segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

2 Nem sequer podia Ouvir falar no teu nome. E se fixava o teu vulto, Irritava-me, sofria Por não poder insultar-te... Até que nos encontrámos! Choviscava, anoitecia. - Uma chuvinha Impertinente e gelada Como sorriso de ironia Numa boca desejada. Já não sei o que disseste; Nem me lembro do que eu disse... A chuva continuava. Atravessámos um jardim E à luz fosca Dum candeeiro, Segredaste ao meu ouvido: - Quero entregar-te o meu corpo. E eu acrescentei: - Pois sim. A chuva tornou-se densa. Eu ia todo encharcado. Por fim, chegámos; entrei... Um marinheiro descia Ajeitando a camisola E compondo os caracóis. Era uma casa vulgar Aonde o amor - Oculto a todos os Sóis Se dava e prostituía A troco da real mola. Arrependi-me. Blasfemei; Mas quando abandonei os teus braços Senti que tinha mais alma! E nunca mais te encontrei!
ANTÓNIO BOTTO, In. Canções [Livro Sexto - Ciúmes]

1 comentário:

  1. Poeta maldito, é um dos meis escritores de eleição, não só pelas "Cançoes", mas também pelos seus contos infantis.
    Há tempos fiz um post sobre ele.
    Abraço.

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