quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O DIA DOS NAMORADOS #5

Para que não restem quaisquer dúvidas quanto à minha posição relativamente à "questão" do casamento entre indivíduos do mesmo sexo:

Uma igreja elevava-se ao fundo da avenida por onde seguimos. A fachada branca apontava imponentemente para os céus, com duas torres laterais, onde quatro sinos lúgubres entoavam fortes badaladas de hora a hora. Quatro degraus conduziam ao pórtico, onde permanecemos alguns instantes, antes do Fábio me puxar lá para dentro. O ambiente frio e soturno da igreja contrastava com a tarde quente e iluminada. Um arrepio dominou-me.
Ao fundo, duas velhotas rezavam ajoelhadas, e uma terceira, sentada alguns bancos à frente ia pendendo a cabeça. Estavam as três vestidas de negro, com longos véus cobrindo-lhes as cabeças, viúvas da vida, esposas da tristeza, procurando consolo numa realidade transcendente, que por não compreenderem não podiam questionar com a dureza com que encaravam a vida que as maltratara. Subimos pela coxia em direcção ao altar.
As velhotas levantaram a cabeça, fixando-nos com admiração e estupefacção, provavelmente por verem dois jovens irromperem num espaço de velhos. A curiosidade fê-las parar as suas rezas maquinais. Os lábios que se mexiam, quase sem deixarem de se tocar, cerraram-se. Sentámo-nos no último banco, aquele que se prostra divinamente, frente ao altar, sem se ajoelhar.
Elevada atrás e acima do altar, pendia uma cruz com um cristo moreno e musculado, de longos cabelos ondulados caindo-lhe lubricamente sobre o peito. A cabeça tombada para a esquerda e uma expressão absorta de dor. Um belo peito definido e a barriga encolhida com os abdominais salientes. À cintura uma pequena prega de pano cobrindo-lhe a denúncia da sua humanidade, deixava entrever as vergonhas humanas. Pelos vitrais das enormes vidraças entravam alguns raios de luz coloridos, espalhando-se sensualmente sobre o corpo do cristo.
– Amo-te! – Disse-me o Fábio, baixinho, e chegando a sua cabeça junto da minha. As velhotas lá atrás olhavam-nos com curiosidade crescente. Espreitei de soslaio. Apercebendo-se do movimento da minha cabeça, recolheram às suas orações. Entretanto a terceira velhota, a mais velha delas todas, adormecera profundamente. Da testa pendiam-lhe cabelos soltos, e os sulcos das rugas enchiam-se de suor. O nariz adunco ia pingando sobre o seu vestido negro, e a respiração pesada começava a encher lentamente a igreja.
– Eu também te amo…
– Se pudesses, casarias comigo? – No instante em que acabava a pergunta pegou na minha mão direita, apertando-a com força. Entrelaçou os seus dedos nos meus e pousou as nossas mãos unidas sobre as suas calças de bombazina bege. Do alto da sua cruz, cristo parecia olhar-nos com enlevo. Uma velhota tossiu. A terceira acordou, reatando as suas rezas, com o terço enlaçado entre as pregas de pele aveludada dos dedos trementes. Entretanto, entrou um casal de mão dada. As duas velhotas ajoelhadas seguiram o seu percurso com o olhar. Subiram pela colateral, admirando os pormenores da igreja, passaram por nós sem nos ligar atenção, fizeram a genuflexão quando chegaram à frente do altar, prostrando-se alguns segundos a olhar o cristo divinizado e saíram pela coxia.
– Então, não respondes, casarias comigo?! – Insistiu o Fábio, largando a minha mão e indo apertar o meu joelho despido.
– Casaria...
– Prometes amar-me para sempre?
– Prometo…
Segredando-me ao ouvido, pediu-me para repetir a pergunta que ele fizera.
– Prometes amar-me para sempre?
– Prometo! – Respondeu prontamente. Remexeu os bolsos, retirando dois anéis de prata. Pegou na minha mão, enfiando um deles no meu dedo. Deu-me o outro e esticou-me a sua mão. Realizei o mesmo acto.
– Agora estamos casados! – Declarou-me com veemência. Agarrou-me pelos ombros e deu-me um beijo rápido e furtivo. Olhei para trás. As velhotas rezavam distraidamente.
– Vamos embora? – Perguntei-lhe.
– Não. Vamos ficar aqui um bocado. Apetece-me estar ao pé de ti. Só estar ao pé de ti, mais nada. – Encostou a cabeça no meu ombro e adormeceu. Agarrei a sua mão, e assim permanecemos longas horas. A terceira velhota foi a primeira a sair. Minutos depois saíram as outras duas, deixando-nos a sós na igreja fria. Os raios de sol que entravam pelas vidraças iam perdendo inclinação e vigor, até que a escuridão invadiu a igreja. Cristo continuava a fitar-nos, como se o seu interesse em nós crescesse, até que a negridão fechou os seus olhos.

In Os Cadernos Secretos de Sébastian

6 comentários:

  1. O amor é mesmo isso. Melhor, o verdadeiro amor é mesmo esse: o que enfrenta os olhares frios e compreensivos; o que ultrapassa todas as barreiras sejam elas de que natureza forem!
    Está absolutamente fantástico! Adorei!

    Beijinhos

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  2. É uma bela ideia: casamentos oficializados pelo olhar atento de Cristo que APROVA sempre, quando uma união é autêntica e verdadeira.

    O texto também é belo :)

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  3. A mensagem não poderia ser mais perfeita, mais bela, mais pura e autêntica. Que bom seria se tudo fosse assim tão simples e tão belo, como é o verdadeiro AMOR. Parabéns, gostei muito!

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  4. Olá Daniel; julgo que a única aprovação necessária é a dos próprios, mas - enfim - isso é outra história... Abraço

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