segunda-feira, 30 de março de 2009

NOKIA 2630

Nove anos depois, voltei a comprar um telemóvel; não tem grandes características, mas tira umas fotos miseráveis, e dá para falar e escrever mensagens! Claro que comparado com o meu antigo telemóvel, é uma máquina do futuro! Agora que comprei este, sei que nunca mais vou parar; ou antes, vou até onde o dinheiro me deixar. Até porque dificilmente conseguirá chegar aos nove anos de idade; coisa que para um telemóvel deve equivaler a novecentos e tal anos... Portanto, dou comigo a sonhar com o próximo, que há-de tirar fotografias dignas da melhor compacta, e de fazer inveja a algumas reflex; terá um cartão de memória com mais capacidade que o disco rígido do meu primeiro personal computer, e nenhum leitor de mp3 ombreará com ele...

sexta-feira, 27 de março de 2009

O MUNDO INTEIRO É UM PALCO - 27 DE MARÇO: DIA MUNDIAL DO TEATRO

O mundo inteiro é um palco.
Todos os homens e mulheres não passam de actores,
Têm as suas entradas e saídas;
E na sua vida um homem desempenha muitos papéis;
Os seus actos têm sete idades.
Primeiro, a criança,
Gritando e babando nos braços da ama.
Depois o escolar chorão, com a sua pasta.
E a sua brilhante face matinal, vai rastejando como um caracol
De má vontade para a escola. E depois o apaixonado
Suspirando como uma fornalha, com uma balada triste
Composta para a sobrancelha da sua namorada. Mais tarde um soldado,
Cheio de estranhos juramentos, e barbado como um leopardo,
Zeloso da honra, e violento e rápido na luta,
Buscando a bolha de ar que é a fama.
Até na boca do canhão. E depois a vez do juiz,
Com a sua barriga redonda recheada com um bom capão,
De olhos severos e barba de corte formal,
Cheio de sábios refrões e exemplos modernos,
E assim representa o seu papel. A sexta idade se transforma
Em calças longas e chinelos,
Com óculos no nariz e a bolsa de lado,
Seus calções da juventude, bem conservados, demasiadamente largos
Para suas magras canelas; e a sua forte voz viril,
Transformando-se novamente em falsetes infantis, apita
E assobia o seu som. A última cena de todas,
Que põe fim a esta estranha história cheia de acontecimentos,
É uma segunda infância e um simples esquecimento,
Sem dentes, sem olhos, sem paladar, sem nada.

William Shakespeare, In As You Like It

quarta-feira, 25 de março de 2009

YUKIO MISHIMA*

*A Assírio & Alvim vai lançar a 2.ª edição de "O Templo Dourado", de Yukio Mishima. A Assírio & Alvim devia lançar novas edições de todos os livros do Yukio que tem no catálogo. E devia lançar edições dos livros que estão no catálogo de outras editoras Portuguesas, e se encontram esgotados há um tempo sem conta. E deviam lançar todos os livros do Yukio que nunca foram traduzidos para Português!

Ou como diz o Luís: "Mas isto é totalmente irrelevante, e já não sei bem porque acabei a falar em editoras de livros. Eu só queria falar no Mishima e dizer-te, a ti que lês estas linhas, para comprares também este livro que será agora reeditado, para o esgotar e a Assírio perceber então que nós amamos imenso o Yukio, para assim editar ainda uma data deles que, segundo sei, nunca foram editados por cá. E seremos então todos imensamente felizes, com 100 Mishimas nas nossas estantes." (leiam todo o post aqui)

terça-feira, 24 de março de 2009

edicoes do galo: as tuas palavras*

_______ #1 porque as tuas palavras são
claras como a água sem precisarem de cloro
ou lixívia e porque tuas ideias nelas soam
ritmadas sem adornos dourados ou pesos
supérfluos te escutam benevolentes os homens
que antes te perseguiram acusado de muito
escrever sem nada fazer que além fosse das
letras; e hoje marcham sobre o teu canto, e
hoje se queimam sob o teu canto – porque
descobriste a clareza da ribeira com o leito
sossegado dás de beber da água que corre
pelo pó repousado aprendendo que na margem
deve ficar quem não quer enturvar a sede do
outro lado
.
_____ #2 agora te espantas por que não falam
assim todos admirando como tentam falar uns com
os outros. e descobres que vão nus debaixo de muito
discurso; e percebes que descalços pensam pisar
tapetes. mas o vento que vem forte atira com eles,
e o tempo frio os aniquila; mas o caminho pedregoso
desfaz-lhes os pés, e o tempo quente os aniquila.
em busca da dignidade humana apagaram a dignidade
animal; assim perecem reunidos e esqueléticos como
fósforos na caixa do demónio que traz a luz. encontram
ao fim todos o carvão com o fumo pelas terras; e
calados se espalham impotentes ao longo dos campos
que alimentam netos desconhecidos
.

*poema de galo porno, publicado no blog edicoes do galo. há anos que me intrigava: quem seria o galo porno? agora já sei. e a minha vida é ainda a mesma. ou não.

segunda-feira, 23 de março de 2009

domingo, 22 de março de 2009

rascunho encontrado num caderno abandonado #72

(H)á dias que não durmo. A mesma angústia de antigamente, que nunca desapareceu. (H)á anos que não durmo! Os dias tornam-se cada vez mais pesados. Angustiantes, como se tudo fosse morrer... E, o que falta ainda morrer?
(H)á anos que cada dia é apenas mais um. (H)á anos que não tenho objectivos - alguma vez os tive?... (H)á dias que não leio um livro. Eu, que lia mais de dez livros por mês, este mês ainda não li nenhum... É a constipação, a alergia, a inflamação dos olhos, e tantas outras dores, no corpo e na alma.
Assim, quem consegue dormir?
Talvez um ansiolítico bem forte me fizesse adormecer; porém, a angústia, quem ma tiraria?
(H)á anos que tenho o mesmo pesadelo - (H)á anos que morre a mesma pessoa no momento em que acordo... Já não sei se é medo se é desejo... Enfim, de qualquer maneira, essa pessoa está mesmo morta! (H)á anos que tenho o mesmo pesadelo, talvez porque a vida é curta e eu perdi para sempre essa e outras pessoas... Também já não me importa, nem nada me importa... (H)á muito tempo... Mas, caralho!, ao menos podia dormir!...

Adeus!


rascunhos anteriores: #1, #2, #3, #4, #5, #6, #7, #8, #9, #10, #11, #12, #13, #14, #15, #16, #17, #18, #19, #20, #21, #22, #23, #24, #25, #26, #27, #28, #29, #30, #31, #32, #33, #34, #35, #36, #37, #38, #39, #40, #41, #42, #43, #44, #45, #46, #47, #48, #49, #50, #51, #52, #53, #54, #55, #56, #57, #58, #59, #60, #61, #62, #63, #64, #65, #66, #67, #68, #69, #70, #71,

DIA MUNDIAL DA POESIA #2

Ontem, Dia Mundial da Poesia, não tive tempo para aqui vos deixar um poema; estive, como vos publicitei, no Teatro Municipal da Guarda a celebrar este dia. Seleccionar um poema para assinalar esta data, convenhamos, é como escolher um grão de areia na praia. Aqueles que li na ocasião escolheram-me para sier lidos por entre o caos e o esplendor de milhares de páginas que levei comigo: não estive pelos ajustes: como não tinha tempo para planear, peguei simplesmente nos livros de poesia, dos autores que mais gosto, que estavam mais à-mão, e enfiei-os numa caixa e numa mochila e carreguei-os até ao Café Concerto do Teatro. Foi assim que por entre os muitos que li, este veio ter comigo:

Dizem que não nos queremos,
Disseram -
Até com certa ironia
Que quando nos encontramos
Há neve no outro dia.
Como essa gente se engana,
Como essa gente mesquinha
Me diverte e me dá pena!
- Não nos vêem conversar,
Ninguém nos viu de mãos dadas
Nem sabem que nos beijamos;
- Como essa gente se engana
Acerca do que pensamos!
Dizem que não nos queremos
Por um motivo qualquer:
-Só no nosso coração
Poderia responder:
Poderia - mas não quer.


António Botto, in. Cancões. No ano em que passaram 50 anos após a morte de António Botto, não podia faltar um poema dele. Sobre António Botto aproveito para partilhar um texto de Francisco José Viegas, lido no blog Da Literatura:

"[...] O país envergonha-se de António Botto porque aprecia muito a pequena anedota que desvaloriza uma obra, uma personagem, um nome. O país muito macho e alazão (mas muito bicha às escondidas) suspeita de Botto e evita usar o seu nome. Faz mal. O contacto com a sua poesia só eleva o leitor e abre a caixa dos preconceitos, para os ver cair depois. Um dos títulos das suas obras completas é Cartas que Me Foram Devolvidas, o que dá bem a ideia do medinho com que esta gente ficou, só de ouvir dizer o nome de António Botto.» (publicado no Correio da Manhã)

Ainda sobre António Botto: a obra completa do poeta nas edições quasi, organizada por Eduardo Pitta.

quinta-feira, 19 de março de 2009

DIA MUNDIAL DA POESIA


Post Scriptum: O Daniel alertou-me para o facto de faltar a localidade; realmente, por vezes esquecemo-nos do óbvio, é no Café Concerto, do Teatro Municipal da Guarda, na Guarda, a cidade mais alta, dos 5 F's...

DIA DO PAI

Fiz um desenho para o dia do pai, há 21 anos. Andou muito tempo guardado entre uns papéis que lhe pertenciam, mas não sei onde está. Um dia destes procuro-o. Pode ser que o encontre...

quarta-feira, 18 de março de 2009

DO VATICANO AINDA ESPERAM ALGO DE NOVO?!?*


Não sei o porquê de tanta admiração com estas palavras do Joseph Ratzinger, não percebo mesmo... a imagem veio do blog do Tiago. Então não se está mesmo a ver que o uso do preservativo aumenta os casos de infecção pelo HIV? Qualquer pessoa minimamente inteligente sabe isso, ou não?!

terça-feira, 17 de março de 2009

ESCREVO RISCO

No próximo dia 24 de Março, pelas 18 horas, será apresentado no Café Concerto do TMG, o livro-objecto "escrevo risco", da autoria de Américo Rodrigues (textos), Zigud (fotogramas) e Jorge dos Reis (desenho gráfico). O livro tem como ponto de partida a obra de José Neto, pastor da Quinta da Taberna (Videmonte) que escrevia nas paredes das casas tudo o que constituía memória: datas, acontecimentos, reflexões, banalidades, sonhos e alucinações". A partir desta experiência de vida e arte, os autores inventaram um "estranho objecto livresco" , com um cuidado gráfico assinalável. Este objecto dialoga com o filme "Um bando de passarinhos" de Zigud, que se inspira também na memória daquele pastor solitário. O filme será exibido, em ante-estreia, pelas 21.30 horas do mesmo dia, no TMG.
A edição de "escrevo risco" é da Luzlinar e de "Bosq-íman:os livros.

domingo, 15 de março de 2009

IMPRESSÕES DO CREPÚSCULO

Pauis de roçarem ânsias pela minh' alma em ouro...
Dobre longínquo de Outros Sinos... Empalidece o louro
Trigo na cinza do poente... Corre um frio carnal por minh' alma...
Tão sempre a mesma, a Hora!... Balouçar de cimos de palma!
Silêncio que as folhas fitam em nós... Outono delgado
Oh que mudo grito de ânsia põe garras na Hora!
Que pasmo de mim anseia por outra coisa que o que chora!
Estendo as mãos para além, mas ao estendê-las já vejo
Que não é aquilo que quero aquilo que desejo...
Címbalos de Imperfeição... Ó tão antiguidade
A Hora expulsa de si-Tempo! Onda de recuo que invade
O meu abandonar-se a mim próprio até desfalecer,
E recordar tanto o Eu presente que me sinto esquecer!...
Fluido de auréola, transparente de Foi, oco de ter-se.
O Mistério sabe-me a eu ser outro... Luar sobre o não conter-se...
A sentinela é hirta - a lança que finca no chão
É mais alta do que ela... Para que é tudo isto.... Dia chão...
Trepadeiras de despropósitos lambendo de Hora os Aléns...
Horizontes fechando os olhos ao espaço em que são elos de ferro...
Fanfarras de ópios de silêncios futuros... Longes trens...
   Portões vistos longe... através de árvores... tão de ferro!

terça-feira, 10 de março de 2009

BORIS VIAN

Como sabem, ou talvez não, o Boris Vian é um dos escritores do meu TOP TEN. Na data do seu nascimento por acaso, republico aqui no blog um post que lhe dediquei:


Boris Vian Baron Visi Hugo Hachebuisson Brisavion writer poet musician non-sense literature books livros literatura escritor foto poeta músico cantor dramaturgo crítico

Sentia-o junto à coxa, pesado e frio como um animal morto. O bolso e o cinto pendiam com o peso e, a camisa, do lado direito, tufava sobre as calças. O impermiável impedia que se visse, mas de cada vez que estendia a perna, o tecido ganhava um grande vinco e isso toda a gente notava. O mais sensato era seguir por outro caminho. (...) Chocou com um ciclista que dava a volta sem avisar. O pedal arrancou-lhe a dobra das calças e lacerou-lhe o tronozelo. Quando sentiu que ia cair, estendeu as mãos para a frente, ao mesmo tempo que soltava um grito de terror. Vieram ambos estatelar-se no hão enlameado. A pouca distância, havia um chui. Cláudio Leão livrara-se da bicicleta, mas o tornozelo doía-lhe horrivelmente. O ciclista tinha um pulso torcido e, com sangue a espirrar-lhe do nariz, insultava Cláudio e Cláudio começava a encher-se de cólera, o coração batia-lhe, sentia um calor descer-lhe pelas mãos ao passo que o sangue circulava optimamente, latejava no tornozelo e na coxa e levantava o tira-teimas a cada pulsação. Nisto, o ciclista lança-lhe o punho esquerdo à cara e Cláudio faz-se ainda mais pálido. Mergulha a mão no bolso, tira o tira-teimas. Dá-lhe vontade de rir, porque o ciclista balbucia e recua; sente um choque horrível na mão e o cacete do chui a baixar. O chui apanha o tira-teimas, agarra Cláudio pela gola.Cláudio já não sente nada na mão. Volta-se de repente, estende a perna direita, visa o baixo-ventre do chui que se dobra em dois e larga o tira-teimas. Cláudio, com um grunhido de prazer, corre a apanhá-lo, e descarrega-o em seguida cuidadosamente sobre o ciclista, que leva as mãos à cintura e senta-se devagarinho fazendo âââh... mesmo lá do fundo da graganta. O fumo dos dois cartuchos cheirava bem e Cláudio soprou no cano como vira fazer no cinema; voltou a meter o tira-teimas no bolso e deixou-se cair em cima do chui. Queria dormir.


Boris Vian, in. O Outono em Pequim (Publicações Dom Quixote, tradução de Luisa Neto Jorge). Boris Vian nasceu, em Ville d'Avray, "por acaso a 10 de Março de 1920, à porta de uma maternidade fechada por uma greve com ocupação. Grávida das obras de Paul Claudel (desde aí que não o gramo), a minha mãe ia já no 13.º mês e não podia esperar mais pela Concordata. (...) Em força e juízo cresci, mas sempre feio apesar de enfeitado com um sistema piloso descontínuo, embora muito farto. No que respeita à cara, era igual à da Vitória de Samotrácia [Esta Vitória está no Louvre, e não tem cabeça.] De repente, porém, a minha fisionomia transformou-se e comecei a parecer-me com o Boris Vian. Daí o meu nome."

Boris Vian foi escritor, poeta, dramaturgo, tradutor (de Raymond Chandler, por exemplo), músico, cantor e crítico de jazz (tocava trompete), actor, Vernon Sullivan, Bison Ravi, engenheiro na Association Française de Normalisation (ANFOR) onde entra em conflito com a administração por estar constantemente a corrigir os erros ortográficos dos superiores, Baron Visi, Hugo Hachebuisson, Brisavion, polémico, doente (desde os doze anos que tem problemas cardíacos que o levarão a uma morte prematura), genial, existencialista, amigo e inimigo de Jean-Paul Sarte e Simone de Beauvoir, surrealista, único. Autor inigualável de obras non-sense. Pronto, apenas comparável a Lewis Carroll. [A quem queira desmintir-me esta afirmação ficarei grato, mas direi apenas, parafraseando Lewis Carroll, que eles - Vian e Carroll - abriram auto-estradas: se outros as exploraram, se andaram mais rápido, mais depressa, com melhor desempenho, talvez. Limitaram-se a cumprir limites de velocidade.]

Da infância e adolescência ficam-lhe duas ou três marcas que irão influenciar a seu futuro. A doença e a falência dos negócios do pai. Era um jovem adulto (tinha 20 anos) quando a França é invadida pela Alemanha. Estávamos em Maio 1940. Nesse ano conhecerá duas pessoas que irão influenciar a sua vida (e obra) futura: Michele Léglise (com quem casará pouco tempo depois, após esta atingir a maioridade) e Jacques Loustalot, um rapaz de 15 anos, a quem Vian chama Major e que aparecerá em muitas das sua histórias. O Major era uma figura excêntrica: tinha um olho de vidro, era carismático, tinha um humor absurdo e, pensa-se, teria-se tentado suicidar aos 7 anos. Um personagem non-sense da vida real, portanto, que despertará em Boris Vian o Boris Vian que vivia adormecido dentro de Boris Vian.

Em 1946 é publicada a primeira obra de Vernon Sullivan, traduzida por Boris Vian: Irei Cuspir-vos nos Túmulos. A obra é polémica, arrojada, pornográfica para a época, sádica e erótica. Um verdadeiro sucesso, retumbado em best-seller após um assassino passional ter deixado um exemplar junto ao corpo da mulher morta. O livro ganha o epíteto livro que mata. Tal sucesso abre portas à tradução de mais uma obra de Sullivan recheada pelos ingredientes do sadismo, erotismo e mistério: Os Mortos têm Todos a mesma Pele.
Visto ninguém saber quem era esse misterioso escritor Americano, Vernon Sullivan, é para Boris Vian que os focos se dirigem; isto leva a que publique quase de uma assentada três títulos: A Espuma dos Dias (considera por muitos críticos a sua obra maior), O Outono em Pequim (que eu prefiro) e Vercoquin e Plancton. Estávamos em 1947.

Em 1948 nasce Carole, o seu segundo filho. O primeiro, Patrick, nascera em 1942. Neste ano traduze as duas últimas obras de Vernon Sullivan: Morte aos Feios e Elas não Dão por Ela (também publicado em Portugal com o título Elas Não Percebem Nada. Como me parece óbvio, o primeiro título e muito mais adequado e diz exactamente o mesmo que o segundo.) É também publicado o original de Irei Cuspir-vos nos Túmulos: I Shall Spit on your Graves, numa altura em que o Cartel d'Action Morale et Sociale aperta o cerco às obras de Sullivan. Por fim, a obra é mandada retirar do mercado. Vian cai na depressão; não tanto por causa da censura ao livro de Sullivan, mas porque morre, em 1949, o seu grande amigo, o Major Jacques Loustalot. Como consequência, a sua saúde degrada-se, o seu casamento degrada-se; as vendas de Boris Vian degradam-se: é um escritor incompreensível e invendável! A crítica arrasa a sua escrita desleixada e próxima da oralidade, algo que fará a marca, de modo mais acentuado, da escrita de Louis-Ferdinand Céline. Um colectânea de histórias dispersas em jornais e revistas é publicada, com o título de uma das histórias: As Formigas.

No ano de 1950 Boris Vian é condenado a pagar 100 000 francos por ter traduzido e publicado Vernon Sullivan. Defende-se num artigo de jornal com o título Sou um Obcecado Sexual. Publica Erva Vermelha, que vende tão mal que o editor manda destruir os exemplares existentes. Só três anos depois, em 1953, voltará à ribalta. Outra vez pela rédea de Sullivan: é condenado a 15 dias de prisão, por se ter provado ser Boris Vian o próprio Vernon Sullivan. A pena é amnistiada... Publica O Arranca-Corações (outro dos títulos de Vian considerado por alguns críticos a sua obra-prima) que tem uma recepção fria tanto do público como da crítica da época, o que o levam a dar por encerrada a sua carreira de ficcionista.

Em 1952 é nomeado "matador de primeira classe" no Colégio de Patafísicos. A Patafísica é a ciência das soluções imaginárias. Tinha como missão explorar os campos negligenciados pela física e metafísica.

Estamos em 1954. O casamento com Michelle desfizer-se e Boris Vian casa com Ursula Kebler. Sente-se um escritor falhado. Dedica-se à música e ao cinema. Participa, como actor, num filme de Jean Delannoy. A sua saúde sofre novo revés: tem um edema pulmunar. Em 1957 participa novamente num filme, agora de Pierre Kast. Outro edema pulmunar. Chegamos a 1958: outro papel num filme, outra vez de Pierre Kast. 1959: mais um pequeno papel num filme, agora de Roger Vadim. Adaptação cinematográfica da primeira obra de Sullivan, com a qual Vian não concordava: Boris Vian, 39 an0s, morre enquanto assiste a uma projecção privada do filme: cumpre uma promessa feita dias antes, numa festa dada pelos três déspotas (Vian, Prévert e Ergé) em honra do barão Mollé que fora eleito curador dos Patafísicos: Morrerei antes dos 40.

No dia do funeral as agências funerárias estão paralisadas, devido a uma greve. São os amigos que transportam o caixão. Boris Vian estava prestes a nascer. Boris Vian, dirá Raymond Queaneau (escritor que Vian conhecera em 1947 e que foi editor da Gallimard), um dia chegará a ser Boris Vian.

Em Portugal há obras de Boris Vian publicadas em várias editoras: Assírio & Alvim, Publicações Dom Quixote, Relógio D'Água, entre outras. A Relógio D'Água começou, julgo que em 2003, uma nova colecção intitulada "Obras de Boris Vian". Não sei como vai a publicação. Na última vez que me apercebi tinha quatro títulos publicados: três de Vernon Sullivam (Elas Não Percebem Nada, Morte aos Feios e Irei Cuspir-vos nos Túmulos) e uma de Boris Vian (A Espuma dos Dias).

*terceiro post da série "escritores do meu panteão"; o primeiro pode ser lido aqui, o segundo pode ser lido aqui.

domingo, 8 de março de 2009

8 DE MARÇO*

Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir-se de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.


Alberto Caeiro, excerto do poema VIII de "O Guardador de Rebanhos"

*O Dia Triunfal! Os Pessoanos sabem do que falo!

sábado, 7 de março de 2009

POR AMOR*

Cantar o Amor é a tarefa mas fácil, mas também a mais difícil, que um Poeta enfrenta. É a mais fácil porque o Amor é, em si mesmo, Poesia. É o tema universal tantas vezes cantado, não apenas em verso, mas também em prosa e em música. Mas é por tudo isto também a mais difícil das missões de um Poeta. Por ser um tema tão explorado, tão sofrido, tão contraditório. É um missão tão agradável, quanto ingrata.
Torquato da Luz canta o Amor nas suas diversas, contraditórias, e paradoxais faces. Através da alegria e da dor, através da luz e da escuridão, através do aconchego e da solidão. Mesmo quando não fala de amor, é de amor que fala. O amor através dos sentidos. É dentro do olhar que principia/ essa penumbra que, expulsando o dia,/ pouco a pouco enevoa tudo em volta/ e onde era luz semeia escuridão. (O Olhar, p. 8) E que penumbra, que manhã é essa, senão o amor, ou a sua ausência, que marca, ritma, e move os nossos dias, o nosso compasso interior?
Esculpidos através do sentidos (a visão, o (con)tacto com o objecto amado), os poemas de Turquato da Luz contém os ensinamentos, avisos e sinais, próprios dos grandes poetas, sem serem pedantes ou moralistas: Decerto pensas: quando se ama,/ não há nada a fazer./ Eu, porém, digo-te: há tudo. (Quando se Ama, p. 23) Porque o Amor é tudo e é nada. Porque por Amor se faz tudo, mesmo quando já nada se pode fazer, e ainda se ama na recordação, na memória, nas lembranças que os sentidos cravam na alma e no corpo, que ainda olha o horizonte. Hei-de lembrar-te ainda, quando o vento/ tiver varrido as folhas da memória/ e nada mais couber na nossa história/ de amor do que o direito ao esquecimento. (Solidão, p. 44)
Uma obra a ler no aconchego dos braços de quem se ama. Ou, na sua ausência, no aconchego das lembranças, quiçá numa tarde quente de Verão, junto ao Cais (p. 48): A sós, no cais, olhando o barco que partia,/ não era de ti que me despedia,/ mas de mim, que nessa hora/ sem acenos me fui embora.

sexta-feira, 6 de março de 2009

...se a maioria os homens dizem que seriam lésbicas se fossem mulheres, porque é que a maioria das mulheres não são lésbicas?

quarta-feira, 4 de março de 2009

PRÉMIO DARDOS

Fui distinguido pela quarta vez com o Prémio Dardos, depois de este troféu blogosférico me ter sido atribuído pelo Pinguim, pela Estrela Cadente, e pelo Pinto. Desta vez foi o Leivão que decidiu presentear-me com este prémio, que agradeço: "Com o Prémio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, étnicos, literários, pessoais, etc. Que em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web." Não vou atribuir o prémio a ninguém. Ele é para todos aqueles que sigo, que leio, que linko (listas desactualizadas por pura preguiça, e porque para fazer bookmark basta carregar na estrela do Mozilla Firefox).

segunda-feira, 2 de março de 2009

DE PROFUNDIS - OSCAR WILDE (II)*

Mas nós que vivemos na prisão, e em cujas vidas o único acontecimento é a tristeza, temos de medir o tempo pelas palpitações da dor e pela recordação dos momentos amargos. Nada mais temos em que pensar. O sofrimento - se bem que te possa parecer estranho - é o motivo pelo qual existimos, porque é o único meio pelo qual nos tornamos conscientes da existência. E a recordação  do sofrimento no passado é-nos necessária como garantia, como testemunho, da continuidade da nossa entidade. Entre mim e a recordação da alegria existe um fosso não menos profundo do que o existente entre mim e a própria alegria em toda a sua actualidade. Se a nossa vida em conjunto tivesse sido aquilo que o mundo imaginava, uma simples vida de prazer, devassidão e riso, eu não seria capaz de me lembrar de uma única passagem dela. Porque foi cheia de momentos e dias trágicos, amargos, sinistros nos seus avisos, insípidos ou terríveis nas suas cenas monótonas ou violências inesperadas, eu posso ver ou ouvir cada incidente pormenorizadamente.

Oscar Wilde, in De Profundis.

*E quem nunca teve um(a) Douglas na sua vida?

domingo, 1 de março de 2009

A VERDADE DAS TRÊS MENTIRAS

Como dito aqui, O Arsène Lupin desafiou-me para escrever 9 coisas sobre mim, sendo que 3 delas deviam ser mentira. A última parte deste desafio consiste em escrever novo post, onde se devem revelar quais as mentiras. Entre parêntisis deixo a verdade das três mentiras:

1) Sou um consumidor compulsivo;
2) Tenho um filho (mentira, pois tenho dois);
3) Sou viciado em café, chocolate, tabaco, e livros;
4) Tenho todos os CD's dos QUEEN duas vezes, e tenho todos os livros do Fernando Pessoa, também duas vezes;
5) Faço colecção de selos, calendários, moedas, postais, e bonecos dos ovos Kinder;
6) Já vivi em 8 países diferentes: Portugal, Suiça, França, Holanda, Espanha, Itália, Luxembro, e Inglaterra (mentira, pois a estes 8 falta ainda juntar o nono em que vivi: Alemanha);
7) Fico stressado quando passo mais de meio-dia sem ver o e-mail;
8) Tenho uma conta na Suíça, com bastante dinheiro, para um dia comprar a minha casinha à-beira Lac Léman (mentira, pois já comprei a casa à beira do Lac Léman. Como consequência a conta ficou muito perto do zero, e não há maneira de o saldo voltar a crescer);
9) O meu maior desejo, quando morrer, é que atirem as minhas cinzas ao Lac Léman.

"O" MELHOR GUITARRISTA DO MUNDO... "PISTOLAS"



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