terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Falta uma semana e meia...

Enquanto não sai (finalmente) a edição do livro, fica mais um excerto:

«Que lhe fiz eu?» Questionava-me, emaranhando-me em complicados novelos de pensamentos difusos e desconexos, onde me perdia horas a fio, absorto, acabando por olvidar a ponta do longo cordão – e os caminhos que tecera para chegar às conclusões delirantes que jamais me satisfaziam. Alheado, eu definhava enquanto o mundo à minha volta prosperava. «Que posso fazer para a ter de volta?» Quando formulava esta questão, ela esbarrava nas recordações inevitáveis da ponta dos seus dedos brancos remexendo no tufo negro do meu cabelo, ou na lembrança voluptuosa dos seus lábios finos, de desenho minucioso, resistindo a ser beijados até ao último instante, em que se entregavam em cómicas capitulações. «Porquê?» Jamais encontrava resposta. Mas continuava a fazer a pergunta vezes e vezes sem conta, até se gastar, desaparecendo como uma névoa matinal. Por vezes dava murros e pontapés em tudo que se atravessava no meu caminho dominado por violentos ataques de fúria ou desespero, consoante o ponto de vista. Mas nunca conseguia passar além das rememorações sombrias das tardes quentes em que nos encontrávamos no velho banco do vasto jardim. Sentávamo-nos lado a lado em silêncio, como um casal para quem as palavras já não são necessárias. Ela encostava a sua cabeça no meu ombro, sussurrando a palavra mágica ao meu ouvido; deixava-a escorregar pelo meu peito, indo repousar no meu colo: sorria como uma criança traquina, provocando-me com a palavra doce e fugindo de seguida, antes que a beijasse. Adiava esse momento até ao último instante, até o meu desejo estar prestes a rebentar. E beijava-me. – Amo-te! – Dizia desprendida. – Como se se tivesse entregue para sempre e por completo – a palavra sedutora, invadindo-me de plena felicidade. – Vou ficar contigo – pausa prolongada – para sempre! – Como pode alguém molestar-nos a alma desta maneira? – Nada me importa!... Bastas-me tu! Vamos alimentarmo-nos de carícias, beber de longos beijos e comer os nossos sorrisos doces! – Onde fora ela buscar estas palavras, que me soavam bem como a poesia? Como pôde fazer-me isto? Como? Como é que pôde existir alguém tão reles, tão vil, tão mesquinho, tão desprezível...? «Meu deus, como?» Perguntava a mim mesmo, no auge do meu desespero. Sim! Foi culpa minha. Deixei-me seduzir e sofri as consequências. São as palavras sedutoras que ainda ecoam no meu cérebro envelhecido de cansaço. Foram as palavras sedutoras que turvaram a minha visão, impedindo-me de reparar nos sinais evidentes que à minha volta se riam da apaixonada inconsciência. Como pude pensar que eram singulares as palavras maquinais que ela repetia? Nos momentos que tomei como únicos, milhares de bocas beijavam-se e rediziam as mesmas frases feitas. Acima de tudo era revolta, era revolta aquilo que sentia. Revolta por me ter deixado seduzir e revolta por não poder fazer nada, porque não havia nada para fazer, para me deixar seduzir outra e outra vez, outra vez vezes sem conta...

In, "Os Cadernos Secretos de Sébastian" (no prelo)

Sem comentários:

Enviar um comentário

Deixe o seu comentário. Tentarei responder a todos. Obrigado