segunda-feira, 11 de maio de 2009

CRÓNICA DE UM PERCURSO ACIDENTADO

Levantei-me por volta das 13 horas após uma semana de trabalho desgastante. Tomei banho, rapei os pêlos da face, almocei, e pelas 15 horas encontrava-me já na Guarda, onde entrei na A23 com direcção ao Restaurante O Guilho, na Amadora. Comigo levava uns rascunhos do Google Maps.
A meio da viagem parei para tomar café, que conduzir na autoestrada é um tédio daqueles que mata! Quando a A23 se aproximava do fim, saí para a Nacional, levado por conselhos que mal-disse durante cerca de 30 km's! Aquilo que se poupa em dinheiro não compensa o que se perde em tempo e, principalmente, conforto. Em Santarém voltei à Auto-Estrada, desta feita a A1. Parei na Póvoa de Santa-Iria para tomar um café com uma amiga. E aqui começou aquilo que foi o apanágio do resto do dia: perdi-me! A sinalização em Lisboa e arredores é, no mínimo, miserável! Tenho para mim que muitas das filas que entopem a capital resultam também da sinalização analfabética! Adiante! Cheguei à Amadora por volta das 19h30m, munido do meu mapa! E mais uma vez: perdi-me! Neste caso ainda estou para descobrir, o que falhou? Era o mapa que não estava correcto? Foi a minha ambidestria, que me faz confundir a direita com a esquerda? Foi o tombar da minha convicção que tenho sempre noção do sítio onde me encontro? Na Póvoa não cheguei a perder-me! Simplesmente, a porcaria da sinalização fez-me desviar de rota por momentos, mas sempre soube onde estava, relativamente ao ponto onde devia estar! Na Amadora isso não aconteceu! Quando me perdi, deixei por completo de saber onde estava! Primeiro, muito calmamente, pensei: bem, vou telefonar ao Paulo ou ao João é já me safo. Eram 20horas e, sei-o agora!, estava a menos de dez metros do restaurante! Constato então que estou sem saldo! Vou procurar um multibanco. Observo as publicidades dos bancos, vejo algumas caixas, mas nenhuma perto de um lugar onde possa estacionar! Até que me resolvo a estacionar o carro e procurar uma a pé: correndo o risco de me perder por completo. Enquanto caminhava para carregar o telemóvel, e o tempo passava (eram quase 21 horas!) dei de caras com uma placa que indicava o nome de uma rua que estava escrita no meu mapa! Carrego o telemóvel, embora esteja convencido que já não necessito de ajuda (este meu ego!); enquanto me preparo para entrar para a fila de trânsito que avança aos soluços cadenciados pelo interminável mudar de cor dos semáforos, o Paulo tenta ligar-me. Com a atrapalhação, o trânsito, e o facto de não ter o auricular colocado no lugar, decido rejeitar a chamada, e arranco no último instante antes de o semáforo mudar de cor novamente! Ligo ao Paulo (antes, também o João me tentara ligar): segundo o mapa estou a menos de 150 metros do destino. Sigo as indicações: ou pelo menos assim o penso! Estaciono o carro no primeiro estacionamento que encontro disponível e vou a correr na direcção indicada... Nada! Como, penso, como? Tem que ser por aqui! Eram quase 21h30! Ando por ali às voltas! Só pode ser do outro lado, então, reflecti. Foi o único momento de verdadeira lucidez! Perguntava a alguns transeuntes se conheciam a rua indicada, mas ninguém parecia conhecer! O nome não me é estranho, mas... Acredito! Eu próprio nunca sei o nome das ruas, nem que passe por elas todos os dias! Dou voltas e voltas até que...! 22 horas, ou quase isso, com duas horas de atraso e o desabar do mito da minha pontualidade britânica (quem vou enganar depois disto?); cheguei!


Depois ainda houve a sessão de leitura, o percurso atribulado até ao Maria Lisboa, a saída às 06h, o fio do motor que se desencaixou, etecetra, etecetra... Porém, isso são outras histórias...

Não sei porquê, mas a blogosfera, e estes jantares faz-me sempre lembrar deste meu poema:

cidades flutuantes  

há cidades longínquas onde as ruas são oblíquas como os sonhos
com becos escuros e recantos húmidos que a noite encobre
com ruelas esguias e esquivas que o desejo domina
cidades aladas com cruzamentos inebriantes como o sexo
com veredas doces adormecendo e carreiros acres como o despertar
cidades invisíveis onde são as raparigas que contemplam os rapazes dormindo

há corpos escorregadios que se envolvem com gestos largos como as estradas que circulam as cidades
corpos que se acendem durante a madrugada e percorrem solitários as avenidas
onde prédios colossais e resplandecentes se erguem como o amanhecer

há fábricas cinzentas com chaminés de chumbo
nos arredores envergonhados como se escondessem segredos indizíveis
onde os finais de tarde são enublados como as manhãs
crepúsculos embaraçados como os rapazes tímidos que esperam os autocarros de mãos nos bolsos
e caem distraidamente nas entranhas do betão
atravessando as chaminés hirtas no horizonte absorto

há desejos invisíveis que cruzam os prédios transversalmente como uma brisa fresca de verão
desejos impossíveis que se vestem às escondidas nos apartamentos dos arrabaldes
ensejos rumorejantes que se concretizam sobre o manto utópico da fantasia

há velhos fitando as raparigas que sobem apressadas escadas infinitas
há caminhos rodopiantes atravessando os sentidos junto aos beirais
há cidades dentro das cidades mudando as cidades
há cidades diferenciando-se dentro das cidades
cidades flutuantes subindo sobre si mesmas até ao infinito


E agora, estar aqui a escrever sobre o jantar, trouxe-me uma fome...! Até Já...

15 comentários:

  1. Amigo André
    recordo-me perfeitamente de ter lido, no teu post sobre o jantar do ano passado este teu bem apropriado poema.
    Uma pessoa perder-se, com todos os eventuais inconvenientes, dilui-se totalmente no momento em que "encontra"...
    E sábado, ao abraçar-te pela primeira vez, acho que metafóricamente, também temos andados "perdidos" na virtualidade da blogosfera, mas, e não importa a que horas, acabámos finalmente por nos encontrarmos. O que falámos terá sido curto, até porque eu me "perdi" sem ir à "M.L.", mas foi o suficiente para ter vontade de te encontrar mais vezes e de falar muito mais contigo.
    Obrigado por teres vindo; só esse facto, permitiu-me arrumar para "canto" algumas desilusões de certas ausências inesperadas.
    Abraço, agora muito mais sentido.

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  2. caríssimo, a nossa sinalização é de morrer perdido! sempre foi e continua a ser. quem não conhece o sítio vê-se no mínimo grego para ir ter certeiro ao local. o gps ajuda mais que qualquer mapa.
    os percalços que te rodearam antes (como ficares sem saldo) e depois, também não ajudaram nada. caramba. mas chegaste! e nós ansiosos por te conhecer e te termos entre nós.
    lembro-me bem do poema! e como a fome das pessoas, dos amigos se mata com a presença!

    um grande abraço! e um agradecimento muito especial pelo esforço que fizeste para estares connosco!

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  3. A resposta certa é: GPS!
    Eu uso e recomendo :)
    Não faz refeições como a Bimby, mas faz maravilhas...
    E livravas-te de te perder e de andares atrás de carros com co-pilotos que vinham na conversa... :)

    Mas se vires bem, deste sempre a volta por cima: se fosse o problema do fio eléctrico, eu teria de cha"g"ar o ACP...

    E assim fica mais uma história para mais tarde recordar!

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  4. ola mano. Acho melhor comprares um GPS... Mas nao penses que ele é inteligente... Por vezes leva-te para os trajectos mais complicados... beijinhos

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  5. Foi de facto muito acidentado. Mas pelo menos não meteste "gasosa" em vez de gasóleo no carro, como eu fiz no ano passado...

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  6. E prontos, mais um post sensacional originado pelo jantar maravilha!

    Já é a quarta vez que escreve isto e chego à conclusão que estão a ser demais, não nos falamos nas 4 horas em que estivemos no mesmo salão, um jantar de blogs era óptimo no fim de semana que vem, lol, coitados do João e do paulo, ainda mal se refizeram das desilusões e eu já quero mais paródia!

    Da próxima vai ser mas fácil agora que te leio!

    Abraços

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  7. Olá Pinguim, olha que pela primeira vez na minha vida, fiquei uns minutitos sem a mínima noção do local onde estava. Geograficamente falando, estava absolutamente perdido. Depois recuperei a noção do local onde estava, sabia que estava muito perto, mas não dava com a rua! E não queria telefonar porque embirrei comigo mesmo que tinha que encontrar a rua! Abraço.

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  8. Olá Paulo, preciso realmente do GPS! Mas sou muito avesso a esses gadgets modernos! Penso sempre neles como em brinquedos para gente crescida! Pegar num mapa é muito mais excitante! Pese embora que por vezes com resultados catastróficos!... Porém... E se o sinal do satélite falha...? Não gosto de estar dependente de um brinquedo... Mas, enfim, cheguei! Chegamos sempre onde somos esperados...

    Abraço

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  9. Olá enginethrobs, eu vendo lições de mecânica para principiantes! (ainda não tenho o nível avançado, embora já troque filtros e pneus...)

    Vou pensar no caso do GPS...

    Quanto aos co-pilotos... não batemos! Ufff

    Abraço

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  10. Olá mana, achas mesmo que devo?! Achas mesmo que eu confio nesses aparelhinhos?! Beijinhos e até daqui a uns dias...

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  11. olá TongZhi. Também, só me faltou isso! Em que estavas a pensar, já agora?! Abraço.

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  12. Olá F3lixP; obrigado pela generosidade exagerada com que adjectivas o meu post!... Espero que não te aborreças e que voltes mais vezes... Abraço

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  13. Falei do jantar no teu post seguinte, desculpa a minha falta de "sincronização" mas estou a ver tudo por ordem de actualização...
    O carro não deu mais problemas?

    Abraço

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  14. Olá A, queres que faça uma lista?! Há um local apropriado para aquele #$%&"=! sabes qual? A sucata!

    Agora a sério, não (por enquanto!) vamos lá ver por quanto...

    Abraço

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