segunda-feira, 22 de março de 2010

LONDRES, DIA MUNDIAL DA POESIA (QUE FOI ONTEM - QUE É HOJE, QUE É SEMPRE), e OUTRAS COISAS


Tem este tipo que deixa por aqui rabiscos de rascunhos de textos a haver viagem marcada com destino a Londres no próximo dia 21 de Agosto de 2010, com retorno a 29 do mesmo mês. E se nenhuma força maior vier contrariar a sua vontade de embarcar no voo com destino à capital do império de Sua Majestade, a Rainha - para além do seu medo de aviões - ah, eu nunca vos confessei esta paranóia? - por lá andarei, sem mapa. E foi por pensar em mapa que pensou este sujeito na obra homónima (link Wook; link Livro do Dia) de manuel a. domingos, na poesia e no poema "Londres":

nunca cheguei a escrever um poema sobre
a cidade ser à noite um carrossel
de luzes, nem outro sobre
a fotografia onde fiquei com ar
envergonhado. ou sobre o frio e
o passeio por Hyde Park, onde
pássaros vieram comer às tuas mãos
e eu deixei fugir alguns versos
só para te poder fotografar. ou sobre
a casa estilo vitoriano, que prometeu
ocultar todas as palavras que dissemos
um ao outro, quando ao deitar
nos encolhíamos debaixo de
vários cobertores e mesmo assim
tínhamos o frio. ou o definitivo,
aquele que falaria sobre Greenwich
e o meridiano que me ensinou a importância
do tempo que sempre falta, principalmente
quando numa das pontes quis dizer amo-te,
mas havia um autocarro para
apanhar. e era já o último.


Apenas para que conste, se quando o último suspiro chegar houver tempo para um derradeiro balanço entre Deves e Haveres: também houve muitos poemas sobre muitos corpos que este indivíduo nunca chegou a escrever.

E enquanto nesse novelo de pensamentos emaranhados pensava sobre a vida, esse mortal castigo a que fomos condenados, cogitava sobre poemas, poetas, e cidades, lembrou-se esta personagem do poeta jota esse*: sempre admirei, num misto de terror e inveja, os poetas que se suicidam; que num gesto final executam um acto de derradeira coragem e extrema cobardia, como se num movimento circular do braço agarrassem a vida e a morte na mão que com as últimas forças se fecha e logo se abre num espasmo.

Tábua Rasa, de jota esse, na obra Dicotomia:

Salvei-me um dia
A mim próprio
De um poço sem fundo,
Infindo e cor-de-breu
À procura de Nada.

Salvei-me um dia
De mim próprio
Quando uma marioneta
Envolvida num jogo
Jogado por peões inconscientes
De o serem que
Se tornaram marionetas também
No momento em que tomei
Consciência
Do dado que era,
Dos números que dava
E ajudava esses peões
A caminhar no tabuleiro
De cores que é a Vida.


*jota esse, pseudónimo de José Sousa, nasceu em Pinhel (Pereiro) a 5 de Abril de 1983, e faleceu na Covilhã no dia 9 de Fevereiro de 2009. Publicou sobre o Amor e outras cousas (2007) e Dicotomiatodos os textos (2008). Estas obras, em conjunto com outros textos inéditos à data da morte do autor foram reunidos na obra , publicada em Agosto de 2009.

4 comentários:

  1. so deus sabe como eu queria que tivesse algo aqui, brigada!

    e chorei facil nesse.

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  2. Para já, uma ida a Londres, é já quase poesia pura, para quem ama tanto aquela cidade, como eu...
    Mas gostaria de saber algo mais sobre José Sousa, e da sua breve vida, já que faleceu na minha terra o ano passado, quem tão bem escrevia poesia.

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  3. André Benjamim, poesia, para mim, é viver, é ver você, gastar tempo lendo você, no seu blog, na sua poesia....
    abraços perfumados
    Regina

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  4. Quando Vieres, diz alguma coisa...
    Abraco
    Jose

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