domingo, 18 de abril de 2010

DA LIBERDADE (II)

Outra consequência dos momentos que vivemos pode ser mais medo? Acho que sim. Se há uma escala, onde cabe o receio, o medo, o terror, acho que hoje já se vive muito com receio de perder o emprego, a casa, de perder um amigo, de ser incomodado, de se despedir...

Do que se diz? Sim, sim, sim, sim! E sinto que as pessoas dizem mesmo que é preciso prudência no que se diz, no que se faz, porque temem represálias. Há duas ou três décadas havia menos receio, havia mais esperança.

Sente-se feliz? Sou simultaneamente feliz e insatisfeito. Só os adolescentes acham que não há contradições na vida. Nunca posso ser inteiramente uma coisa.

E livre? Tento ser. Nunca se consegue sempre. A minha obsessão quotidiana é a liberdade individual, não depender de ninguém.


Excertos da entrevista a António Barreto, realizada por Sílvia de Oliveira e Filipe Paiva Cardoso, publicada no jornal i

sexta-feira, 16 de abril de 2010

DA LIBERDADE

Pelo correio chegam convites de diversos quadrantes, para «participar» nas celebrações do «Dia da Liberdade», o dia 25 de Abril que se aproxima. Palavras esvaziadas pela monótona repetição serão proferidas uma vez mais, referindo as conquistas daquele dia, uma conquista de todos os dias. Enfeitadas por içares da bandeira, música de bandas filarmónicas, guardas de honra de militares, polícias, ou bombeiros. Com resignado estoicismo, os «populares» assistirão enfastiados, no local ou pela televisão. Ou simplesmente irão ignorar: o feriado este ano coincide com um Domingo. No dia seguinte a vida prossegue: o desemprego ou o trabalho mal remunerado, em condições cada vez mais perto do esclavagismo. O medo, as pressões, a ameaça. Com o desemprego, a pobreza, a fome. Iludidos pela promessa de Liberdade, demos crédito a uma pequena corja de indivíduos, eis os juros que nos cobram. Meus senhores, e minhas senhoras, até quando vamos pagar?

quarta-feira, 14 de abril de 2010

EU TENHO UM ESTUDO MELHOR QUE O TEU - MAS NÃO MOSTRO, NÃO MOSTRO, NHA, NHA, NHA

E quando um tipo, tipo eu mesmo, pensa que já ouviu tudo, mas mesmo tudo, em dez anos perdidos da vida, obrigado a ouvir todas as católicas barbaridades, vem um tipo, tipo mesmo tipo, tipo muitos adjectivos que nem sequer constam em muitos dicionários, dicionários onde se inclui jargão, alguns dirão, dicionários ordinários, eu digo, dicionários extraordinários, sem pejo nem receio de ser brejeiro. Dizia eu, vem um tipo, tipinho, que nem tem estatura nem altura nem coisa que o valha, que aquilo não serve para nada, ou talvez para enfeitar, talvez para mijar, vem um tipo. Toma lá! Ouve mais uma barbaridade, que é para que saibas que da madre igreja nunca terás ouvido tudo. Ou, se calhar, ouvi barbaridades como esta - durante dez anos - e tão habituados estavam os meus ouvidos, que deixavam passar dum lado ao outro com tal rapidez que nem reparava.

O José Bértolo diz tudo:

Corajoso, Marquinhos disse (a voz tremeliquenta): «Pai, tenho algo a dizer-te... Eu sei que não vais gostar, e eu juro que tentei lutar contra isto, eu juro, mas pai... pai, eu... eu não consegui! Pai, eu sou pedófilo!». O pai respondeu, exasperado, em súbita e inesperada agressividade: «O quê? O meu próprio filho? Pedófilo? Por Deus, não!» Marquinhos acobardou-se, mas não cedeu à vontade de tentar reparar o feito: «Sim, pai, eu sinto-me sexualmente atraído por indivíduos do mesmo sexo!» O pai chorava lágrimas de dor. Tinham-se passado poucos segundos, quando uma lâmpada amarela surgiu sobre a cabeça do pai. Disse: «Mas espera lá, tu não podes ser pedófilo. Tu tens 14 anos!» Confundiu-se o pobre Marquinhos, e prostrado ficou, sem reacção, mas por fim compreendeu tudo: o pai estava em negação. Mas nada o faria parar, Marquinhos assumira, perante si e perante o mundo, quem era. A perspectiva de uma nova vida, livre e da cor do arco-íris, edificava-se então à sua frente. (José Bértolo, in Tio Vânia)

terça-feira, 13 de abril de 2010

rascunho encontrado num caderno abandonado #83

um momento.

houve um momento. um momento em que ainda podias parar. um segundo em que já é tarde demais. um instante em que podias. depois é tarde demais. houve um momento em que todos poderíamos ter sido. depois morremos. um instante em que tínhamos. depois perdemos. um sonho. adormecemos. acordámos. demos uma volta na cama. um movimento brusco. um salto. um sobressalto. uma dor. um aperto no peito. uma lágrima. onde poderíamos ter ido. houve um momento. um instante em que poderíamos ter sido tudo. depois acordámos. nascemos. e a vida é tudo o que nos resta.


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segunda-feira, 12 de abril de 2010

NEM TODAS AS INIQUIDADES SERÃO PERDOADAS!

Abri os olhos. Para que fechá-los, se não podia dormir? As mesmas trevas reinavam em torno, a mesma insondável e negra eternidade, contra a qual o espírito se revoltava, incapaz de assimilá-la. A que poderia compará-la? Fiz os mais desesperados esforços para achar uma palavra bastante negra a meu gosto, que designasse aquela escuridão; palavra tão pavorosamente negra que me enegrecesse a boca, ao ser pronunciada. Santo Deus! Que escuridão! Eis-me de novo a pensar no porto, em navios, em monstros negros à espera. Iam aspirar-me, engolir-me, reter-me como prisioneiro, e navegar, levando-me através de mares e terras, através de reinos sombrios, jamais vistos por alguém. Estou a bordo; sou atirado à água; pairo entre nuvens; vou descendo, descendo... Solto um grito rouco, de angústia, e agarro-me à cama. Fizera uma perigosa viagem, degringolando pelos ares como um pacote. Que sentimento de salvação, ao apalpar o catre duro! "É assim que a gente morre - pensei comigo - e tu vais morrer." Fico um instante a reflectir: vou morrer. Sento-me na cama e pergunto severamente: "Quem disse que vou morrer? Fui eu que achei a palavra, tenho pleno direito de decidir o que deve significar." Senti que delirava; senti-o antes que acabasse de falar. Era um delírio feito de fraqueza e de esgotamento, porém não perdera a consciência. De repente, uma ideia varou-me o cérebro, a ideia de que enlouquecera. Tomado de pavor, saltei da cama, fui cambaleando até à porta, e tentei abri-la arremessei-me duas ou três vezes contra ela, para arrombá-la; mordi os dedos, chorei, praguejei...


Knut Hamsun, in Fome (tradução de Carlos Drummond de Andrade).