sábado, 3 de março de 2007

o meu grande português #5





A Grande Sombra
(A Fernando Pessoa)

- O Mistério... Oh! Desde a infância esta obsessão me perturba - o seu encanto me esvai... No grande quarto onde eu dormia receava longas horas antes de adormecer, no ondular da luz indecisa da lamparina de azeite que deixavam sobre o toucador. Temia que as sombras de súbito transviassem, animando-se - e monstros, monstros de bruma, corressem sobre mim aos esgares, arrepanhando-me... Horas longes, porém, de medo infantil - só vos posso recordar em saudade. É que então, se sofria, a minha febre era já a cores - voluptuosidade arraiada também. E assim, quantas horas até, durante o dia, lasso dos brinquedos sempre iguais, eu ansiava a noite, sinuosamente, para latejar a ela os meus receios prateados...

MÁRIO de SÁ-CARNEIRO, In. Céu em Fogo

Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), poeta e romancista português, teve uma existência curta e atormentada, nasceu a 19 de Maio de 1890, em Lisboa, e suicidou-se a 26 de Abril de 1916, em Paris, tomando cinco frascos de arseniato de estricnina. Na sua curta vida teve, porém, tempo para deixar uma obra magnífica, escrevendo a peça teatral Amizade (em 1912, em colaboração com Tomás Cabreira Júnior), dois volumes de poesia (Dispersão, 1914 e Indícios de Oiro, 1916), dois volumes de Contos (Princípio, 1912, e Céu em Fogo, 1915), e a sua obra mais conhecida, a novela A Confissão de Lúcio (1914). Colaborou ainda na revista Orpheu, que financiou, com o dinheiro do pai. Dizem os biógrafos que terá sido o melhor amigo de Fernando Pessoa, com quem trocou uma imensa correspondência, nos períodos em que se "ausentou" em Paris. Apenas existem as cartas enviadas por Sá-Carneiro a Pessoa. As que Pessoa lhe enviou, à excepção de duas ou três, perderam-se aquando do suicídio de Sá-Carneiro.

P.S. As datas que constam neste post foram escritas de memória, podendo não estar correctas.

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