolorosa impressão nos círculos intelectuais a morte inesperada de Fernando Pessoa, o poeta do Orfeu, espírito admirável que cultivava não só a poesia em moldes originais, mas também a crítica inteligente, morreu anteontem em silêncio, como sempre viveu, mas como as letras em Portugal não sustentam ninguém, Fernando Pessoa empregou-se num escritório comercial, e, linhas adiante, junto do jazigo deixaram os seus amigos flores de saudade. Não diz mais este jornal, outro diz doutra maneira o mesmo, Fernando Pessoa, o poeta extraordinário da Mensagem, poema de exaltação nacionalista, dos mais belos que se têm escrito, foi ontem a enterrar, surpreendeu-o a morte num leito cristão do Hospital de S. Luís, no sábado à noite, na poesia não era só ele, Fernando Pessoa, ele era também Álvaro de Campos, e Alberto Caeiro, e Ricardo Reis, pronto, já cá faltava o erro, a desatenção, o escrever por ouvir dizer, quando muito bem sabemos, nós, que Ricardo Reis é sim este homem que está lendo o jornal com os próprios olhos abertos e vivos, médico, de quarenta e oito anos de idade, mais um que a idade de Fernando Pessoa quando lhe fecharam os olhos, esses sim, mortos, (...)

JOSÉ SARAMAGO, In O Ano da Morte de Ricardo Reis. José Saramago nasceu em 1922, em Azinhaga, a 16 de Novembro (embora só tenha sido registado dois dias depois, a 18). Romancista (O Memorial do Convento, Ensaio Sobre a Cegueira, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, etc), poeta (Os Poemas Possíveis), dramaturgo (Que Farei com este Livro?), tradutor (Ana Karenine, de Leo Tolstoi, por exemplo), cronista (A Bagagem do Viajante; crónicas escritas no diário A Capital e no semanário Jornal do Fundão),... A obra, original, diversificada, de uma lucidez acutilante, valeu-lhe, em 1998, o Prémio Nobel da Literatura.

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