sexta-feira, 12 de março de 2010

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO*

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


*Poema de Carlos Drummond de Andrade

Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

4 comentários:

  1. Este brasileiro é um senhor poeta e será sempre bem vindo, onde quer que apareça...

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  2. Camile, não é o primeiro brasileiro. Assim de repente, lembro-me de aqui colocar textos da Cecília Meireles e do Manuel Bandeira (falando de poesia). Beijo

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  3. Lamentavelmente não tenho livro nenhum do Drummond, embora já tenha lido em biblioteca e na net. Abraço, pinguim.

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