segunda-feira, 19 de outubro de 2009

ONDE JUSTIÇA É SINÓNIMO DE VINGANÇA*


Para os leitores-não-leitores da Bíblia, uma breve e muito sucinta explicação da Bíblia: Bíblia quer dizer, literalmente, Livro. O mesmo que Corão. A Bíblia é um conjunto de livros, divididos em dois grupos: O Antigo Testamento e o Novo Testamento. O Antigo Testamento pode ainda dividir-se [as classificações, divisões, etc., como devem imaginar. podem ser muitas e diversas, consoante os critérios adoptados, esta é a minha divisão] entre o Pentateuco (literalmente, cinco livros, os cinco primeiros livros que compõem a Bíblia: Génesis; Êxodo; Levítico; Números; e Deuteronómio) e os restantes; bem como no Novo Testamento há [em minha opinião] dois grupos distintos: Os Evangelhos [que são quatro: Mateus, Marcos, Lucas, e João] e os restantes (embora Actos dos Apóstolos possa perfeitamente integrar-se no primeiro grupo). Na exegese oficial, é usual dividir, tanto no Antigo Testamento, como no Novo Testamento, os livros em três grupos: os livros históricos, os didácticos, e os proféticos. Ora, em minha opinião, denominar histórico o Génesis, por exemplo, é perfeitamente idiota, e apenas na cabeça de um criacionista tal coisa pode ser possível. Quanto muito didáctico.

A polémica em torno das palavras de Saramago apenas têm uma justificação, como escrevi no post de ontem: Ignorância! Saramago, como penso que ele próprio disse por outras palavras, limita-se a constatar um facto! O problema é que a maioria dos católicos que conhecem minimamente a Bíblia, não é a Bíblia que conhecem minimamente! Conhecem minimamente os Evangelhos; o Génesis, pouco; muito pouco de Job, Os Salmos, os Actos dos Apóstolos, e o Apocalipse, nome bonito que mais nada significa que revelação. Aliás o livro com que se encerra o cânone oficial da Bíblia. E além disso conhecem a Bíblia interpretada pelo discurso pulpitular do pároco da diocese... Um excerto de Apocalipse:

Os sete flagelos - E ouvi, vinda do Templo, uma grande voz, que dizia aos sete anjos: «Ide e derramai sobre a Terra as sete taças da Ira de Deus». O primeiro foi derramar a sua taça sobre a terra e uma úlcera maligna e dolorosa feriu os homens que tinham o sinal da Besta e que adoravam a sua imagem.
O segundo derramou a sua taça sobre o mar, que se converteu em sangue, semelhante ao dum morto; e morreram todos os seres vivos que estavam no mar.
O terceiro derramou a sua taça nos rios e nas fontes e estas transformaram-se em sangue. E ouvi o anjo das águas dizer: «Justo és Tu, ó Senhor, que és e que eras, e és Santo, por assim teres feito justiça. Porque eles derramaram o sangue dos santos e dos profetas, também lhes deste sangue a beber; disso são merecedores».(...)
O quarto derramou a sua taça sobre o Sol e foi-lhe permitido queimar os homens com fogo; (...)
O quinto derramou a sua taça sobre o trono da Besta. O seu reino cobriu-se de trevas e os homens mordiam de dor as suas línguas. (...) (Ap 16, 1-10)


Não, a Bíblia não é um livro para crianças!

Obviamente, na Bíblia também existem mensagens de esperança. Também. Não constituem de todo a regra. A regra é a crueldade, a vingança, o flagelo, a praga, a pedrada, a doença, a ira, a dor, o sofrimento, a morte, o sangue, *o contrário de dar a outra face, o castigo arbitrário, sem hipótese de defesa, apenas porque sim, porque deus acorda mal disposto, e considera que isto ou aquilo é pecado ou outra coisa qualquer.

Opinião pessoal, e final: parece-me que não é do interesse dos «responsáveis» católicos, que a Bíblia seja conhecida. Talvez os católicos (e cristãos em geral) se apercebessem finalmente que os seus pastores são afinal fariseus e negociantes do templo... mas isso é outra história...

Adenda: Aqueles que agora se fartam de apregoar que José Saramago é um escritor medíocre, senil, imbecil, ignorante, oco, etc, etc, são os mesmos que aplaudiram os Prémio PEN Club Português (1982 e 1984) e o Grande Prémio APE 1992, são não são?

Adenda 2: Lá está, não sei quem é Anselmo Borges, professor no Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, mas a minha Bíblia Sagrada (sic), Difusora Bíblica, 15.ª Edição, Lisboa - 1991, termina assim: A graça do Senhor Jesus seja com todos vós! Amen. (Ap 22, 21) e não com Jesus Cristo a dizer "Amai os vossos inimigos". Será a minha edição/versão da Bíblia falsa? Ou este senhor que dar ares da sua graça, e o pessoal lê o artigo - impresso no jornal, ou na net - e fica a pensar que sim, que lá está a outra face cristã. Agora, diversas questões se colocam: não devia o jornalista ter consultado uma Bíblia? O sacerdote (sic) está a falar de cor? Está a mentir descaradamente aproveitando a ocasião para apregoar? É apenas uma equívoco? Ora, quando os próprios sacerdotes não conhecem a Bíblia...

4 comentários:

  1. A culpa não será tanto da bíblia mas do markting secular católico. Já há 2 milénios eram muito à frente: markting!!!

    Primeiro creio que se deve ter o mínimo bom senso para se falar e opinar sobre a bíblia.

    Primeiro porque foi um livro escrito por homens, numa determinada Era (ou conjuntos de épocas distintas), com um conceito de vida e sociedade próprio e diferente de todos os que posteriormente existiram.

    Segundo porque é talvez a primeira versão winrar ou winzip, como queiram, de vários textos (nos quais podemos considerar alguns de livros).

    Terceiro, temos de ter em atenção o "Primeiro Concílio de Niceia" como os posteriores; Atender que ouve uma selecção de texto e excertos de acordo com os objectivos e interesses políticos e religiosos da época.

    Quarto, os textos sofreram alterações significativas das suas versões originais. E para quem esteve atento às notícias dos últimos dois anos, deve-se ter apercebido o quanto a tecnologia moderna tem ajudado para uma interpretação dos textos que conseguiram sobreviver estes séculos todos. Só nos últimos 20 anos do século XX, a bíblia recebeu cerca de 4 actualizações, e isso alterou o significado de muitas frases; por isso imagine-se 2 milénios de textos que em nada correspondem aos primeiros. Cada época, cada século, uma sensibilidade diferente e por consequência diferentes interpretações.

    Considero, eu pessoalmente, que a Bíblia actualmente não é mais que uma obra distorcida do que foi inicialmente.

    Quanto ao falar-se de Saramago, é como tudo em Portugal, depois de morto será lembrado como um grande português; vivo não vale muito!

    ResponderEliminar
  2. Concordo com o teu texto e também com Saramago. A Bíblia foi escrita pelos homens e nada tem de divino. É cruel, injusta e promove a perseguição de tudo o que é diferente, exigindo a salvação/ redenção ou a morte. Que Deus é aquele que e cruel, que deixa um irmão matar um irmão ou exige que todos sejamos iguais? Não deveria ser um Deus uno, de amor, compreensão e acima de tudo generoso? Não nos podemos esquecer porém, que a imagem de Deus é dada pela Igreja, que já a vem fabricando desde o seu início. Por tudo isto, e por mais coisas que não tenho tempo de aqui referir, deixei de ser católico. Há muito.

    ResponderEliminar
  3. André
    sei que és um admirador confesso de Saramago e não serás o único, antes pelo contrário...
    Mas espero que saibas distinguir o homem da obra, e estas declarações que são até aceitáveis, só não o são totalmente porque desde há muito, principalmente desde o Nobel, confunde declarações com dogmas por ele determinados.
    O estatuto de escritor não lhe dá o direito de dizer que só ele tem razão; a arrogância está muito próxima da intolerância e eu abomino gente intolerante.
    Abraço.

    ResponderEliminar

Deixe o seu comentário. Tentarei responder a todos. Obrigado