domingo, 20 de setembro de 2015

Os Cadernos Secretos de Sébastian. Entrevista a propósito do lançamento do romance.

Os Cadernos Secretos de Sébastian, Romance, André Benjamim, Capa
Capa da nova edição, de Setembro de 2015

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1 - Realidade e ficção no romance?

Não há tal coisa num romance. Num romance, a realidade é ficção, e a ficção é realidade – se assim não for, então não é de um romance que se trata. Portanto, seria igualmente verdade dizer que tudo é realidade, ou que tudo é ficção.
A realidade que possa existir por detrás da escrita, torna-se ficção ao ser transposta para um romance (ou qualquer outra forma de literatura, ou arte), pois está dependente das memórias, e da forma como são evocadas, dos significados que lhes são atribuídos, das ideias através das quais os narradores as exprimem. Por outro lado, a ficção torna-se realidade, ao ser intuída pelos leitores.
Se, ao ler-se um romance, não se acreditar que aquilo que se está a ler é realidade, então todo o prazer que a leitura, potencialmente, possa proporcionar, se esvai: não vale a pena continuar a leitura. E isto, julgo, é verdade para qualquer romance, seja uma história fantástica ou realista...
Em suma, acredito que é irrelevante para o leitor saber o que é realidade-realidade, e o que é realidade-ficção... Talvez, se fosse um romance histórico, isso fosse importante...
A existência uma nota introdutória, alertando para o facto que o romance é baseado em acontecimentos verídicos, tem apenas que ver com uma questão de honestidade e sinceridade, tanto para quem lê, como para o autor, e para aquelas pessoas em quem a narrativa se baseia...
Além destas, há muitas outras pessoas que, se lerem o livro, podem identificar alguns dos episódios relatados. Isto é mais tangível na narrativa do Sébastian, em que a narrativa é mais crua, que na narrativa do André, onde os factos estão mais diluídos e difusos; no entanto, também nesta haverá pessoas que podem afirmar: “É de mim que ele está a falar!”


2 - Motivação para escrever o romance?

Acredito que a Literatura deve ser comprometida com a realidade; deve servir para abrir novos horizontes, alargar os pontos de vista, estar na demanda da verdade. Como tal, o que me motiva para escrever, é principalmente a procura de novas perspectivas sobre a existência, nomeadamente, a forma como nos relacionamos em sociedade. Este romance é em grande parte uma reflexão sobre o modo como nos relacionamos uns com os outros, e com nós mesmos; sobre o modo como nos enganamos a nós próprios e aos outros... O que muitas vezes é quase natural, no sentido em que as trocas que estabelecemos uns com os outros estão sempre sujeitas ao equivoco... Há uma impossibilidade de comunicar, porque aquilo que para nós tem um significado, no Outro pode ter um significado completamente díspar...
Gosto dos romances que são como laboratórios sociais, onde se testam hipóteses sobre como seria, ou como será, o relacionamento entre os seres humanos, se certas variáveis estiverem presentes... Dentro deste modo de encarar a Literatura, há um escritor que actualmente me dá bastante prazer ler, o americano Michael Cunningham, pois cada livro/romance seu, me parece um laboratório social onde se fazem experiências...
Em resumo, gosto de escrever porque sinto que a Literatura pode mudar o estado das coisas, tem o poder de mudar o mundo, ainda que mude um pouco de cada vez...

3 - Individuo e sociedade dentro do romance?

O Individuo precisa da Sociedade para se completar enquanto ser humano. Somos um ser gregário, e a nossa vida só faz sentido se vivida num grupo... No entanto, a sociedade, em vez de proporcionar aos indivíduos instrumentos que lhe permitam completar-se, conhecer-se, definir-se enquanto ser humano, pressiona as pessoas a caminharem num determinado sentido... Penso que isso é incorrecto; cada individuo deve fazer o seu próprio caminho, em vez de ser pressionado a seguir numa determinada direcção... É neste sentido que digo que a sociedade deve proporcionar aos indivíduos os instrumentos, instrumentos que devem servir para que cada sujeito consiga fazer a sua própria caminhada, indo ao encontro da sua própria natureza. Ao acontecer o contrário, muitos indivíduos incorrem num suicídio da sua identidade... Ora, uma sociedade que conduz à destruição de parte dos seus elementos, é uma sociedade que se está a estrangular a si mesma, que se está a destruir... No romance, a sociedade é algo de que os indivíduos precisam, mas de que se vêm obrigados a afastar. Individuo e Sociedade estão sempre num jogo de aproximação–oposição e de identificação–diferenciação, o que, para que um individuo encontre as suas semelhanças com os outros, procurando simultaneamente as suas especificidades, até é bom que aconteça... É como deve acontecer...
Por outro lado, o romance fala também dos indivíduos que escolhem um caminho de fingimento, dissimulação... “Vítimas que se vergam perante o próprio carrasco” (“Detesto as vítimas que respeitam os carrascos”, in. Os Sequestrados de Altona), como os definiu Jean-Paul Sartre... E neste aspecto particular, o que o romance pergunta é: “Vale a pena escolher esse caminho?, se é como perder um combate, sem ter lutado...”

4 - As personagens no romance – a sua função e o que significam para ti?

O romance centra-se em torno de quatro personagens essenciais para a compreensão da sua mensagem: o André, o Sébastian, o Fábio, e a mulher por quem o André se apaixona, mas cujo nome nunca é dito.
A narrativa começa com o regresso do André a casa, onde anos depois havia de começar a escrever. Vai contar o seu reencontro com o Sébastian, que conhecera no colégio onde estudara, e as memórias que esse reeencontro despoletou. Mas são recordações algo vagas, difusas e desconexas. É pela voz do Sébastian que é narrado mais pormenorizadamente o último ano em que ambos estiveram no colégio, e se ficam a conhecer as verdadeiras razões que levaram a que dois grandes amigos se tivessem afastado, e acabassem por se separar. A mulher que o André ama (ou quer amar, para se poder iludir, para poder suportar a existência) e o Fábio, são duas personagens misteriosas que, por coragem ou cobardia, vontade ou medo, saíram das vidas do André e do Sébastian, respectivamente.
É sobre estas relações que o romance fala, o modo como influenciaram a vida uns dos outros, aquilo que aprenderam, o que perderam, o que queriam que tivesse sido diferente. Isso é o que o leitor pode descobrir, e aquilo a que o romance convida os leitores a reflectir...
Além destas personagens, há outras, secundárias e figurantes, que atravessam o romance: o pai e a mãe do André, as mulheres da vida do André (a Bárbara, e a Cristina), o Jaime, o Vitor, o António, o Joaquim, e outros, que foram colegas do André e do Sébastian no colégio, e muitas outras...

5 - O amor no romance?

O Amor é a ilusão que permite aos personagens suportar a existência. É o catalisador que lhes permite digerir a vida. São personagens que por motivos diversos deixaram de acreditar na vida... Sentem que só o Amor lhes devolverá algum sentido a tudo. Sabem que um dia tudo terminará; procuram o Amor como forma de se iludirem, como se ao amarem perdessem a consciência de tudo o resto. Porque ao terem perdido o Amor, perderam a inocência, isto é, ganharam a consciência de existir...

6 - Quanto tempo te tomou escrever o romance?

Após uma ideia inicial – que apenas incluía a narrativa do André – passaram dois meses, sem que começasse a transpor as ideias para o papel (grande parte do romance foi escrito à mão, principalmente aquilo que é narrado pelo André).
Depois, quando enfim ganhei disposição para começar a escrever, demorei seis meses, até ter, em linhas gerais, escrito tudo o que pretendia. Começei no início de Novembro de 2004, e terminei no final de Abril de 2006. No entanto, ainda demoraria mais cinco meses até dar por concluído o romance, depois de muitas revisões, muitas alterações, a eliminação de alguns capítulos, a fusão de outros, a ampliação de um deles (o primeiro), e ainda a inclusão do prólogo, que funciona como um romance dentro do próprio romance: é como quando um filme começa com a projecção de outro filme, que aparentemente nada tem que ver com o resto da história...
No início, há medida que ia avançando com as anotações do André, foi-se tornando evidente que o Sebastian tinha contado a sua própria história, pelo que não fazia sentido ser o André a contá-la; até porque o André a desconhecia. No entanto, o Sébastian apenas deixara fragmentos dispersos, em diversos cadernos e diários, de uma narrativa que nunca chegou a concluir. Assim, muito ficou por contar – terá que ser o leitor a imaginar o resto – ou foi aflorado pelo André... Porém, tal como todos aqueles que habitam o nosso espaço interior, também o verdadeiro Sébastian era diferente daquele que existia no André... Qual deles o verdadeiro, isso é impossível de determinar...

7 - Infância do autor.

Nasci a 22 de Maio de 1981, por volta das 10h30m, natural de uma pequena aldeia. Aí vivi até aos oito anos de idade, e foi na escola primária da terra que fiz a primeira e segunda classe. Tinha sete anos quando o meu pai morreu. Um ano depois fui para um colégio interno, nos arredores da Guarda.
Dos dois anos passados na minha terra natal, um facto ficou-me especialmente na memória: todos os domingos de manhã, depois da missa tinha catequese; era a Dona Margarida a minha catequista. Apesar de ser um bom aluno, e de ter feito a primeira e segunda classe sem qualquer dificuldade, nos dois anos que andei na catequese, chumbei! As lições de catequese eram um sacrifício, e perceber aquilo que a catequista tentava explicar, um objectivo impossível de alcançar: não acreditava em Deus, como de resto nunca viria a acreditar...
Tendo ido para o colégio interno, que por acaso era católico, quase me vi forçado a acreditar em Deus. Obviamente, podem mudar o nosso discurso, mas mudar o nosso pensamento é missão de outro calibre. No ano seguinte fiz a primeira comunhão, não por saber as lições (nunca soube os mandamentos, p.e.), mas porque a catequista arranjou maneira de nos fazer aprovar a todos pelo padre...
Daquilo que sou hoje, acredito que isto é tudo o que a minha infância teve de relevante. Não tenho qualquer nostalgia dessa época. No entanto, talvez porque tenho boa memória, ou porque tenho contas a ajustar, é um período (primeiros anos da adolescência incluídos) que guardo na memória com bastante clareza e pormenor.

8 - Pinhel, Guarda, Coimbra, Lisboa, Porto (O que te dizem aquelas cidades)?

Pinhel – é a cidade que consta no meu Bilhete de Identidade... O que nem sequer é verdade, já que nasci na maternidade da Guarda... No entanto, é uma cidade com a qual tenho algumas ligações afectivas. Uma cidade pequena do interior do País (cada vez menor, pelo menos em termos populacionais e, na minha opinião, cada vez mais sem soluções nem perspectivas – espero estar errado – mas torna-se cada vez mais evidente que está votada ao abandono...)

Guarda – tal como Coimbra – é uma cidade onde passei alguns anos da minha vida, onde deixei alguns amigos, muitos conhecidos, e que por vezes me traz uma certa nostalgia... Não sei se poderemos pertencer verdadeiramente a algum lugar. Há quem diga que não somos de nenhum lugar até que lá deixemos algum morto; há também quem afirme que somos do lugar onde estão as pessoas que amamos... Se se puder ser de algum lugar, estas duas cidades são aquelas que, para mim, estão mais próximas disso... Na Guarda fiz o secundário, em Coimbra o ensino superior. De uma forma reduzida, é isto que significam para mim...

Lisboa – É a cidade onde, indirectamente, estão sepultadas muitas das minhas memórias (mas nesta situação estão muitos outros locais do mundo). É a cidade de onde eram (e para onde voltaram) muitas das pessoas que conheci (e que talvez tenha amado). É uma das cidades onde gostaria de viver, e que gosto de visitar sempre que posso... Não há outra que tenha visitado tantas vezes...

Porto – apenas visitei o Porto uma vez (há muitos anos, numa viagem de estudo), e fui lá fazer a inspecção militar quando ainda era obrigatória – e que, felizmente, deixou de o ser...

9 - Desde quando escreves? Inícios.

12 ou 13 anos... É-me difícil determinar ao certo. É uma daquelas memórias que se fundiu na amálgama homogénea que é o passado, ao contrário de outras que ficam vincadas e dão a sensação de ficar cada dia mais límpidas...
A primeira vez que tentei escrever qualquer coisa – para além dos diários que aos onze anos comecei a escrever por causa de uma sugestão feita pelo professor de Português a todos os alunos, mas que destruía e reiniciava sempre que faltava um dia (uma entrada)... tinha-me convencido que se não escrevesse todos os dias, então tornavam-se inúteis – como dizia, a primeira vez que tentei escrever qualquer coisa, comecei a escrever uma história infantil de aventuras... devia ter umas 200 páginas pautadas, escritas à mão em folhas A4, com uma letra muito miudinha... Como ninguém quis ler, desfiz o molho de folhas em pedacinhos...
Mas era um processo muito complicado... tinha a impressão de estar sempre a utilizar as mesmas palavras, e raramente conseguia encontrar as palavras certas para dizer aquilo que pretendia... passava horas no dicionário... Foi então que decidi que tinha que ler muitos livros antes de tentar escrever fosse o que fosse... Considero que seja a única maneira de tornar possível o acto de escrever, no sentido literário; para escrever um livro é necessário que antes sejam lidos centenas deles...
Só muito mais tarde voltei a escrever... Ao longo dos anos (talvez nos últimos oito) foram ficando diversas ideias, apontadas em folhas soltas, projectos, primeiros capítulos... ainda tentei escrever contos, que é o género que mais prazer me dá ler, mas desisti... ou eram demasiado mórbidos ou demasiado fantasistas...

10 - Campo e Cidade?

As diferenças entre um e outra estão, hoje em dia, esbatidas. Virtualmente, estamos muito perto de ser uma aldeia global. Como as pessoas tem um acesso rápido (quase imediato) à informação, ao conhecimento, que é o que muda o mundo, as pessoas, os seus comportamentos, os seus modos de vida, são cada vez mais semelhantes num e noutro lugar.
Nos anos setenta, a informação de que o Homem pisara a Lua, pode não ter chegado a muitos lugares do mundo: Já me aconteceu o caso de uma idosa me dizer que estava a ficar completamente doido por lhe dizer que o Homem já tinha ido à Lua! Daqui a cinquenta anos qualquer idoso se lembrará do embate de dois aviões contra as torres gémeas! Isto na sociedade ocidental, porque noutras culturas não será tanto assim... Outrora, o contacto entre aqueles que viviam na Cidade e aqueles que viviam no campo, era muito reduzido, o que permitia que se observassem diferenças a todos os níveis, e citadinos e campesinos, estranhavam-se, admiravam-se, invejavam-se ou rejeitavam-se mutuamente. Hoje, essas diferenças esbateram-se. A informação chega tão depressa a um lugar como a outro. Há quem procure no Campo aquele lugar idílico, dos sonhos que, porém, nunca existiu. O Campo era, para quem não vivia nele, o éden terrestre. Pois tendemos a identificar o real com os sonhos, tentando situá-los num local, como se assim os pudéssemos tornar reais.

11 - Expectativas com a publicação do romance.

Espero que consiga levar aqueles que o lerem a reflectir, a colocar questões a si mesmos... independentemente de quais forem essas questões... Não quero dizer a ninguém o que está certo ou errado, nem quero dizer a ninguém: vão por este caminho. Isso seria completamente o oposto daquilo que defendo; contudo, estou consciente que a maioria das pessoas procura uma moral, “a moral da história”, como me disseram algumas pessoas que já leram o livro... Espero que a história não tenha nenhuma moral nesse sentido, mas que leve as pessoas a interrogarem-se, sobre o modo como se relacionam, consigo mesmas e com os outros, já que o romance fala essencialmente disso, de relações... E faz perguntas, não para dar respostas, mas para questionar a realidade, a verdade... que deve sempre ser questionada; não devemos aceitar as coisas passivamente... devemos ter uma atitude de continua interrogação... só assim poderemos evoluir um pouco...
Dito isto, espero que as pessoas gostem do romance, que a leitura lhes proporcione algum prazer, mas que lhes provoque um certo mal-estar, um mal-estar positivo, que as leve a mudar de atitude...

12 - Vida e morte.

Embora não acreditando em Deus, posso afirmar que ele existe, que está vivo. Ele existe na cabeça das pessoas, lugar onde verdadeiramente existe toda a realidade. Se as pessoas acreditam nele, à partida agem em função dele...
Todavia, se eliminarmos Deus da equação da vida, então tudo nos é permitido; assim sendo, como seria suportável a vida uns com os outros, se não houvesse nada que pudesse servir de referencial? É aí que entra em jogo a morte. A morte é a única lei da vida (embora seja impossível provar que todos morrêramos!). É a morte que dá sentido à vida. Se não morrêssemos, tudo nos seria permitido. Mas morremos, e como tal esse “tudo” não nos é permitido. Estamos limitados pela morte. É a morte que nos compele a dar um sentido à vida. A morte é o verdadeiro Deus. Não é por acaso que Deus e a Morte estão interrelacionados em todas as religiões. Há quem afirme que parte substancial da razão porque as pessoas tendem a acreditar em algo sobrenatural, é libertarem-se da angústia de saber que um dia vão morrer. Não concordo com isso; no dia-a-dia, as pessoas não andam no meio da rua a pensar “vou morrer, vou morrer”. As pessoas acreditam em algo, para que a sua vida faça sentido, aqui e agora. E o que está por detrás disso é a morte. Se não morrêssemos não precisávamos, por exemplo, de comer, não precisávamos de trabalhar, podíamos adiar tudo, eternamente. Assim, a morte é a lei que orienta a vida. Dêem-lhe o nome que quiserem... A vida é o aqui e o agora.

13 - O que admiras; o que detestas?

Admiro as pessoas que têm coragem para persistir nas suas ideias, mesmo que o resto do mundo diga o contrário; admiro as pessoas que não desistem, que lutam por aquilo que querem (respeitando os outros); admiro as pessoas que conseguem admitir que estão erradas, admiro todos aqueles que contribuem para que o mundo seja melhor, cientistas, professores, artistas, filósofos, e todos os trabalhadores que no dia-a-dia fazem o mundo mover-se. Admiro o Álvaro de Campos, e uma bela tarde de sol sem nada que fazer...
Detesto aquelas pessoas que assobiam para o lado, e passam como se não fosse nada com elas, como se por não prestarem atenção, as coisas deixassem de existir... Detesto aquelas pessoas que passam por cima de tudo e de todos, como se os outros não tivessem opinião, sentimentos ou valor... Detesto as pessoas que se julgam acima dos outros, e detesto os dias em que chove, e quando o Benfica perde...

14 - Autores preferidos ou admirados?

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos, em especial), Mário de Sá-Carneiro (“A Confissão de Lúcio”), Yukio Mishima (“O Tumulto das Ondas”, “Confissões de uma Máscara”), José Saramago (“O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “Ensaio sobre a Cegueira”), Franz Kafka, Jean-Paul Sarte, Albert Camus, Boris Vian e Lewis Carroll (autores non-sense), Sophia de Mello Breyner Andresen, Michael Cunningham, Luigi Pirandello (“Um, Ninguém e Cem Mil”), Eça de Queirós (“A Reliquia”, “O Crime do Padre Amaro”), Antoinne de Saint Exupéry (“O Principezinho”), Vergilio Ferreira (“manhã submersa”), os contos de Oscar Wilde, Italo Calvino, “Dom Casmurro” Machado de Assis, Henry Miller, os contos de Edgar Allan Pöe, Miguel Torga, Mark Twain, Pablo Neruda, Pier Paolo Pasolini, Mario Cesariny (exceptuando “O Virgem Negra”), Louis-Ferdinand Céline (“Morte a Crédito”), George Orwell, Gabriel Garcia Marquez, Jorge Amado, Mario Vargas Llosa, Rubem Fonseca, João Ubaldo Ribeiro, José Rentes de Carvalho.... E esqueço-me de muitos... nem sei já os que disse ou se repito...

15 - Mensagem para o público que assistirá à apresentação.

Espero que a leitura do romance vos proporcione momentos de prazer, mas que também vos leve a colocar questões, a pensar sobre aquilo de que o romance trata: as relações, o modo como nos relacionamos uns com os outros, e a forma como essas relações nos afectam... A literatura, entre tantas possibilidades, ilumina aquilo que é obscuro, traz para as claras aquilo que muitos querem esconder, coloca questões dificeís, mostra pontos de vista diversos...
Enfim, parafraseando Edward Morgan Forster, saiam das profundezas dos pensamentos que não compreendem e estendam-nos ao sol para sabermos o que significam... [In, Um Quarto com Vista]

16 - O que é ser homossexual no romance?

Por um lado é uma questão de liberdade e autenticidade, mas também um grande peso (porque a liberdade é um enorme peso, pois é muito mais fácil quando tudo está definido, quando não temos que tomar decisões e fazer escolhas) – o peso da culpa inculcada no personagem Sébastian. Esta é uma culpa de que ele se liberta (não por completo, e apenas interiormente, nunca chegando a libertar-se da culpa social, da imagem pública). No caso do personagem Fábio, é uma culpa que aparentemente não tem, mas a que provavelmente terá sucumbido por completo (o romance é propositadamente omisso quanto a isso).
Fazendo uso de uma frase dita pela pessoa em quem a personagem Fabio se baseia, “Cada um pode ser aquilo que quiser, desde que os outros não saibam”; o que o romance tenta dizer/demonstrar, é que cada um deve ser o que é, independentemente daquilo que os outros pensam. Chegar a este ponto, é um longo percurso de definição da própria identidade; é um percurso feito na base do existencialismo.
Também na narrativa do André, o conflito entre individuo e sociedade, é este da autenticidade: André, em vez de ser quem é, tenta ser aquilo que pensa que a mulher que ama quer que ele seja.

No romance, a posição do narrador (e que é também a do autor), é que, independentemente de considerações científicas, de tradições culturais, de orientações políticas ou preceitos religiosos, etc, o valor mais alto é o da liberdade (que implica igualdade). É a liberdade de qualquer pessoa viver a sua vida como quiser, com quem quiser; e para isso é necessário que o individuo seja autêntico e sincero para consigo próprio e para com os outros; e significa também que a sociedade deve promover essa possibilidade para todos os seus membros, independentemente da orientação sexual.
Outra questão abordada na narrativa do Sebastian, é a do casamento homossexual. É hoje uma questão de tempo, até que esta problemática surja de modo efectivo na sociedade portuguesa – é uma urgência civilizacional! Um país dito moderno, civilizado, cientifico e laico, não se pode dar ao luxo de discriminar parte dos seus cidadãos.
Em termos individuais, um individuo não pode desperdiçar a sua vida com mentiras. Socialmente, uma sociedade não pode promover a destruição de parte de si. Quanto à questão religiosa, as supostas leis do outro mundo não podem reger a vida neste; num estado laico, nenhuma moral religiosa deveria influenciar a moral do estado; e um estado que se deixa influenciar por uma moral religiosa é um mau estado, um estado sem moral.
Quem diz que o tema do casamento homossexual é uma tema fracturante para a sociedade portuguesa ou é estúpido ou é mentiroso. A única fractura que existe na sociedade portuguesa neste âmbito é a fractura de haver duas classes de cidadãos; e enquanto esta questão não for resolvida, essa fractura continuará a existir. Quanto àqueles que se afligem com a liberdade dos outros, só há uma atitude a ter para com eles, ajudá-los a ser livres: porque quem não consegue conviver com a liberdade dos outros é porque ele próprio não é livre... vive prisioneiro de medos, preconceitos, estigmas, etc...

17 - Amizade.

A amizade é o mais importante das relações que nos unem aos outros, apesar da importância relativa que lhe damos, e do plano geralmente secundário em que a colocamos nas nossas vidas. Mais que não seja, grande parte das relações que estabelecemos são de amizade. É aos amigos que recorremos quando família e amor falham. Tanto em número, como em tempo, a amizade é a relação que mais nos ocupa. Por isso, como o pai do André diz, é a relação que mais potencial tem para nos fazer deixar de acreditar nas pessoas; mas é também a relação que mais potencial tem para nos fazer voltar a acreditar. Pessoalmente, não tenho dúvidas que os amigos são a coisa mais importante da vida...

18 - Família.

O paradigma do que é (ou deve ser) uma família, na sociedade ocidental, está em crise. Não por haver uma falta de valores; cada cultura e cada época tem os seus valores, mas porque a família, à semelhança de outras instituições, não acompanhou as evoluções/ transformações que ocorreram na sociedade. Deixou de responder às necessidades e expectativas dos indivíduos. A família era um agregado com papéis definidos, mais ou menos rígidos, em que cada elemento era ensinado a desempenhar a sua função. Acontece que esses papéis sofreram alterações, e são hoje muito mais dinâmicos. A emancipação feminina (e também a emancipação dos jovens) é uma das causas destas alterações. O papel da mulher tem (felizmente) sofrido alterações muito grandes, na busca de uma igualdade efectiva, e também o papel dos jovens. Curiosamente, em ambos os casos, existem movimentos paradoxais: Os jovens, como as mulheres, deixaram de ser um elemento passivo, que apenas corresponde aos ensejos do chefe de família, e a sua opinião passou a contar. No entanto, aos jovens, esta emancipação, em vez de os libertar, tornou-os mais dependentes, fazendo com que fiquem em casa até muito mais tarde. E às mulheres deixou-as, em muitos casos, na situação ingrata de se ter libertado (teve acesso ao mercado de trabalho, aos cargos de decisão, ao controlo da sua sexualidade – nomeadamente em termos de planeamento familiar), mas em muitos casos continuam presas (são elas que continuam a cuidar da casa e a tratar dos filhos). Em ambos os casos há que lutar por maior autonomia e igualdade. Não podemos pensar que agora está tudo bem, a igualdade e a liberdade são valores que têm que se melhorar continuamente.
Para além destas alterações intrínsecas, no papel dos elementos da família, tem acontecido alterações na própria estrutura familiar, sem que a sociedade se tenha adaptado à nova realidade: a definição do que é uma família deixou de ser consensual. Se antes havia uma separação rígida entre o que era uma família e o que não era, hoje a noção de família está muito mais permeável. Há pessoas a viver em união de facto, há filhos de uniões anteriores, há casais homossexuais, com ou sem filhos, de um ou ambos ou elementos, há casais divorciados, com os filhos a viverem entre diversas casas, etc...
Com todas estas alterações, há que adaptar a própria noção legal do que é uma família, de modo a alargá-la a uma constelação muito diversa, em constante mutação, mais dinâmica e fluída... O número 1 do artigo 36º da Constituição da República Portuguesa diz: “Todos têm o direito de constituir família e de contrair casamento em condições de plena igualdade.”.... O foco de definição do que é uma família tem que se desprender dos laços consanguinários, e lançar-se sobre os laços afectivos.

19 - O tradicional e o moderno.

A tradição é muito bonita quando se resume àquilo que deve ser: folclórica! Não pode prender as nossas vidas, não devemos deixar que seja um elemento perturbador da evolução, do desenvolvimento, dos avanços da humanidade. Temos que saber separar entre aquilo que foi bom e aquilo que foi mau, aproveitando e melhorando o bom, e retirar daquilo que foi mau as devidas lições. Não quer isto dizer que devamos apagar seja o que for da tradição. Temos que recordar do mesmo modo o bom e o mau. Para que o bom seja melhor, e o mau não se repita. A longa história que temos, e a tradição a ela associada, deve ser preservada; mas não podemos permitir que se passe em branco sobre episódios menos felizes. É obrigação daquilo que é moderno recordar a tradição. A memória colectiva não pode esquecer os erros que foram cometidos, nem pode deitar fora aquilo que nos permitiu evoluir.
Um dos papéis inestimáveis da Literatura é fazer luz sobre os acontecimentos que tiveram história na nossa cultura, para que nunca possam ser apagados.

20 - Sexualidade versus Sensualidade.

Sexualidade e sensualidade andam de braço dado, ora aproximando-se, ora afastando-se. Elas são diferentes manifestações do mesmo desejo; contudo, a sensualidade permanece menos poluída por convenções sociais – isto é, não está agrilhoada por uma série de condicionamentos e, como tal, ao contrário da sexualidade, manifesta-se de forma mais pura, mais natural, mais límpida. Diz mais da nossa natureza sexual que a própria sexualidade, que deveria ser algo tão natural como outra qualquer necessidade, mas que está contaminada por elementos que lhe são estranhos, fruto de uma cultura que durante séculos a recalcou, a colocou num plano inferior, a chegou a perseguir impiedosamente, a condenou – como ainda hoje acontece em muitas culturas. Na cultura ocidental, a sexualidade ressurge, renasce no ser humano, embora tenha um longo caminho a percorrer, até que volte a ter a sua força, o lugar que era o seu, mas que lhe foi ignominiosamente roubado...

21 - Sonho versus Realidade.

O sonho funciona como uma porta de comunicação directa, entre o Eu e os fantasmas, medos, desejos e arquétipos. É uma forma de expressão de realidades que ignoramos – ou negamos –, pela dificuldade que temos em aceitá-las. Mas o sonho é críptico. A sua mensagem pode rapidamente ser mal-interpretada, o seu significado deturpado. Porque o sonho é um misto de temor e desejo, por aquilo que queremos muito, mas temos mais medo ainda de alcançar. Como, no caso do André, que quer muito entrar no quarto dos pais, mas cujo medo de o fazer é ainda maior que o desejo. Para chegar à verdade que está por detrás dos medos que simultaneamente o impelem e o impedem de realizar um acto aparentemente tão simples quanto abrir uma porta, este conflito, entre medo e desejo, tem que ser resolvido. E tantas vezes desejamos alguma coisa com tanto ardor, mas temos medo de ir atrás dela... O sonho acaba por funcionar como um elemento mediador, que negoceia entre medos e desejos, tentando alcançar um equilíbrio que leve o individuo a agir.

22 - Elementos autobiográficos.

Os elementos autobiográficos são poucos, em oposição aos elementos biográficos, que são bastantes; isto é, os elementos verídicos presentes neste romance são essencialmente heterobiográficos, e baseiam-se em experiências de pessoas que me são muito queridas. Quanto aos elementos autobiográficos, eles são grandemente de cariz intelectual, ou seja, estão mais a nível das convicções, das ideias. Este romance é aquilo que eu penso relativamente às questões abordadas. No entanto, alguns pormenores biográficos são facilmente identificáveis, como o facto de ter estado num colégio interno... Quem são as pessoas reais por detrás das personagens? Esse talvez seja o elemento que mais curiosidade suscitará; deixarei que a essa curiosidade alimente o interesse nesta narrativa, mas não adiantarei nada sobre esse assunto, pois se o não faço no próprio romance, também o não vou fazer agora.

23 - Liberdade, felicidade e cultura para o escritor André Benjamim.

Liberdade é o valor mais precioso para o escritor André Benjamim. Aquele que mais urge preservar, cultivar, e engrandecer. A vida não faz qualquer sentido sem liberdade. Na sociedade ocidental, onde a liberdade é uma bandeira das democracias, esta corre, no entanto, perigo. Que liberdade pode subsistir em sociedades onde as desigualdades económicas aumentam a cada dia? Onde há pessoas sem acesso a cuidados de saúde? Onde milhares de crianças e jovens frequentam os diversos níveis de ensino com grandes dificuldades e carências, levando a que muitos deles abandonem os estudos? A escravatura foi abolida? Que dizer de uma sociedade que criou milhares de pessoas encarceradas em créditos até ao final da vida, dependentes de salários miseráveis, ameaçadas pelo desemprego? Não é isto tudo outra forma de esclavagismo? A liberdade é um valor precioso, que tem que ser cuidado, preservado e promovido, a todos os níveis: a nível económico (combatendo as diferenças abismais entre ricos e pobres, e as relações de dependência que se originam), a nível social (promovendo mecanismos que proporcionem maior autonomia dos jovens, combatendo todo o tipo de descriminação, nomeadamente contra grupos minoritários, efectivando a igualdade entre homens e mulheres), a nível cultural (dando a todos os cidadãos os meios necessários para uma acesso universal à educação e à cultura).
A felicidade é algo que só pode haver, existindo liberdade. A felicidade é, pode dizer-se, o objectivo final, a última etapa no caminho da liberdade. E a cultura é o instrumento necessário para que todos procurem, cultivem e preservem a liberdade.

24 - A escrita é um castigo, um prémio ou uma recompensa?

A escrita é um prazer; não tão constante como ler, mas da mesma grandeza. Nem um castigo, nem um prémio, nem uma recompensa, um prazer apenas...

25– Como pode ser mal-entendido o romance? Qual seria uma má leitura do livro?

Se alguém achar que o amor, a amizade, as relações com os outros, não valem a pena, será mal-entendido, apesar de nesse aspecto um tanto ou quanto negro. Tenta levar as pessoas a fazer determinadas perguntas; a questionarem-se sobre o modo como se relacionam umas com os outras. Partindo de duas histórias diferentes, com um lado negativo bastante premente, o romance tenta dizer às pessoas que o que acontece é resultado das suas acções, do modo como se tratam umas às outras.

26 - A aventura de viver Vs. A aventura de escrever

Escrever tem uma vantagem sobre viver; enquanto escrevemos, vivemos também, e somos deuses. Somos nós quem controla tudo: pensamentos, acções, atitudes, etc... Na escrita há, de facto, destino. Na vida, com maior ou menor dificuldade, temos o poder (e o dever) de controlar as nossas vidas; na escrita, as personagens estão absolutamente dependentes de nós... Embora por vezes reclamem, digam que não faz sentido, e algumas vezes consigam mesmo aquilo que querem...

27 - Escrita: inspiração ou trabalho?

Disposição. Uma constelação de factores, como motivação, intenção, e meios: um bom dicionário dá sempre jeito, e um computador ou papel e caneta são essenciais. A inspiração, virá do trabalho. Pode-se ter uma “inspiração”, uma ideia inicial, mas transpô-la para o papel exige trabalho. Depois, a verdadeira inspiração, é aquela que há-de aparecer. Às vezes, depois de muitas tentativas, encontrar a conjugação de palavras certa, que expresse uma ideia qualquer, que não se sabe bem como dizer... Essa grande “inspiração”, mítica, de que sempre se fala, pode por vezes ser um enorme diamante em bruto, mas se não houve inspiração a poli-lo (que é a pequena inspiração que vem do trabalho), não valerá de nada...

28 - Educar para quê? Curar a mente para que? Educação, Psicologia, Psiquiatria.

Educar é uma palavra que não me agrada nada. Há pessoas muito bem educadas, que sabem sempre como se comportar, que têm sempre as frases certas para dizer, que mantém a postura correcta em qualquer situação, mas são do mais mal-formado que existe; como se fossem deuses, e estivessem acima dos outros, acham-se no direito (se calhar até no dever), de passar por cima de tudo e de todos. Formar, julgo que é mais adequado. Dar às pessoas os instrumentos, abrir-lhes os horizontes. A educação é moralista e paternalista. A formação é colocar-se lado a lado. Educar é colocar-se numa situação de superioridade; é dizer, eu sou bom, olha para mim, é assim que tu deves fazer, deves imitar-me, e talvez um dia chegues a ser tão bom quanto eu. Pelo contrário, formar, é dizer às pessoas, isto é o que tu precisas de saber para poderes progredir, para te poderes superar. Vivemos numa sociedade que estimula a competição, no sentido de nos superiorizarmos uns relativamente aos outros. Isso só origina vencedores e falhados, ricos e pobres, inseridos e ostracizados. Para evoluirmos devemos estimular cada individuo a dar o melhor de si, isto é, superiorizar-se a si mesmo; para que dessa maneira, todos saiam vencedores, todos fiquem a ganhar...

29 - Família e vocação literária

Praticamente todos os livros que tenho em casa foram comprados por mim mesmo. O meu pai tinha a primeira classe; a minha tem a quarta. A Literatura foi algo que sempre me estimulou, desde romances juvenis a romances existencialistas, desde a poesia à filosofia grega. Não acho que a minha família tenha alguma coisa que ver com o meu gosto por Literatura; pode ser que sim; mas não vejo como...

30 - Lutar contra quê?

Lutar contra?... Não, lutar por, a favor de... A favor de uma sociedade mais justa, mais livre, a favor de pessoas mais autênticas, mais elas-mesmas, mais felizes. De resto, que cada um que passe bem com os seus preconceitos, com os seus medos; desde que não ceda à tentação de se achar no direito de limitar a vida dos outros...

31 - Ter esperança em quê?

Não há grandes esperanças nesta sociedade; mas enquanto não vier a bomba bacteriológica de que fala o José Saramago, há que não baixar os braços. Se se puder levar uma pessoa a melhorar-se a si mesma, então há alguma esperança...
Acredito que só o conhecimento nos pode redimir. Paradoxalmente, o conhecimento que tanto tem melhorado a qualidade de vida, tem-nos levado cada vez mais próximo da dizimização. Não é por acaso que a metáfora do pecado original, uma tradição da cultura judaico-cristã, está relacionada com o conhecimento. O fruto proibido, que acabou transformado numa maçã, é o fruto da árvore do conhecimento. Onde nos levará o conhecimento? Corresponderá aos nossos ensejos de um mundo melhor, ou destuirá-nos? Isso é imprevisível... Reside na nossa única esperança o maior perigo de todos. Está nas nossas mãos. O que faremos? Não sei...

32 - Humor e ironia no romance?

Já o escrevi à muito tempo, e depois que o dei por concluído, não quero voltar a lê-lo. Está escrito, que faça o seu percurso. Agora é com ele. É provável que, amiúde, esses sejam alguns dos recursos estilísticos utilizados... Sinceramente, não me lembro. Ironia, julgo que há bastante. Já humor... Talvez humor negro...

33 - Descrever tudo ou sugerir?

Depende do efeito que se pretende criar no leitor. Sugerir algo ao leitor leva-o a imaginar uma infinidade de possibilidades, enquanto que descrever tudo, lhe limita a imaginação. Sugerir pode levá-lo a imaginar algo relacionado com as próprias experiências, ou com as suas próprias ideias sobre aquilo que se está a narrar, o que leva a uma maior identificação, empatia com a leitura. Noutros leitores, o facto de apenas se sugerir, pode criar alguma frustração...

34 - Pornografia ou erotismo?

Tenho dúvidas acerca do que é ou não é pornografia. Se se descreve uma sala, um ambiente, um objecto, um estado de espírito, etc., ao pormenor, até ao ínfimo detalhe, porque não fazer o mesmo com o sexo? Afinal, o que é que o sexo tem que se não possa descrever com o à-vontade com que se descreve outra coisa qualquer? Um texto é pornográfico, ou quem o lê é que está pejado de preconceitos?, uma culpa miudinha, como a de uma criança que pensa que não pode fazer algo, mas que no instante antes de o fazer, já sabe que o vai fazer... e o coração começa a bater mais depressa...
São as palavras utilizadas que estão carregadas de significados conotativos? As palavras, a literatura, o sexo, não têm responsabilidade e, portanto, não têm culpa, do sentido pejorativo, nefasto, que lhe atribuem. Quem ache o sexo nojento, que haja com a habitual pudicícia de quem deseja muito algo, mas acha que não deve fazer... Que espreite, com olhar enrubescido, por entre as frestas dos dedos conveniente abertos, e convenientemente tapando os olhos: é que não é para não ver, é para que os outros não vejam que vê... A quem tiver pejo de descrições mais ousadas, aconselho a leitura de “Opus Pisturum”, de Henry Miller, ficará certamente vacinado contra esse mal!
Considero que um texto deve usar as descrições necessárias para transmitir a ideia que se propõe. Se for sexo, que se façam as descrições necessárias... Será pornográfico a partir do momento em que passar do limite do necessário, e entrar na fronteira da mera exploração do tema.
Pessoalmente, prefiro o erotismo, de maneira a levar o leitor a usar a sua própria imaginação; enquanto modo de sugestão, tem um maior potencial de aproximação à sensibilidade de cada leitor. Contudo, o uso de descrições pornográficas é tão natural como qualquer outra descrição.

35 - Rio versus Mar.

Prefiro o rio, calmo, tranquilo, incessantemente a correr, aparentemente pequeno e sem grande importância, mas que pode transportar para o mar aquilo que o mar contém. Um rio pode parecer inútil e significante, mas pode mudar o mar, que é o gigante...

36 - Noite versus Dia; Dormir.

Gosto da noite e dos fins de tarde soalheiros. Há muitos anos que tenho dificuldades a dormir (como o André e o Sébastian!). Por isso quando acordo, o meu cérebro ainda está meio a dormir, demora até que comece a trabalhar plenamente, e só quando a noite chega está no seu máximo; por isso quando a hora de dormir chega, o meu cérebro ainda está no seu auge; é um ciclo, como o cérebro está no seu máximo, não consigo adormecer e, assim, no dia seguinte, ao acordar, o cérebro está perro...

37 - Ser escritor em Pinhel.

Um escritor é-o em qualquer local do mundo, basta ter um papel e uma caneta; pode ter um papel interventivo na sociedade, seja na sua comunidade local, seja no país, no mundo... Mas a Literatura é muito vasta. A obrigação de intervir social, cultural, ou politicamente, não é, à partida, maior para um escritor, que para outro cidadão. No entanto, qualquer escritor deve estar consciente do poder das palavras, e dos efeitos que elas podem provocar nas pessoas que as lêem. Se puder escrever textos que possam mudar a vida das pessoas, tanto melhor. Isto não quer dizer que um escritor tenha obrigação de reflectir sobre uma dada realidade. Um romance de aventuras pode ser tão importante para ajudar uma pessoa, como um romance existencialista ou neo-realista, que reflicta sobre a existência individual, ou a realidade social de uma comunidade. Enquanto escritor em Pinhel, tenho um novo projecto sobre uma realidade que me foi dado observar na região. Tenciono escrever uma pequena novela sobre o assunto, que prefiro não revelar, por agora...


38 - Pinhel: o bom e o mau.

Um dia definiram-me Pinhel como a cidade onde aquilo que acontece numa ponta se sabe na ponta oposta meia-hora antes... Pinhel é uma cidade pequena, onde as pessoas acabam por se conhecer todas umas às outras (não quer isto dizer que se falem, se conheçam formalmente); e como ocorre sempre que este fenómeno acontece, as pessoas quase se sentem no dever de comentar a vida alheia...
Como é uma cidade pequena, muitas pessoas vivem prisioneiras do contacto muito próximo com as outras; isto é, embora o Homem seja um ser gregário, que precisa muito da figura do Outro, para partilhar, comparar, aprender, identificar-se, precisa, porém, de um espaço só seu (um espaço físico, psicológico e social), onde cada individuo se possa encontrar a si mesmo. Em Pinhel há pessoas que vivem como reféns umas das outras... Ou seja, reféns de si mesmas, por causa daquilo que os outros têm de nós, e que nós rejeitamos: rejeitamos nos outros aquilo que não queremos em nós...
Passa-se, portanto, o contrário daquilo que acontece nos grandes centros urbanos...
O Bom e o Mau são conceitos interrelacionados e interdependentes; não existem um sem o outro. Pinhel é uma cidade pequena, onde as pessoas se conhecem, uma cidade pacata e afável, sem problemas de tráfego, nem de criminalidade... Pinhel é uma cidade demasiado pequena, onde se confunde “conhecer” com “proximidade”, uma cidade demasiado pacata, quase a parar (ou se calhar já estacionou), com poucos recursos económicos, cada dia com menos soluções, sem grandes industrias, e com a ameaça de perder vários serviços...

39 - Ser Português, ser Europeu, ser do mundo.

Portugal vive à sombra de uma história mais mística que real, menos grande que cruel, vive à sombra dos fundos da Europa, lentamente apercebendo-se que não basta ter uma cultura rica e um passado grandioso, tem que merecê-los. Vai ficando para trás, impotente, sem capacidade de tomar decisões, esperando pelos puxões de orelha da União Europeia para reagir. No contexto europeu, um país com coragem há muito teria resolvido a questão do aborto, não precisaria de andar a brincar aos referendos, há muito discutiria questões como o casamento homossexual, teria um programa de educação sexual decente, etc...
Mas há males que não são apenas portugueses, são-no antes europeus. A Europa tem que ter coragem para dizer claramente quais são os seus valores; tem que dizer claramente que quer a liberdade e a igualdade, e que isso são valores inquestionáveis; não pode estar com medo no mundo, com um discurso interno periclitante, e um discurso externo difuso. Tem que se definir claramente, para claramente poder definir o seu papel no mundo. Se for fraca na defesa dos seus valores, o resto do mundo só a pode olhar com desconfiança. Como pode o mundo olhar-nos com respeito, se nós não nos respeitamos a nós próprios? Não temos o direito de impôr ao resto do mundo os nossos valores, mas temos que ser intransigentes na defesa dos mesmos; não podemos admitir a violação dos direitos humanos, em nenhuma guerra, nem em nenhuma prisão, em nenhum país, nem em nenhuma casa... Não podemos relativizar os atropelamentos que se fazem aos direitos das mulheres, das crianças, de diferentes etnias, religiões, ou orientação sexual. Temos que ser fortes no reprovar de tais actos, ainda que não possamos intervir directamente, temos que ser fortes no tomar de posição.


40 - Escrever; pintar; música; religião; ciência; matemática; drogas; filantropia: caminhos paralelos?

Um ponto têm em comum, são diferentes modos de suportar a existência, de lhe dar um sentido, de encontrar respostas para perguntas que podem até nem ter resposta; são maneiras diversas de busca da verdade. Quem somos? O que fazemos aqui? O que é certo, o que é errado? Como podemos melhorar? Quais os nossos limites?
São também formas de suportar o facto de não haver respostas. Permitem-nos continuar na busca dessas respostas, ou simplesmente parar de as procurar, agarrados ao dogmatismo ou ao pragmatismo...

41 - Loucura, realidade, drogas...

Onde acaba a realidade e começa a loucura? O que é normal? O que é natural? Embora muitos teimem em dar respostas, a verdade é que são perguntas a que ninguém pode dar resposta. O que somos decorre da realidade que nos rodeia, a realidade é produto do que somos? Influenciamos, modificamos, alteramos a realidade, e a realidade influencia-nos, modifica-nos, altera-nos... Nesta relação bidireccional, como podemos dizer aquilo que vai numa direcção, e aquilo que vem na outra?
Não há resposta para estas perguntas, há uma busca da verdade, uma curiosidade, uma sede de conhecimento, que nos move. Estamo-nos a aproximar ou a afastar das respostas... Para aqueles a quem chamamos loucos, os seus pensamentos, ideias, actos, etc, são loucura? Não, são a sua realidade. Como podemos dizer que a nossa realidade é que está certa? Não podemos...
As drogas permitem-nos lidar tão bem (ou tão mal) com a realidade e com a loucura... E qual das duas a mais dura?

42 - Solidariedade.

Cada um de nós é único, diferente de todos os outros, mas todos os outros têm algo de nós. Quando somos solidários com os outros, é também connosco que o somos. Sempre que um ser humano perece, fenece parte de nós. É a nossa própria humanidade que é posta em causa. Como se pode passar por um moribundo e olhar para o ar? Quanto de nós foi já destruído, para que consigamos ser tão frios e tão cruéis?

43 - tradição antes da modernidade - modernidade - tradição na modernidade - ultra-modernidade.

O modernismo veio colocar tudo em causa, relativizar as verdades feitas, buscar a essência dos indivíduos; procurar a sua unicidade, a sua identidade. A tradição dá-nos respostas, ensina-nos o que fazer, tem o conhecimento, a moral, os valores, de gerações e gerações; porém, coloca-nos a todos nos mesmos freios. O modernismo veio libertar os indivíduos, dizer que cada um de nós é livre, é único, pode escolher o seu caminho.
Aos indivíduos, o modernismo, veio dizer que da tradição, devem retirar aquilo que vai de acordo com a sua identidade, mas que não somos nós que nos temos que adaptar à tradição, é a tradição que deve ser adaptada por nós.
Não há nada de ultramoderno; na concepção do modernismo a busca de novos valores, de novas respostas, de novas concepções sobre a vida, é incessante... como uma máquina que não pára, nem pode parar; que constrói e se vai re-construindo...

44 - Cultura e Natureza.

A Natureza criou-nos e nós alterámos, modificámos, transformámos a Natureza. Criamos. E isso é Cultura. Contudo, é a natureza que nos inspira. Continua-mos a olhá-la maravilhados, a estudá-la, a tentar compreender o que ainda não foi compreendido. Com um pouco de sorte, talvez consigamos compreendê-la antes de a ter destruído...


Pinhel, Outubro de 2006

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