segunda-feira, 12 de abril de 2010

NEM TODAS AS INIQUIDADES SERÃO PERDOADAS!

Abri os olhos. Para que fechá-los, se não podia dormir? As mesmas trevas reinavam em torno, a mesma insondável e negra eternidade, contra a qual o espírito se revoltava, incapaz de assimilá-la. A que poderia compará-la? Fiz os mais desesperados esforços para achar uma palavra bastante negra a meu gosto, que designasse aquela escuridão; palavra tão pavorosamente negra que me enegrecesse a boca, ao ser pronunciada. Santo Deus! Que escuridão! Eis-me de novo a pensar no porto, em navios, em monstros negros à espera. Iam aspirar-me, engolir-me, reter-me como prisioneiro, e navegar, levando-me através de mares e terras, através de reinos sombrios, jamais vistos por alguém. Estou a bordo; sou atirado à água; pairo entre nuvens; vou descendo, descendo... Solto um grito rouco, de angústia, e agarro-me à cama. Fizera uma perigosa viagem, degringolando pelos ares como um pacote. Que sentimento de salvação, ao apalpar o catre duro! "É assim que a gente morre - pensei comigo - e tu vais morrer." Fico um instante a reflectir: vou morrer. Sento-me na cama e pergunto severamente: "Quem disse que vou morrer? Fui eu que achei a palavra, tenho pleno direito de decidir o que deve significar." Senti que delirava; senti-o antes que acabasse de falar. Era um delírio feito de fraqueza e de esgotamento, porém não perdera a consciência. De repente, uma ideia varou-me o cérebro, a ideia de que enlouquecera. Tomado de pavor, saltei da cama, fui cambaleando até à porta, e tentei abri-la arremessei-me duas ou três vezes contra ela, para arrombá-la; mordi os dedos, chorei, praguejei...


Knut Hamsun, in Fome (tradução de Carlos Drummond de Andrade).

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