sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

FELIZ ANO NOVO!

Feliz Ano Novo para todos os meus amigos! Happy New Year to all my friends! Bonne année à tous mes amis! Feliz Año Nuevo a todos mis amigos!

Até 2001!
Until 2011!
Jusqu'en 2011!
...Hasta el 2011!

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O SILÊNCIO ENSURDECEDOR


Ao silêncio ensurdecedor daqueles que se calam, daqueles que temem, dos cobardes, que - como dizia William Shakespeare - morrem muitas vezes antes de morrer, temos o dever de responder com um grito, um berro a plenos pulmões. 

Porque o silêncio é complacente com as injustiças, as intrigas, a mediocridade. Porque os cobardes vivem da maledicência, da intriga, do atemorizar dos fracos, devemos ser firmes e fortes perante eles. Porque os cobardes são fortes com os fracos, fracos com os fortes.

Pior que um energúmeno utilizar o seu pequeno poder, escudado de torpes lacaios, legitimado por caciques e indiferença, na Assembleia Municipal, de uma capital de distrito, de um país que se auto-denomina democrático, para denegrir e enxovalhar um cidadão - pior que isso é a complacência e o silêncio da grande maioria dos restantes deputados municipais.

Pode parecer surreal, pode parecer um história saída de um romance do realismo fantástico sul-americano, mas é real, e está a acontecer na Assembleia Municipal da Guarda.

Imagem: retrato de Américo Rodrigues (director artístico e financeiro do Teatro Municipal da Guarda), feito por Alexandre Gamelas.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O FIM DO MUNDO


Sabemos que vivemos no fim do mundo quando procuramos um livro em todas as livrarias da cidade e nenhuma tem um único exemplar. A vontade é partir. Porém, quando a consciência que temos de nós mesmos nos permite olhar para dentro com olhar isento, sabemos que esta angústia é interna, e que o fim do mundo está dentro de nós, e irá connosco para onde quer que vamos. As paisagens diferentes que a vida nos possa proporcionar poderão distrair-nos da paisagem interior, mas poderão modificá-la? Para sabermos temos que partir. Quando procuramos um livro em todas as livrarias da cidade e, não havendo um único exemplar em nenhuma, sentimos que vivemos no fim do mundo, temos que partir.

E afinal, qual é o livro? Nunca me Deixes, de Kazuo Ishiguro. A angústia deve ser do título...

sábado, 11 de setembro de 2010

tarde de mais.


Alguns vão a Fátima, outros a Meca, há-os que vão a Santiago de Compostela, outros vão aqui, à Nossa Senhora dos Remédios. Este ano a festa já acabou, para o ano há mais. E não se apoquentem, não me converti. A fotografia foi captada no longínquo dia 06 de Janeiro de 2000. É que já dizia Jean Giraudoux.

Quando damos por nós à espera da passagem das horas, envolvidos pelo tédio no seu limbo de marasmo e melancolia, a existência transforma-se num interminável e sorumbático suplício. A única esperança reside no súbito aparecimento de um dia melhor – firme ilusão com que subsistem os canalhas. Não surgirá melhor dia. Quando o presente não nos satisfaz, foi derrubada a barreira entre nós e o absurdo. Demo-nos conta do exílio a que nos encontramos condenados. Para os canalhas o futuro é a fuga ao absurdo. Mas como qualquer outra é uma ilusão também. E incapacitante. A esperança de que um dia melhor virá resgatar-nos do exílio, do absurdo, do presente, prende-nos ao que há, impedindo-nos de lutar contra essa angustiante alienação com a única arma de que dispomos: nós mesmos.

texto e fotografia de André Benjamim

domingo, 20 de junho de 2010

JOSÉ SARAMAGO


Na fotografia, o momento em que José Saramago autografava o único livro seu que tenho autografado. Calhou em sorte ser "A Caverna", no dia 25 de Novembro de 2000, alguns dias após a saída do romance. Gostaria que tivesse sido "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" ou "O Ensaio Sobre a Lucidez" ou mesmo "A Bagagem do Viajante" (crónicas), um dos meus preferidos, crónicas anteriores aos romances que lhe trouxeram aclamação mundial, e que têm já nas linhas e entrelinhas tudo o que veio depois, na Literatura e na vida pública do autor. Naquele 25 de Novembro de 2000, não sei porquê, o José Saramago trocou-me o nome. Olhou para mim, perguntou qual o nome que queria, disse-lho, e quando cheguei a casa, ao abrir o livro novamente deparei-me com outro nome (o primeiro, que o segundo está correcto, conforme ao meu bilhete de identidade). Sempre que abro o livro sorrio. É o único romance do Saramago que até hoje nunca li.

Anos mais tarde poderia ter tido o Evangelho autografado, ou outro qualquer. Mas preferi não ter. Porque era no mínimo desagradável o abuso de muitos leitores (?) que chegavam às apresentações de livros do José Saramago, carregados com todos os livros que tinham em casa. Ainda assim, José Saramago ali permanecia durante horas estóicas, a fio. Mais tarde já não tinha esse tempo, essa disponibilidade. Era até uma falta de respeito, quanto a mim, levar mais que um livro. Numa das sessões de apresentação de "Ensaio sobre a Lucidez" em cuja organização participei, não houve tempo para a habitual sessão de autógrafos. Houve quem falasse em devolver o livro (e houve quem devolvesse mesmo) por não terem o autógrafo! Quão mesquinho é o ser humano! Enquanto membro da organização daquela sessão de apresentação, a Editorial Caminho ofereceu-se para levar livros para serem autografados posteriormente pelo José Saramago. Mas eu não quis. O José Saramago era o meu preferido dos escritores vivos. Agora o José Saramago é um dos meus preferidos dos escritores imortais.

Comprei os jornais diários todos. Sobre certas figuras e instituições, nem comentários há a fazer. Enfim, previsíveis. Morreu o único Nobel da Literatura Portuguesa. Goste-se ou não, morreu o único escritor Português a quem foi atribuído o Prémio Nobel. Estava e já não está. A sua obra continua a acompanhar-nos.

domingo, 6 de junho de 2010

domingo, 18 de abril de 2010

DA LIBERDADE (II)

Outra consequência dos momentos que vivemos pode ser mais medo? Acho que sim. Se há uma escala, onde cabe o receio, o medo, o terror, acho que hoje já se vive muito com receio de perder o emprego, a casa, de perder um amigo, de ser incomodado, de se despedir...

Do que se diz? Sim, sim, sim, sim! E sinto que as pessoas dizem mesmo que é preciso prudência no que se diz, no que se faz, porque temem represálias. Há duas ou três décadas havia menos receio, havia mais esperança.

Sente-se feliz? Sou simultaneamente feliz e insatisfeito. Só os adolescentes acham que não há contradições na vida. Nunca posso ser inteiramente uma coisa.

E livre? Tento ser. Nunca se consegue sempre. A minha obsessão quotidiana é a liberdade individual, não depender de ninguém.


Excertos da entrevista a António Barreto, realizada por Sílvia de Oliveira e Filipe Paiva Cardoso, publicada no jornal i

sexta-feira, 16 de abril de 2010

DA LIBERDADE

Pelo correio chegam convites de diversos quadrantes, para «participar» nas celebrações do «Dia da Liberdade», o dia 25 de Abril que se aproxima. Palavras esvaziadas pela monótona repetição serão proferidas uma vez mais, referindo as conquistas daquele dia, uma conquista de todos os dias. Enfeitadas por içares da bandeira, música de bandas filarmónicas, guardas de honra de militares, polícias, ou bombeiros. Com resignado estoicismo, os «populares» assistirão enfastiados, no local ou pela televisão. Ou simplesmente irão ignorar: o feriado este ano coincide com um Domingo. No dia seguinte a vida prossegue: o desemprego ou o trabalho mal remunerado, em condições cada vez mais perto do esclavagismo. O medo, as pressões, a ameaça. Com o desemprego, a pobreza, a fome. Iludidos pela promessa de Liberdade, demos crédito a uma pequena corja de indivíduos, eis os juros que nos cobram. Meus senhores, e minhas senhoras, até quando vamos pagar?

quarta-feira, 14 de abril de 2010

EU TENHO UM ESTUDO MELHOR QUE O TEU - MAS NÃO MOSTRO, NÃO MOSTRO, NHA, NHA, NHA

E quando um tipo, tipo eu mesmo, pensa que já ouviu tudo, mas mesmo tudo, em dez anos perdidos da vida, obrigado a ouvir todas as católicas barbaridades, vem um tipo, tipo mesmo tipo, tipo muitos adjectivos que nem sequer constam em muitos dicionários, dicionários onde se inclui jargão, alguns dirão, dicionários ordinários, eu digo, dicionários extraordinários, sem pejo nem receio de ser brejeiro. Dizia eu, vem um tipo, tipinho, que nem tem estatura nem altura nem coisa que o valha, que aquilo não serve para nada, ou talvez para enfeitar, talvez para mijar, vem um tipo. Toma lá! Ouve mais uma barbaridade, que é para que saibas que da madre igreja nunca terás ouvido tudo. Ou, se calhar, ouvi barbaridades como esta - durante dez anos - e tão habituados estavam os meus ouvidos, que deixavam passar dum lado ao outro com tal rapidez que nem reparava.

O José Bértolo diz tudo:

Corajoso, Marquinhos disse (a voz tremeliquenta): «Pai, tenho algo a dizer-te... Eu sei que não vais gostar, e eu juro que tentei lutar contra isto, eu juro, mas pai... pai, eu... eu não consegui! Pai, eu sou pedófilo!». O pai respondeu, exasperado, em súbita e inesperada agressividade: «O quê? O meu próprio filho? Pedófilo? Por Deus, não!» Marquinhos acobardou-se, mas não cedeu à vontade de tentar reparar o feito: «Sim, pai, eu sinto-me sexualmente atraído por indivíduos do mesmo sexo!» O pai chorava lágrimas de dor. Tinham-se passado poucos segundos, quando uma lâmpada amarela surgiu sobre a cabeça do pai. Disse: «Mas espera lá, tu não podes ser pedófilo. Tu tens 14 anos!» Confundiu-se o pobre Marquinhos, e prostrado ficou, sem reacção, mas por fim compreendeu tudo: o pai estava em negação. Mas nada o faria parar, Marquinhos assumira, perante si e perante o mundo, quem era. A perspectiva de uma nova vida, livre e da cor do arco-íris, edificava-se então à sua frente. (José Bértolo, in Tio Vânia)

terça-feira, 13 de abril de 2010

rascunho encontrado num caderno abandonado #83

um momento.

houve um momento. um momento em que ainda podias parar. um segundo em que já é tarde demais. um instante em que podias. depois é tarde demais. houve um momento em que todos poderíamos ter sido. depois morremos. um instante em que tínhamos. depois perdemos. um sonho. adormecemos. acordámos. demos uma volta na cama. um movimento brusco. um salto. um sobressalto. uma dor. um aperto no peito. uma lágrima. onde poderíamos ter ido. houve um momento. um instante em que poderíamos ter sido tudo. depois acordámos. nascemos. e a vida é tudo o que nos resta.


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segunda-feira, 12 de abril de 2010

NEM TODAS AS INIQUIDADES SERÃO PERDOADAS!

Abri os olhos. Para que fechá-los, se não podia dormir? As mesmas trevas reinavam em torno, a mesma insondável e negra eternidade, contra a qual o espírito se revoltava, incapaz de assimilá-la. A que poderia compará-la? Fiz os mais desesperados esforços para achar uma palavra bastante negra a meu gosto, que designasse aquela escuridão; palavra tão pavorosamente negra que me enegrecesse a boca, ao ser pronunciada. Santo Deus! Que escuridão! Eis-me de novo a pensar no porto, em navios, em monstros negros à espera. Iam aspirar-me, engolir-me, reter-me como prisioneiro, e navegar, levando-me através de mares e terras, através de reinos sombrios, jamais vistos por alguém. Estou a bordo; sou atirado à água; pairo entre nuvens; vou descendo, descendo... Solto um grito rouco, de angústia, e agarro-me à cama. Fizera uma perigosa viagem, degringolando pelos ares como um pacote. Que sentimento de salvação, ao apalpar o catre duro! "É assim que a gente morre - pensei comigo - e tu vais morrer." Fico um instante a reflectir: vou morrer. Sento-me na cama e pergunto severamente: "Quem disse que vou morrer? Fui eu que achei a palavra, tenho pleno direito de decidir o que deve significar." Senti que delirava; senti-o antes que acabasse de falar. Era um delírio feito de fraqueza e de esgotamento, porém não perdera a consciência. De repente, uma ideia varou-me o cérebro, a ideia de que enlouquecera. Tomado de pavor, saltei da cama, fui cambaleando até à porta, e tentei abri-la arremessei-me duas ou três vezes contra ela, para arrombá-la; mordi os dedos, chorei, praguejei...


Knut Hamsun, in Fome (tradução de Carlos Drummond de Andrade).

segunda-feira, 22 de março de 2010

LONDRES, DIA MUNDIAL DA POESIA (QUE FOI ONTEM - QUE É HOJE, QUE É SEMPRE), e OUTRAS COISAS


Tem este tipo que deixa por aqui rabiscos de rascunhos de textos a haver viagem marcada com destino a Londres no próximo dia 21 de Agosto de 2010, com retorno a 29 do mesmo mês. E se nenhuma força maior vier contrariar a sua vontade de embarcar no voo com destino à capital do império de Sua Majestade, a Rainha - para além do seu medo de aviões - ah, eu nunca vos confessei esta paranóia? - por lá andarei, sem mapa. E foi por pensar em mapa que pensou este sujeito na obra homónima (link Wook; link Livro do Dia) de manuel a. domingos, na poesia e no poema "Londres":

nunca cheguei a escrever um poema sobre
a cidade ser à noite um carrossel
de luzes, nem outro sobre
a fotografia onde fiquei com ar
envergonhado. ou sobre o frio e
o passeio por Hyde Park, onde
pássaros vieram comer às tuas mãos
e eu deixei fugir alguns versos
só para te poder fotografar. ou sobre
a casa estilo vitoriano, que prometeu
ocultar todas as palavras que dissemos
um ao outro, quando ao deitar
nos encolhíamos debaixo de
vários cobertores e mesmo assim
tínhamos o frio. ou o definitivo,
aquele que falaria sobre Greenwich
e o meridiano que me ensinou a importância
do tempo que sempre falta, principalmente
quando numa das pontes quis dizer amo-te,
mas havia um autocarro para
apanhar. e era já o último.


Apenas para que conste, se quando o último suspiro chegar houver tempo para um derradeiro balanço entre Deves e Haveres: também houve muitos poemas sobre muitos corpos que este indivíduo nunca chegou a escrever.

E enquanto nesse novelo de pensamentos emaranhados pensava sobre a vida, esse mortal castigo a que fomos condenados, cogitava sobre poemas, poetas, e cidades, lembrou-se esta personagem do poeta jota esse*: sempre admirei, num misto de terror e inveja, os poetas que se suicidam; que num gesto final executam um acto de derradeira coragem e extrema cobardia, como se num movimento circular do braço agarrassem a vida e a morte na mão que com as últimas forças se fecha e logo se abre num espasmo.

Tábua Rasa, de jota esse, na obra Dicotomia:

Salvei-me um dia
A mim próprio
De um poço sem fundo,
Infindo e cor-de-breu
À procura de Nada.

Salvei-me um dia
De mim próprio
Quando uma marioneta
Envolvida num jogo
Jogado por peões inconscientes
De o serem que
Se tornaram marionetas também
No momento em que tomei
Consciência
Do dado que era,
Dos números que dava
E ajudava esses peões
A caminhar no tabuleiro
De cores que é a Vida.


*jota esse, pseudónimo de José Sousa, nasceu em Pinhel (Pereiro) a 5 de Abril de 1983, e faleceu na Covilhã no dia 9 de Fevereiro de 2009. Publicou sobre o Amor e outras cousas (2007) e Dicotomiatodos os textos (2008). Estas obras, em conjunto com outros textos inéditos à data da morte do autor foram reunidos na obra , publicada em Agosto de 2009.

segunda-feira, 15 de março de 2010

sexta-feira, 12 de março de 2010

rascunho encontrado num caderno abandonado #82

à noite bebemos
às escondidas
bebidas que recusámos
aos amigos,
como se num trago
engolíssemos
a angústia que ocultamos.

mas o corpo cansado
não faz a digestão.
o álcool penetra no sangue
e no espírito amargura.


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OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO*

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.


Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.


Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


*Poema de Carlos Drummond de Andrade

Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

rascunho encontrado num caderno abandonado #81*

Pior que não esperar nada da vida, é já não querer nada da vida. Ter perdido todos os sonhos, objectivos, e metas. E ver os dias passar. Viver sem objectivos é navegar pela vida num barco à deriva. Sempre pronto a entrar em qualquer porto, sempre pronto a atracar em qualquer cais. Onde que que vá parar - sempre a vontade de partir, sempre o medo de não ficar.


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*Rascunho encontrado com o título "Perdido" escrito e sublinhado no cabeçalho.

segunda-feira, 8 de março de 2010

DIA INTERNACIONAL DA MULHER*

Agora é um mistério para mim, mas naquele momento sentia que estava certo, que nunca estivera tão certo. E ao mesmo tempo estava aborrecido. Não te conhecia. Porque haveria de ceder aos teus desejos? Sabes – vais chamar-me mentiroso – não te conhecia, porque havia de te aturar? Porém ao mesmo tempo tinha – custa-me pronunciar esta palavra – tinha pena de ti. Tinha pena… Não sei! Não sei se era pena. Pena é um sentimento desculpabilizador com que as pessoas lavam a consciência de assuntos com que não querem lidar. Pena é o sentimento que usamos para dizer a nós mesmos que não temos nada a ver com aquilo com que não conseguimos lidar. Se fosse pena, pena assim, ter-te-ia dado uma desculpa e tinha ido embora. Mas não fui. O que eras então para mim, naquele segundo criador? Não sei! Também não importa! Não importa, porque nada importa! Porque nada têm importância! Porque a importância só o é relativamente ao valor subjectivo que lhe atribuímos. E porque havemos de dar um nome a todos os sentimentos que nos aparecem na alma? Perdemos demasiado tempo a pensar naquilo que sentimos, e depois não nos sobra tempo para sentir. Tu sorrias. Tinhas um sorriso cândido – e belo. Um sorriso que explodia na tua face redonda, e me tocou, agarrou, feriu e prendeu. Mas detrás do teu sorriso espreitava a tristeza, a solidão, talvez. E enquanto sorrias parecia que ficavas ausente, e voltavas, e de repente. – Eu sou de Lamego! Conheces? Já ouviste falar? – Por entre o teu ímpeto mergulhei algumas palavras, todas para dizer apenas que sim. – É uma terra bonita! Um dia hás-de conhecer! (Desculpa estar para aqui a corrigir o Português, que importa que não tenha sido assim, com tamanha correcção ortográfica que tenhas pronunciado as palavras? Isso fica aqui apenas entre nós.) E o tempo passava, o pátio já estava deserto, só nós dois, esquecidos do mundo em redor, conversando encostados a um pilar. Subiste para o lancil. – Sou quase da altura! – Assim é batota! – Protestei. Desceste. A tua cabeça rapada chegava-me à altura do ombro. – Tens muitos amigos? – Mudavas tão depressa de assunto! Como um lobinho que vai pelo meio do mato a saltitar! Os lobos não saltitam? As raposas sim? Não sei, não conheço nenhum lobo! E raposinhas só conheço uma, mas não saltitava pelo meio do mato, saltava pocinhas, a matreira! – Deves ter! Pareces bem simpático! Eu ainda não tenho amigos! Sou novo aqui! Queres ser meu amigo? – Ao que me obrigas! Ainda o ponto de exclamação não tinha caído em desgraça! Ainda vivíamos numa época de afirmação, de breves ou longas exclamações, em que tudo era possível!
Tocou a campainha. Eram onze e vinte, estava a chegar a hora da missa. – Esperas por mim – pediste, perguntaste, ou exigiste? A tua maneira de falar, às vezes tão clara, era por vezes tão dúbia.


*Uma especial saudação a todas as visitantes, leitoras, amigas, mulheres, meninas, senhoras, bem ou mal comportadas (as mal comportadas vão a todo o lado - as bem comportadas, coitadas!, vão parar ao paraíso), mães, filhas, amantes.
Também o dia triunfal, torrencial, das Odes do Álvaro, do Guardador de Rebanhos do Alberto, das Impressões do Crepúsculo Fernando.

quarta-feira, 3 de março de 2010

IGUAIS

Tenho para mim que somos todos iguais em três momentos: quando nascemos, todos nascemos nus; quando morremos, todos morremos sozinhos; e quando nos sentimos angustiados, todos nos sentimos nus e sós.

terça-feira, 2 de março de 2010

DA FELICIDADE

"Tenho todas as condições para ser feliz, salvo a felicidade. As condições estão desligadas umas das outras"

Barão de Teive, in A Educação do Estóico.



Estávamos sentados, respirando em grandes golfadas, o ar perfumado do fim de manhã. Porque vieste sentar-te entre nós? Está tudo bem? – Perguntas. Era para o meu amigo que falavas, que a mim não me conhecias. Ou falavas para ambos? Ou era já só para mim?
Quem era este nosso amigo comum? Como é que ele se chamava? Se lhe desse um nome agora, o seu, aquele que tinha na vida real, que consta no registo civil, aquele que o bilhete de identidade exibia, ou outro, aquele que teria agora, real também, por passar a ser o seu, que diferença faria, o que mudaria? Os nomes, das pessoas, das personagens, ou das coisas, servem apenas para ajudar a distinguir e identificar àqueles que não têm disponibilidade para contemplar a verdade íntima de cada ser ou objecto. São apenas uma desculpa para maus caracterizadores escreverem romances. Bem vês, não deveria estar a escrever esta história, a nossa história, que foi minha e tua, dos dois, até ser apenas memória que a minha memória tenta desesperadamente passar para o papel para que não se desvaneça. Mas já não nos pertence. É tão pouco nossa como o era naquela manhã em que ainda podíamos escrevê-la como quiséssemos, em que éramos inteiros e livres.
E tu? Como te chamarás? Ainda não tens nome. Quer dizer, eu ainda o não sabia. Observei-te. Existias já para mim, mas ainda não havia um nome, um nome onde integrasse os meus sentimentos e pensamentos, ainda informes e vazios, mas que se formariam daqui em diante. Um nome que não seria apenas teu, mas também meu, dentro de mim.
Que imagem fixei de ti? Na fotografia mental que guardo comigo, vejo ainda a face redonda e branca, o olhar sorridente, o cabelo rapado, as calças azuis, de ganga, desbotadas, a camisa da mesma cor. Brinquei contigo naquele momento, ou é agora que me parece que tinhas a aparência de um sujeito precocemente preso, ou enviado para o exército? Afinal, que diferença havia? No colégio as paredes eram altas e cerradas como as de uma prisão, e o regime era fixo e rigoroso, como o do exército. Havia também alguns alunos, os externos, que ao fim do dia gozavam de algumas horas de liberdade condicional. E ao final do dia tínhamos missa. Todos os dias. Obrigatoriamente. Quer quiséssemos quer não. Que o colégio era muito católico. E embora Deus tivesse dado ao ser humano o livre arbítrio, logo naqueles tempos houve quem se ocupasse do livre arbítrio dos outros. Assim estava o nosso livre arbítrio condenado às prédicas do padre, às frágeis páginas da bíblia, e às pesadas folhas do missal, agrilhoado entre as paredes do colégio.
Não esperaste para ser apresentado. – Sou o. Deixa-me interromper-te, porque ainda não és. Ainda não eras. Depois passaste a sê-lo. Disseste o teu nome, e o teu nome nunca mais voltou a ter o mesmo significado. Porque se antes nada significava para mim, agora seria a palavra que conteria em si tudo o que começaste a ser para mim. – E tu, como te chamas? – Perguntaste, antes que eu tivesse oportunidade de dizer. O meu nome ou outra coisa qualquer. Respondi-te. Não vou dizer os nossos nomes? Outros os dirão por nós. Nós não precisamos de o fazer. Pouco importam os nossos nomes. Quem ler este texto não terá dificuldades em saber quem é quem. Eu serei sempre o narrador. Tu serás sempre a pessoa, personagem aqui, a quem falo. Embora sejam outros, aqueles que terão a aborrecida tarefa de fazer o papel de leitores, quem me ouvirá.
Tenho que me ir embora – disse o nosso amigo, aquele que foi o improvável elo de ligação, que sem realizar nenhuma acção para além de estar presente, fez com que dois caminhos se cruzassem num dado momento – o tempo desta narrativa – e continuassem lado a lado durante alguns meses. – Até logo! – Respondi. Até logo que nesta história significou até sempre, porque não voltará a entrar em cena. Sai sem nome, prova de que um nome não é importante, porque as personagens que têm nas histórias a glória de um nome são afinal as menos importantes. Porque os heróis são fantoches movidos pelas cordas das circunstâncias temporais e espaciais. São aqueles que crescem no anonimato, que se movem no anonimato, e desaparecem no anonimato, que produzem o palco e encenam a narrativa, nas histórias onde outros serão as estrelas. O palco é agora todo nosso. E a história ainda não está escrita.
– Queres ver-me andar de patins? – Não esperaste por uma resposta. Tiraste as sapatinhas e começaste a calçar-te. Ficas aqui a ver-me. Foi uma pergunta que fizeste, mas o momento de pausa foi tão curto, que não possibilitava qualquer resposta. Tu não querias nenhuma resposta, porque a única resposta que admitias exigia uma exclamação, não uma interrogação. – E guardas-me as sapatilhas. – Era um pedido, porém pronunciaste-o como se apenas desses uma informação, e já te tinhas levantado e cirandavas pelo pátio como se não existisse mais ninguém, apenas eu a olhar para ti, a ver-te patinar como se dançasses, a ver-te dançar como se voasses. Durante alguns segundos o tempo parou, e durante alguns segundos apenas foi como se tivessem passado séculos, e quando voltaste para junto de mim era como se já nos conhecêssemos de há séculos. – Então. Eu tinha este tique. Ainda tenho? Tinha este tique, e ainda tenho, mas talvez já não se note tanto, talvez não se vá notar tanto, porque quando reler o texto vou alterar, modificar, apagar, voltar a escrever. Mudar a forma milhares de vezes até que ela se ajuste um pouco que seja ao conteúdo. Começava as frases todas com este advérbio de tempo. – Então, não continuas a andar de patins? Não me respondeste. Vês como és? Nunca respondeste, nunca responderás, àquilo que não é do teu agrado. – És daqui da Guarda? – Entretanto já tinhas um patim descalço, descalçaste o outro, e começaste a calçar as sapatilhas. Eram onze e vinte, a campainha tocou, sinal com sentido obrigatório para os bancos da capela. Levantei-me. – Não vás embora – breve pausa – fica aqui comigo. E eu fiquei. Não sei porquê.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

SILÊNCIO E DESENCANTO*

Silêncio e desencanto: são talvez as palavras que melhor definem o sentimento que atravessa as cidades e os campos, os corpos, os olhares e os sorrisos, as pessoas. Silêncio de esmagamento e impotência. Desencanto com a vida, o futuro, o horizonte que se perscruta e parece cada vez mais distante. A crise, essa bolha económico-financeira, inventada pelas instituições financeiras, não para dela serem vítimas, mas para com ela se vimitizarem, e dela retirarem benefícios, não surgiu como o fim óbvio de um ciclo, mas como o início de outro: o início de um ciclo onde todas as tropelias se justificam: o desemprego que é inevitável, o encerramento de empresas (patrões, gestores e accionistas com fortunas em off-shores ou em contas helvéticas) que não são mais viáveis - depois de investimentos titânicos dos governos europeus elas viajam para território asiático, onde a mão-de-obra é mais barata, forma de dizer «escravizada» , o gigantesco aumento da diferença entre ricos e pobres. 
As ruas das cidades, os cafés, os pontos de encontro, já não têm o mesmo encanto, o mesmo barulho de antigamente - palavra que até há pouco tempo significava dezenas de anos, designa agora, em algumas circunstâncias, apenas meses. Tudo está tão vazio, que as injustiças perpetradas à vista de todos, não causa qualquer ressonância em ninguém. Alguns dos mais resistentes e perseverantes atingirão os seus sonhos (como sempre acontece, cada vez com menos frequência e certeza). Mas, à custa de que pesadelos?

*Surgiu este post após a leitura deste.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

UM DIA...


Gostava de ter paciência para vir aqui mais vezes a este recanto que tenho deixado ao abandono, porém, ando sem paciência para nada, sem paciência para mim mesmo, sem motivação nem vontade.

Entretanto, vou lendo as crónicas do João César das Neves no Diário de Notícias. Um génio! Mais nenhuma pessoa neste país me dá ao mesmo tempo vontade de rir e de chorar, a maioria das vezes de chorar a rir! Ele é o salário mínimo ser o maior causa(dor) de desemprego porque os desgraçados dos patrões não conseguem pagar esse valor extravagante que mal dá para governar uma boca! Ele é os homossexuais e essa coisa de poderem casar ser o motivo da cada vez menor taxa de natalidade, que, coitados dos heterossexuais, por causa dos depravados que vão para o inferno deixaram de saber como se procria! Enfim, com tamanho génio, qualquer dia descobre o caminho marítimo para a Índia, este valoroso navegante das ideias, profeta do cataclismo, evangelizador dos pobres de espírito - que deles será o reino dos céus! - Ámen!

Desconfio mesmo que um dia ainda há-de vir com a teoria que o Salário Mínimo Nacional é a causa da descida da Taxa de Natalidade! Sim! Imaginem que se não tivessem mais que fazer, esses desgraçados que sobre-vivem com o Salário Mínimo, tinham tempo para procriar! Mas com tanto dinheiro para gastar... E, com um pouco mais de argúcia, bem aguçado o astuto génio, ainda há-de concluir que é o  Elevado Salário Mínimo a causa da homossexualidade...

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

EM OITAVO! [POST #1383 ]


Portugal tornou-se a partir de hoje o 8.º País do Mundo a permitir o Casamento Entre Pessoas do Mesmo Sexo. Uma data histórica! Um brinde a todas e a todos os Portugueses que acreditam numa sociedade mais livre, mais justa, mais verdadeira e, acima de tudo, mais honesta! É tudo? Não, não é tudo! Mas é uma parte importante!